Eneida, mãe de Gabriel Araújo e o início de tudo: “Você pode ser você, mude o impossível”

  “A deficiência é uma vírgula, simplesmente um fato. Apesar da deficiência, você pode mudar o impossível. Você pode ser o que você quiser”.

  Estas palavras são da mãe medalhista Eneida Santos. Ela exerceu papel fundamental nos passos que conduziram Gabriel Araújo ao pódio de duas medalhas de ouro e uma de prata.

  A jornada que começou em Santa Luzia, passou por Corinto, há alguns anos está em Juiz de Fora e ganhou capítulos inesquecíveis e emocionantes nas Paralímpíadas em Tóquio.

  A professora, também mãe de Ana Larissa e Fabiana, conversou com a reportagem do Toque de Bola sobre a emoção de ver o filho homenagear o avô, pai dela, com uma das medalhas e convidou todos a se unirem ao “time Gabriel Araújo”.

  Eneida Santos também destacou os desafios da maternidade para criar um filho determinado. “Sensação de missão cumprida, saber que ele se tornou um grande homem, responsável, forte, guerreiro, como eu disse: esse é meu garoto! Voa! E ele está aí, pronto para voar”.

Gabriel Araújo ao lado do avô, Antônio, que era chamado de seu Pratinha
Foto: Gabriel Araújo/ Arquivo pessoal

Prata para seu Pratinha

  Para Gabriel Araújo, a importância da medalha de prata vai muito além de ter sido a primeira do Brasil nas Paralimpíadas. Ele nadou para homenagear o avô, Antônio, referência na vida dele, que faleceu enquanto ele estava no Japão.

  Eneida destacou como a prata nos 100 metros costas na classe S2 é muito amada pela família e como foi ver o filho iniciar a campanha vitoriosa dele e do Brasil nas Paralimpíadas.

  “Foi um misto de emoção, maior ainda porque foi uma medalha de prata. Aquele dia para a gente foi muito especial. Não podia ser outra, porque meu pai tinha apelido de Pratinha. Nós ficamos muito orgulhosos. Tenho muito orgulho de falar dessa medalha de prata que foi dedicada ao meu pai”, comentou.

Como mãe, orgulho e missão cumprida

  O brilho das medalhas de Gabriel Araújo é resultado de anos de prática, treinamento e talento. Claro, que tiveram também incentivo e orações da mãe.

O início de tudo: “Você pode ser você, mude o impossível"
Gabriel Araújo conquistou dois ouros nas Paralimpíadas de Tóquio Foto: Miriam Jeske/CPB

  “Ele é o que é porque foi criado em um ambiente de muito respeito. E foi mais fácil, porque não foi a gente que entrou no mundo dele, ele que se inseriu no nosso mundo. Em vez de deixá-lo em casa chorando e reclamando da vida, falei: ‘vai, você pode fazer, você pode conquistar, você pode ser você, mude o impossível’”, disse.

  Ver o talento nas piscinas dar asas ao filho para ganhar o mundo é algo que desperta diferentes sentimentos em Eneida Santos.

  “É um misto de sensações que não sei explicar. Sensação de dever cumprido. A gente tem um filho e nunca acha que ele vai sair de perto da gente. Então no caso do Gabriel é mais difícil ainda, saber que ele está indo para longe, como é que ele vai se virar. Gabriel foi criado para ter força e para ser determinado. É muito orgulho, uma alegria muito grande por uma habilidade que, apesar da deficiência, Deus deu para ele”, comentou

Quebrando tabusO início de tudo: “Você pode ser você, mude o impossível"

  Antes de se tornar a mãe de um multicampeão paralímpico, Eneida Santos é a mãe de um jovem de 19 anos e precisava prepará-lo para um mundo onde ainda há muito que se fazer pelo respeito e pela inclusão. Por isso, mais que ninguém, ela pode falar diretamente para as mães e pais de crianças com deficiência.

  “A gente tem que quebrar os paradigmas de que deficiente não consegue nada. O recado que eu dou para as mães é não desistam, não desanimem. Se você aceitar e começar a estudar a deficiência e conhecer a história do filho, você busca o que eles têm direito, eles podem ter tudo, é só acreditar nele e fazerem eles serem corajosos. O que você pode proporcionar dentro do esporte ou da educação, pode inseri-lo no mundo”, comentou.

  Ela considera que a deficiência é um fato, mas não o único que define o filho. Ver Gabriel Araújo se tornar um exemplo para outras crianças e jovens deficientes ou não comprova essa visão. “Eu sempre disse para ele que eu gostaria que as pessoas olhassem para ele como pessoa, ser humano. É uma felicidade muito grande”, ressaltou.

Puxão de orelha no xodozinho

  O sorriso, a disponibilidade, a emoção e as dancinhas no pódio tornaram Gabriel Araújo um xodozinho olímpico. No entanto, sabe como é mãe, né? Tem que colocar limites.

  “A gente paparica um pouquinho, mas tem que dar uns puxões de orelha porque adolescente às vezes é difícil. Às vezes, as pessoas brigavam comigo porque eu trabalhava na mesma escola que ele estudava. Lá eu não era mãe, era professora. A gente sempre separava isso”, ressaltou.

  Depois da vitoriosa participação paralímpica, Gabriel Araújo ganhou uns dias de férias ao lado dos parentes e amigos. “Vai ter carinho sim, rodeado da família, dos parças, que são os amigos dele, que eram os braços dele na escola”.

Boas-vindas ao “time Gabriel Araújo”

  Agora o filho de Eneida Santos é conhecido no mundo inteiro. Emocionou muitos e se tornou referência além dos limites de Santa Luzia, Corinto e Juiz de Fora. Por isso, a mãe agradeceu o apoio e o carinho com o filho e deu boas-vindas a quem se uniu à torcida por ele.

  “O time Gabriel Araújo é um time feito de sorrisos, de alegria, de amor e de dança. Então eu convido vocês, em vez de reclamar, sorriem e dancem, porque dançando a gente pode fazer tudo”, resumiu.

Texto: Toque de Bola – Roberta Oliveira 
Fotos: Roberta Oliveira/Toque de Bola, Gabriel Araújo/arquivo pessoal; Eneida Santos/arquivo pessoal; Miriam Jeske/CPB

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