Homenagem: “Se gostar, peça bis ao Alencar”, história do rádio que virou tatuagem

MEMÓRIA DO RÁDIO DE JF.
Homenagem à Super B3. Na foto, Cláudio Temponi, Natálio Luz, José Alencar, Jorge Maravilha, Paulo César Magela, Paulo Emerick e José de Barros

“Você é filha do Alencar, do programa da rádio”?

Este é um trecho do depoimento feito ao Toque de Bola por Alessandra, filha de José de Alencar Ferreira Chaves.

O radialista e publicitário que marcou época, principalmente com o programa na Rádio PBR3 “Se gostar, peça bis ao Alencar”, morreu, aos 78 anos, na madrugada de domingo, dia 20 de março de 2022, por complicações de saúde.

Durante a semana, conversamos com Alessandra, que falou em nome dos familiares e mostrou a tatuagem que fez com a letra do pai em suas costas com o nome do programa.

Ouvimos também pessoas que conviveram com Alencar em épocas diferentes na rádio. Mas a pesquisa nos levou também a outros palcos e ótimas histórias.

Ouvimos Maurício Menezes, o Danadinho, consagrado locutor esportivo, contemporâneo de Alencar na emissora juiz-forana. Maurício depois seguiu para o Rio de Janeiro, com grande sucesso, e hoje mora novamente em Juiz de Fora.

Conversamos com o jornalista Márcio Guerra, que enfatizou a importância de Alencar nas transmissões esportivas pelas emissoras de rádio da cidade. Em determinado momento, as emissoras locais, que antes entravam em conexão com coirmãs do Rio de Janeiro nas coberturas de futebol, decidiram elas mesmo fazer a cobertura, principalmente no Maracanã (sem deixar de cobrir o futebol local, diga-se de passagem).

Conjunto Primus

E, no meio do caminho, um conjunto musical

E quando tivemos a oportunidade de conversar com Mário Manzolillo de Moraes, o Mário Cesar, que lançou Alencar na PRB3 há mais de 50 anos, acabamos estendendo o foco da homenagem para (re)descobrir o Alencar cantor, “crooner” e empresário do bem sucedido à época Conjunto Primus.

Com o apoio da Alessandra, contactamos também o José Carlos Lima da Mota, que trouxe ótimas recordações e fotos desta turma, movida na época pelo sucesso dos Beatles e da Jovem Guarda, que “sacudiu” os bailes e madrugadas. E na memória do Zé Carlos ainda vive o Alencar entoando a canção italiana “Zingara”.

Com todos os filhos e todos os netos, em Cabo Frio

Com os depoimentos destas pessoas, e com as informações da pesquisa do radialista Carlos Ferreira, que faz um levantamento  da carreira dos comunicadores da cidade e região, apresentamos aqui nossa homenagem a José de Alencar.

  “Sim, eu liguei para o Peça Bis”

E se vale um depoimento pessoal, já antecipo: sim, eu ligava de um telefone fixo (mesmo porque não existia outro…) para a emissora na época e escolhia uma das músicas que estavam sendo votadas. E quando a música escolhida por nós era a mais votada, aquele dia já estava ganho, não importava mais o que viesse a acontecer até o final da noite.

E já que estamos quebrando o protocolo do texto mais jornalístico (olha que o Alencar pode puxar a nossa orelha, hein?) acrescentamos uma impressão, ou constatação, talvez.

Quando nos dispusemos a saber um pouco mais da história de um personagem marcante da nossa comunicação e cultura, como José de Alencar, nos “redespertamos”, com o perdão da invencionice do termo.

Como Juiz de Fora tem história, tradição e fatos marcantes!

Como a cada (re)visita ao passado, nos deparamos com tanta gente boa e de talento.

Então vamos lá, aos principais trechos e depoimentos. Ah, e fotos, claro!

   Informações de Carlos Ferreira

José de Alencar na infância

De acordo com informações do radialista Carlos Ferreira, “José de Alencar Ferreira Chaves nasceu em Juiz de Fora em 02 de julho de 1943. Filho de Alencar Ferreira Chaves e Alzira Roberto Chaves (ambos falecidos), foi casado com Dionísia Aparecida Savino Chaves (falecida), pai de três filhos: Alessandra de Alencar Savino Chaves (residente na Noruega), Richardson de Alencar Savino Chaves e Patrick de Alencar Savino Chaves.”

