Jornalistas do dia-a-dia do clube falam de João ao Toque

O Toque de Bola pediu aos jornalistas Ailton Alves, que já atuou na assessoria de imprensa do Tupi, e Thiago Stephan, que hoje exerce essa função, depoimentos de quem conviveu mais de perto com João Pires. Ainda sob a tristeza do impacto da notícia de seu falecimento, eles passaram um pouco do sentimento carijó diante da perda e da saudade.

Confira os depoimentos da dupla ao Toque de Bola 

Thiago Stephan – Assessor do Tupi

“A notícia foi recebida no clube com muita tristeza, não podia ser diferente, pois o João Pires foi um dos maiores jogadores da história do Tupi. Faço questão de destacar que o João viveu 55 anos dentro do Tupi. Nesse período ele passou por várias funções, foi jogador de grande destaque, técnico, presidente do clube, só não ocupou a presidência do Conselho Deliberativo. Muito ativo dentro do clube, era muito empenhado na atual gestão em recuperar a sede social do Tupi. A sensação que nós temos é de um vazio muito grande e muito difícil de ser preenchido, por tudo que representou o João Pires para a história do Tupi.”

“Me recordo que no dia 21 de abril, no jogo entre Tupi e Cruzeiro, pelo Campeonato Mineiro de 2013, no intervalo da partida, com cobertura do Toque de Bola, de um João Pires muito emocionado ao receber uma camisa com o número 66 nas costas, em alusão ao ano em que foi construída a lenda do Fantasma do Mineirão. Foi uma iniciativa da atual diretoria em homenagear aqueles que ajudaram a construir a história do clube. Pelo menos conseguimos homenageá-lo em vida, por tudo o que ele fez, por tudo que ele representou ao Tupi.”

“O João Pires ainda tinha muito para contribuir ao Tupi, por toda a experiência que ele tinha e toda a vitalidade que ele demonstrava aos 71 anos.”

“Um cara muito querido por todos. Quando a gente estava conversando com o João Pires, a sensação era de estar falando com a história viva do Tupi, uma enciclopédia do futebol quando o assunto era o Galo Carijó. É uma perda inestimável, uma cicatriz que vai ser difícil de fechar.”

Ailton Alves

“Estive com o João Pires dez dias atrás, para coletar histórias para a revista do centenário do clube, que eu estou tentando produzir, e tive a sorte de ter a percepção antes de ele falecer, que o João é aquele caso clássico: se a lenda é mais importante que a verdade, divulga-se a lenda. Tudo que ele viveu no Tupi, tudo que ele deu ao clube, tem um aspecto de lenda e ao mesmo tempo é uma verdade absoluta. Ele tinha 15 anos quando os dirigentes do clube foram buscá-lo no colégio para ele entrar no time contra o Vasco da Gama, em um amistoso em Santa Terezinha. Parece lenda, mas não é. Ele entrou no time com essa idade e, de certa forma, nunca mais saiu. O João Pires nunca desvestiu a camisa carijó, tanto que anos depois foi o nome proeminente do Fantasma do Mineirão, uma outra página lendária da história dessa homem. Quando você queria tirar essa história do lendário e colocar no real, era a presença do João Pires, que estava sempre por perto para nos apontar que espectro do Fantasma Carijó é uma coisa muito real.”

“O João foi presidente do clube e em uma semana de Tupi e Atlético ele demitiu o técnico do time, em 1991, assumiu a direção técnica do clube e o time venceu o Atlético, depois de um grande jejum de vitórias contra o Galo da capital. Trago outra frase feita, mas no caso do João Pires é absolutamente perfeita: o Tupi perde uma parte da sua história. Por mais que a gente vá recordar de tudo que ele fez, ela é irreparável, no sentido de que não será ele mais quem contará essas histórias, com alguma pincelada a mais. Ele tinha isso. Você ouvia uma história dele em determinado ano e tinha todos os detalhes. No ano seguinte, ou ele lembrava ou simplesmente acrescentava um outro detalhe de momentos brilhantes do Carijó.”

“Foi uma facada que nós levamos, que realmente decepou uma parte da história carijó, que será impossível de suplantar. Foi-se embora com o João uma coisa que talvez o Tupi nos próximos 100 anos não recupere.”

“Nós podemos reclamar de muita coisa de direções anteriores ou da atual direção do Tupi, mas uma coisa eu acho que a gente deve fazer justiça aos ex-presidentes e também ao Aureo. O Tupi, de certa forma, nunca abandonou seus ídolos. O Geraldo Magela sempre foi tratado com toda pompa e circunstância, assim como o Toledinho, o Murilo. Isso é uma boa característica do Tupi, independente de nomes, de dirigentes. Graças a Deus, o João foi realmente muito homenageado. Vale lembrar que o CT, que é o sonho da atual diretoria, que será construído no Retiro, já tem o nome João Pires. Não é uma homenagem póstuma, eu garanto isso porque estive dentro do clube e já estava sacramentado que, se o CT saísse do papel, teria o nome dele. Inclusive conversei com o João sobre isso, perguntei para ele se esse CT sairia do papel ou não. Ele, todo modesto, brincou que queria que estivesse pronto enquanto ele ainda estivesse vivo. Ele infelizmente não vai ver a obra pronta, mas já seria homenageado dessa forma, além de outras, como a camisa dada a ele de presente, em alusão ao Fantasma do Mineirão. No próprio Mineirão tem uma placa homenageando aquele time. Ele foi grande demais, mas felizmente mora no coração carijó há muitos anos e não temos essa tristeza adicional de ter deixado passar sem ser lembrado.”

“O grande barato do João Pires é que não tinha aquele discurso de que no tempo dele o futebol era melhor. Ele não tinha esse tipo de nostalgia, de criticar o futebol de hoje. Era um cara que vivia mesmo o momento, preocupado com as coisas que o torcedor fica. Ele ficava preocupado com a má fase do Ademilson. Ele chegava em Santa Terezinha, sentava no Bar do Evaldo, dentro do clube, olhando o treino. Quando o Adê não estava treinando ele já perguntava e falava: “Estou preocupado com o Ademilson, o Negão tem futebol ainda. Ele com um pé só é melhor que muito centro avante”. Ele tinha essa dinâmica de um torcedor mesmo, independente de ser um dirigente do clube. E a gente sabia que ele falava isso para o bem do Tupi, ele sempre pensou assim. Não é porque ele era amiga do Ademilson, ou então porque não gostava dos substitutos, mas é porque era um Carijó de alma mesmo. É impossível dizer qual a melhor história dele. A melhor história era ele próprio. A dimensão épica das coisas que ele fez com a camisa do Tupi.”

Foto: Ângelo Savastano/Toque de Bola

 

 

 

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