Na ‘sede da ONU’: a nova casa de Pilan, ex-capitão do JF Vôlei

Fernando Pilan joga agora no Olimpia Titanii, na Romênia

Fernando Pilan começou uma nova etapa na carreira. Após ser o capitão e um dos nomes na histórica conquista invicta da Superliga B pelo JF Vôlei, o central de 24 anos arrumou as malas, atravessou o oceano e desembarcou em Bucareste, na Romênia.

Agora, na primeira experiência internacional, ele defende o Olimpia Titanii, que estreou na Liga Romena com derrota para o atual campeão, Arcada Galati por 3 sets a 0 (25/19, 25/18, 25/20) neste sábado, 9 de outubro.

Pouco antes da estreia, Pilan conversou com a reportagem do Toque de Bola e da webradio Nas Ondas do Toque sobre as lembranças e aprendizado com o JF Vôlei, o novo desafio, a adaptação na Romênia, um perrengue “de juvenil” e o encontro com os companheiros de time que vieram de diferentes lugares do mundo.

“A gente tem um argentino, temos um russo, um sérvio, temos um levantador da Letônia, tem um conterrâneo de Portugal, está pra vir um oposto da Colômbia e um outro central da Nigéria. Tem bastante estrangeiro aqui, dá pra falar que é uma sede da ONU”, brincou.

#partiuRomênia

Este foi o ponto de partida do caminho que levou Pilan até o Olimpia Titanii, que teve a contribuição do JF Vôlei não conseguir confirmar a vaga na elite do vôlei brasileiro.

“O que me levou a aceitar a proposta foi a retirada sábia que o JF Vôlei teve da vaga para jogar a Superliga. Infelizmente ele não conseguiram arrecadar fundos, arrecadar patrocínios para poder conseguir ter uma temporada digna que é o que a equipe merecia”.

Fernando Pilan com a família antes de ir para a Romênia

Ao saber que Pilan ainda não tinha propostas para a temporada, um amigo disse que conhecia um manager da Romênia, que poderia ajudá-lo a conseguir um novo clube.

“Ele falou que o manager conseguia umas propostas boas para estrangeiros jogar na Romênia. Perguntou se podia passar os [meus] contatos, eu falei que podia, o manager me chamou e a gente começou a conversa. Ele pediu vídeo de jogo da última temporada, eu passei. Depois ele veio com a proposta. Eu conversei com meu empresário do Brasil, a gente chegou num acordo e firmamos um contrato para a minha primeira temporada fora”, contou o central.

Pilan disse que considerou todos os pontos que a experiência poderia contribuir para a vida pessoal e profissional, por isso, a resposta foi sim.

“Eu aceitei porque seria uma proposta muito boa para meu crescimento pessoal. Enfrentar uma outra cultura, uma outra língua, ter que aprender Inglês, jogar fora do Brasil, estar longe da família tanto tempo e claro que também a proposta financeira. No Brasil nenhum clube conseguiria chegar perto da proposta que eu acabei recebendo aqui”, explicou.

Adaptação tranquila,  jejum chato

Morar em outro continente, em um país diferente, com outro idioma tanto pode parecer uma aventura quanto assustador. No entanto, Pilan destaca que a adaptação está sendo tranquila.

“Quando eu cheguei aqui eu já fui direto para um camping, como se fosse uma pré-temporada, a gente ficou lá duas semanas. Por coincidência, esse camping foi em um centro olímpico da Romênia. Nós estávamos lá para fazer essa pré-temporada, a gente tinha que ficar isolado, a gente não tinha liberdade de sair por conta da condição da pandemia que impedia de fazer isso”.

Fernando Pilan (camisa 20) sobe no bloqueio na estreia do Olimpia Titanii na Liga Romena contra o Arcada Galati Foto: CS Arcada Galati/Facebook

Por causa do novo coronavírus e do foco no jogo de estreia no Campeonato Romeno, Pilan ainda não conseguiu “turistar” na capital.

“Tirando a barreira da língua que, no começo foi bem difícil, está sendo uma adaptação tranquila. É uma cidade grande, parecida com São Paulo. Ainda não deu para conhecer muito porque a gente está treinando bastante, também tem a questão da pandemia, por não estar vacinado, eu não consigo ter total liberdade para ir a todos os lugares”.

Ele deve se vacinar em breve. Enquanto isso, estava comemorando que o único perrengue que tinha enfrentado foi o jejum obrigatório para encarar a bateria de exames médicos.

Mas aí veio o jogo de estreia…

Cadê o uniforme?

A estreia na Liga Romena foi em Galati, cidade do atual campeão do país. A delegação do Olimpia Titanii viajou na sexta para fazer o treino de reconhecimento da quadra. Pilan contou que arrumou a mala na quinta à noite, antes da aula de Inglês e pensou que estava tudo certo.

Ao chegar em Galati, foi atender o pedido de fazer uma foto para enviar para a assessora da empresa que o agencia. Abriu a mala e percebeu que tinha um problema para resolver.

“Tomei meu banho, arrumei o cabelo, fui pegar o uniforme para tirar a foto… Cadê o uniforme? Não estava na mala.  Aí eu já comecei a entrar em desespero, arranquei todas as roupas da mala e olhei realmente não estava. eu falei: ‘Meu Deus, tô ferrado agora, primeiro jogo meu internacional como profissional e eu esqueço o uniforme! Pronto, não vou jogar”, narrou.

Salvo pelo preparador

O jeito foi avisar por mensagem o treinador de que o uniforme do jogo tinha ficado no hotel em Bucareste. O técnico perguntou o número do quarto dele e não respondeu mais nada. Aí foi o momento do desespero e da autocrítica até receber a notícia salvadora.