   Carreira

“Radialista (Locutor e publicitário), trabalhou nos Diários Associados, nas rádios PRB-3 e Capital. Na B-3, o programa que o lançou na comunicação foi um programa aos domingos, de 14 às 15 horas, chamado “A Juventude Comanda” que foi o primeiro programa exclusivamente para jovens e que agradava jovens e adultos. Este programa recebia os cantores jovens para divulgar seus discos, tipo Roberto Carlos, etc…

Alencar ao lado de Natálio Luz, um dos grandes nomes da comunicação e da cultura de Juiz de Fora

Por causa desse programa, José Alencar era chamado para ser garoto propaganda de grandes firmas que chegavam à Juiz de Fora, tipo, Ducal. Foi o último programa de auditório de Juiz de Fora. Foi convidado pelo Mário César para fazer o “Se gostar, peça bis ao Alencar” que foi um programa de audiência, chegando a atingir 98%.”

 

 

 

 

 

 Maurício  Menezes:

Mário Manzolillo de Moraes (Mário Cesar) e Maurício Menezes, o “Danadinho”

“José Alencar e eu começamos no rádio praticamente na mesma época, na segunda metade da década de 60 na PRB-3 – Rádio Sociedade de Juiz de Fora, cujos estúdios ficavam na Rua São João quase esquina com Rua Batista de Oliveira. Ele era o responsável pela discoteca da emissora, auxiliado pela saudosa Iná Coelho. Ficou muito feliz quando Mário César, então comunicador e diretor de programação, deu a ele a oportunidade de apresentar um programa, cujo título escolhido foi “Se gostar, peça bis ao Alencar”. Era um programa apresentado de segunda a sexta, às 17 horas, com 1 hora de duração. Ele tocava as músicas mais solicitadas durante a semana, os ouvintes ligavam e escolhiam as 3 melhores, que ele repetia no final do programa. Tinha grande audiência, principalmente entre os jovens.

Alencar sempre foi uma pessoa educada, de bom relacionamento com os amigos e muito generoso. Fez parte da época de ouro do rádio de Juiz de Fora, que foi nas décadas de 50 e 60, quando a concorrência da televisão não era tão forte como hoje. Para que você tenha uma ideia, naquela época os anunciantes procuravam mais a PRB-3 do que ela os procurava. As Casas Franklin devem muito a José de Alencar, pois foi ele, com publicidade, que tornou a loja conhecida.”

 

Márcio Guerra

Márcio Guerra é o segundo da esquerda para a direita também em foto de arquivo. Transmissão de vôlei ginásio do Sport ao lado de Leopoldo Siqueira, Geraldo Muanis, Mário Helênio, Cláudio Temponi e José Luiz Schmitz

“Indiscutivelmente,  quando ele foi diretor de programação da PRB3, foi uma das pessoas que mais incentivaram as transmissões esportivas em todos os lugares. Ele chegou a atuar como repórter, muito mais para ensinar a gente, que estava começando, porque sempre gostou muito de futebol também. Além da direção de programação da rádio, ele tinha como programa mais famoso “SE GOSTAR, PEÇA BIS AO ALENCAR”, todos os dias à tarde, de 16h30 às 17h, que antecedia a Ronda Policial, e tinha também um outro programa que não me recordo o nome.

Alencar em transmissão esportiva

Aqui, ele sempre deu uma atenção especial às equipes de esporte da rádio, sempre foi ligado a Rádio Sociedade e era a voz inconfundível também dos comerciais das Casas Franklin que era um anunciante que ele tinha. Flamenguista doente. Eu nunca soube qual era o time dele aqui em Juiz de Fora porque eu sempre vi ele defendendo os três times e ultimamente muito decepcionado com as gestões dos clubes da cidade.”

 

Alessandra, filha do José de Alencar (em meu nome e dos meus irmãos Rick e Patrick)

Alessandra, filha de Alencar: “Tatuagem que eu fiz há alguns anos. Ele escreveu num papel “Se gostar peça bis ao Alencar” e eu tatuei nas minhas costas com a letra dele”

“Nós temos muitas coisas interessantes para contar que se referem à história do meu pai na comunicação. Nós escolhemos um fato que aconteceu durante toda a nossa vida que consideramos importante compartilhar com vocês.

Desde a nossa infância, durante toda a nossa vida, com muita frequência, as pessoas quando tomavam conhecimento que éramos filhos do José de Alencar vinha nos dizer que ele foi muito importante na rádio na época do programa “SE GOSTAR, PEÇA BIS AO ALENCAR”. Era com muita frequência que os pais dos nossos amiguinhos na infância e amigos na adolescência, os pais chegavam pra nós e perguntavam “você é filha do Alencar do programa da rádio”?

Quando a gente era criança, a gente não entendia porque perguntavam isso sobre o nosso pai, para nós era um pouco estranho e meu pai foi explicando pra gente que na época que nós éramos crianças, o rádio tinha uma importância muito grande na vida das pessoas, elas se reuniam nos horários dos programas populares de rádio e isso era o lazer das pessoas junto com suas famílias. Como nessa época era o rádio que era principal meio de comunicação, o meu pai sendo o radialista de um dos programas de rádio mais conhecidos na época, ele era uma das pessoas mais comentadas em Juiz de Fora.

Com todos os filhos e netos

Eu acho isso muito interessante, converso muito com meus filhos porque quando a gente vê o desenvolvimento da comunicação com a chegada da televisão, da internet. É interessante pensar que teve uma época em era o rádio era o mais famoso e que uma pessoa que fosse um radialista pudesse ser tão conhecido, que todas as pessoas da cidade sabiam quem era essa pessoa e tinham a curiosidade de saber como ele era em casa, queriam perguntar para nós como ele era.

Fomos crescendo, a gente não entendia muito a importância e a intensidade disso, a gente sentia mas perguntava para o meu pai como era isso, tínhamos curiosidade de saber. Ele contava sempre que as pessoas se reuniam na sala de casa para escutar o programa de rádio naquele horário, todo mundo queria ouvir o programa, pedir músicas, as pessoas ligavam para pedir música para ele, e que isso era o lazer maior que existia na época, o que as pessoas mais gostavam de fazer.

A gente achou essa história interessante até para as pessoas mais jovens terem noção de como as coisas mudam, o rádio segue sendo importante, mas tem uma outra forma de importância na vida das pessoas.  Até hoje tem pessoas que descobrem que somos filhos dele e somos muito gratos pela homenagem com nossos pais e a todos que o admiravam e participaram da trajetória dele.”

 

 

Mário Manzolillo de Moraes (Mário Cesar)

  “Alencar foi primeiro um grande discotecário. Depois, inegavelmente seu programa foi recordista de audiência. Temos muitas recordações do sucesso dele. Lembro também que era fã do Roberto Carlos. E talvez o que muitas pessoas não saibam está fora do rádio: Alencar teve uma passagem muito boa como cantor de um conjunto musical”

 

José Carlos Lima da Motta

Conjunto Primus. Da esquerda para a direita, sentados: Euzébio, Tecladista; Wilmar, Guitarra-solo; Miguel, Piston; José Carlos: guitarra-base; José de Alencar(Alencar): Crooner, Administrador e Empresário; Lucas: Trombone de Vara. Em pé: Paulo Rodrigues Filho (Paulinho) Contrabaixo e José Francisco Silvestre (Chico Batera), Bateria

“O conjunto nasceu com uma formação de quatro pessoas, eu era o guitarra Base,  Cunha era o guitarra solo, Paulo Rodrigues filho era o contra baixista e o o primeiro baterista foi meu irmão e depois substituído pelo Cláudio. Nesse período o conjunto chamava WOOD FACE (Cara de Pau). Depois, o pai do Cláudio trocou o nome da banda para Primus. Com a saída do Cláudio, entrou o Alencar e assumiu o conjunto. Ele gostava de cantar, assumiu como “crooner”, gostava muito de cantar Zingara, uma música italiana. Nosso administrador e empresário. Na entrada dele é que o conjunto realmente floresceu. Com a indicação do Alencar, Mateus e  Lucas se juntaram ao grupo que era metal e se tornou a banda Primus.

Conjunto Primus em destaque no jornal da época

Com a administração do Alencar, o grupo tocava tudo, samba, jovem guarda, Roberto Carlos, muita música italiana, diversificada. Tudo começou com os Beatles. E depois entrou a Jovem Guarda. Com o Alencar, isso foi conservado e colocou música popular.  Tocamos muito no Tupi Futebol Clube, éramos exclusivos, várias formaturas, com administração do Alencar, que era impecável e excelente amigo.