Fernando Pilan passou por um susto antes de estrear pelo Olimpia Titanii 
Foto: CS Arcada Galati/Facebook

Aí fiquei com uma vontade de rachar a cabeça na parede. Foi um erro de juvenil esquecer o uniforme. A gente desceu pro almoço, falei com o coach, e ele falou que o preparador físico estava vindo e ele ia trazer meu uniforme. Nossa, fiquei relaxado nessa hora, mas até ele me falar isso eu fiquei num desespero, fiquei inconformado com esse erro”, conta.

O fim da história? Muitos agradecimentos, especialmente ao preparador físico, e uma lição para não esquecer nunca mais.

“Vou ter que pagar umas cervejas para a galera, uma coisinha a mais para o preparador físico, ele que me salvou! E está tudo certo agora. Quarta-feira a gente tem jogo, terça a gente viaja de novo, o uniforme já está lavadinho dentro da mala para não esquecer. Desta vez não tem erro”, garantiu.

JF Vôlei: divisor de águas 

Depois de anunciar que jogaria pelo Olimpia Titanii, Fernando Pilan fez questão de publicar nas redes sociais um agradecimento público para o JF Vôlei.

“É um time que eu guardo no meu coração, ele fez ser quem eu sou nessas duas últimas temporadas. Então, além da declaração que eu fiz pra eles após a temporada no whatsapp, me senti na obrigação de fazer uma declaração pública para mostrar esse carinho e essa gratidão que eu tenho pela minha passagem por Juiz de Fora. Eu quis mostrar o meu carinho publicamente para eles porque não tem palavras”.

Ele confirma que a experiência em 2020/2021, que ele considera uma temporada excepcional, o transformou bastante.

“A última temporada do JF Vôlei mudou bastante a minha postura como jogador. Além de adotar a postura que o Marcão e o Bara falavam com todos nós jogadores de que cada jogo é uma final, cada dia é um dia, lutar como se fosse o último, isso ajudou bastante e mudou a minha mentalidade em relação a tudo”.

Além disso, o fato de ser o capitão permitiu que evoluísse em outros aspectos. Tanto que ele garante que existe um Pilan “antes e depois” do JF Vôlei.

“A posição de capitão também me ajudou a enxergar outras coisas, a manter o time unido, a saber a hora de falar e qual não era, de dar uma puxada no time, de falar alguma coisa para incentivar. Me ajudou bastante nisso, me deu muito mais confiança para seguir nas próximas temporadas. Foi de extrema importância. Eu sou um outro Fernando depois do titulo da Superliga B, muito mais maduro tecnicamente e psicologicamente em relação ao vôlei. A ultima temporada mostrou que dá pra chegar longe”, explicou.

Agradecimento e pedido

Para encerrar a entrevista, Pilan aproveitou para, mais uma vez, agradecer o apoio que recebeu na passagem por Juiz de Fora.

Pilan publicou no instagram esta foto do JF Vôlei após o título da Superliga B 2020/2021

“Queria agradecer a galera do Toque de Bola por esta oportunidade de estar compartilhando um pouquinho desta minha breve experiência. Tem só um mês que estou aqui. Agradecer imensamente à galera de Juiz de Fora e aos torcedores do JF Vôlei, muito obrigado por tudo, muito obrigado pela última temporada.

E, uma vez capitão, sempre capitão: ele também quis convocar a torcida para estar ao lado do time do JF Vôlei na disputa da Superliga B.

“Apoiem o projeto neste ano, acompanhem os novos jogadores. Infelizmente a gente não vai estar na elite do vôlei brasileiro, mas se Deus quiser numa próxima oportunidade a gente brilha de novo na Superliga B e consegue consolidar novamente a nossa vaga na Superliga”.

Aprendendo romeno

Jogando numa “sede da ONU” com tantos estrangeiros, se comunicar é um “se vira nos trinta”. E, claro, morando uma temporada inteira em um novo país, tem que saber o básico da língua local, que não tem tanta semelhanças com o Português.

“Aprendi umas palavrinhas básicas, bom dia, muito obrigado, de nada. É uma língua que se você ler você consegue entender alguma coisinha, quando eles estão falando entre eles é meio difícil de entender”, disse o central.

No entanto, sim, Pilan contou que já ensinaram a ele termos, digamos, considerados essenciais para determinadas situações de convivência social. “E como todo estrangeiro, os caras gostam de ensinar palavrão. Os caras me ensinaram umas palavrinhas de baixo calão, mas não vem ao caso agora”, confessou.

Metas do Olimpia Titanii

Fernando Pilan disse que o Olimpia Titanii está em um processo a médio prazo. Os objetivos agora são formar uma equipe de olho no futuro. “O compromisso do nosso time é fazer um bom campeonato na Liga Romena. Os técnicos não almejam o título, eles querem que a gente fique entre os oito. O projeto dos diretores, do coordenador é de em três anos estar no topo da competição”.

No entanto, pelo mês de treinamento, o jogador brasileiro está otimista que o time pode apresentar alguma evolução ainda nesta temporada.

“Pela experiência que eu tenho, pela equipe que eles conseguiram montar, acho que a gente consegue fazer um excelente campeonato. Consegue ter um bom desempenho, crescer como equipe durante os jogos. E quem sabe beliscar nas quartas de final. Dá para fazer os times grandes daqui tropeçar, a gente tem bastante potencial para isso”, analisou.

Texto: Toque de Bola – Roberta Oliveira

Fotos: Fernando Pilan/Instagram; CS Arcada Galati/Facebook

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