Eu conheci o Alencar a partir do programa “Se Gostar,  Peça Bis ao Alencar”. Ele nos viu tocar na Festa das Nações, ou alguma coisa assim, lá no (bairro) Bom Pastor. Ele começou a conversar, se interessou, não houve convite, ele ficou nosso amigo, começou a cantar e acabou ficando. Ele entrou e deu rumo ao nosso barco. Vou fazer 73 anos, fiz uma homenagem ao Alencar com uma adaptação da oração a Santo Agostinho “A Morte não é nada”. E estou entendendo que Alencar está do outro lado do caminho, vivo ainda, sempre semeou alegria, bom pai, grande amigo, grande companheiro, exemplo para nós.

Se não fosse a direção dele, o grupo não teria sobrevivido a saída do Cláudio. Eu costumo tocar ainda em Alto Paraíso em Goiás e tem muito dessas atividades. Dou uma canja em alguns locais. Outro dia eu cantei em um bar, tinha um casal na mesa e a moça veio falar comigo que chorou. As pessoas precisam de calma, paz e tranquilidade nesse momento.”

Nota: o pai de Zé Carlos, Lívio de Oliveira Mota, também foi radialista na PRB3, “quando o estúdio era no Parque Halfeld”, conta.

Nota da redação: após a publicação da reportagem, Zé Carlos informou que “Waldir Marangon Filho, o Dizinho, foi o primeiro crooner, na formação inicial do conjunto, e o meu irmão de sangue, Alexis Lima da Motta, o Alexis, o primeiro baterista”.

Texto: Ivan Elias – Toque de Bola

Fotos: Arquivos Pessoais e pesquisa de internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ivan Elias

Ivan Elias, associado do Panathlon Club de Juiz de Fora, é jornalista, formado em Comunicação Social pela UFJF. Trabalhou por mais de 11 anos no Sistema Solar de Comunicação (Rádio Solar e jornal Tribuna de Minas), em Juiz de Fora. Já foi freelancer da Folha de S. Paulo, atuou como produtor de matérias de TV e em 2007 e 2008 “defendeu” o Tupi, na Bancada Democrática do Alterosa Esporte, da TV Alterosa (SBT-Minas). É filiado à Associação Mineira de Cronistas Esportivos (AMCE) e Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace).

Este post tem 2 comentários

  1. Ivan Elias

    Obrigado pelas palavras, Alessandra. Procuramos, sempre que possível, fazer este registro e este resgate da memória e o Alencar certamente ficou marcado por tudo que fez. Trabalhamos também com o saudoso Wilson Amin na equipe de esportes da rádio. Muito brincalhão, rubro-negro também. Um grande abraço para você, toda a família e para todos que vivenciaram essas histórias.

  2. Alessandra de Alencar Chaves

    Ivan Elias, quero agradecer muito a você e a todos que participaram da reportagem, pelas palavras lindas em homenagem ao meu pai. Ontem fez 2 meses que ele se mudou pro Céu. Sinto muita falta. Ele era meu melhor amigo, nos falávamos todos os dias e ele me orientava em absolutamente tudo. Minha vida nunca mais terá o mesmo brilho. Suas palavras e as palavras dos outros amigos que participaram da homenagem fazem com que meu pai continue muito vivo na memória de todos nós. Gostaria de acrescentar no resumo da história da passagem do meu pai pela Terra, que durante muitos anos ele esteve a frente da agência de publicidade Condominium Propaganda e Publicidade junto com o melhor amigo Wilson Amin de Paula. Amin faleceu poucos anos após o início da Condominium. Papai sofreu muito a morte do Amin. Hoje estão certamente juntos no Céu. Com a Condominium, meu pai criou muitos comerciais e contratou para seus comerciais artistas renomados como Mussum e Fernanda Montenegro. Até pouco tempo antes de sua morte, papai ainda tinha sua voz nos comerciais das Casas Franklin, com a frase que todos lembram muito “Quando Franklin liquida, liquida mesmo”. Um abraço a todos os amigos do meu pai e a você Ivan Elias muito obrigada.

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