Vale tudo pra ir ao estádio na pandemia?

Técnico do Brentford comemora com pequeno torcedor a vitória contra o Arsenal na estreia da Premier League 2021/2022
Foto: @premierleague/twitter

  As lágrimas do torcedo idoso, a alegria do menino e o “Hey Jude” em alto em bom som vindos da arquibancada após a vitória do Brentford sobre o Arsenal no retorno do time à Premier League depois de mais de 70 anos são imagens lindas e poderosas sobre o amor que o futebol é capaz de gerar. Ainda mais em tempo de pandemia da covid-19.

  A torcida do Liverpool homenageando Andrew Devine, a 97ª vítima de Hillsborough, também mostram a força do grito de uma torcida por justiça.

  Então, conclamam clubes e alguns torcedores, por que não podemos ter isso no Brasil? As imagens em Belo Horizonte da alegria além do controle sanitário da torcida do Atlético Mineiro funcionam como um tapa na cara do brasileiro.

  O amor não justifica a insensibilidade do futebol brasileiro na pandemia. A transmissão do novo coronavírus não está controlada. Para complicar, uma nova variante desembarcou aqui e está adorando todas as nossas guardas baixas para fazer a festa. Não estamos seguros. Ou seja, ainda não podemos viver a felicidade e os momentos de congraçamento dos torcedores ingleses e de outros países na Europa.

  E mesmo lá, durante a Eurocopa com torcida, houve aumento no número de casos.  Isso comprova o óbvio: o vírus leva a melhor.

Obviedades do futebol na pandemia 

Torcedores aglomerados na entrada do Maracanã na final da Copa América Foto: Gabriel Carneiro/UOL

  Os defensores se esmeram nos argumentos: é a alegria do povo, os clubes estão quebrados, recorrem à tribunais e recebem permissão que deixam satisfeitos dirigentes, autoridades e, obivamente, o SARS-CoV-2.

  No entanto, não conseguem uma explicação sensata sobre por que algumas pessoas no Brasil pensam que o país pode imitar as nações que agiram de forma a imunizar e proteger a população, em busca de controle da pandemia, sem ter agido neste sentido.

  Também não podem negar que a liberação foi para poucos clubes beneficiados, em detrimento da maioria que está no mesmo oceano, mas em barcos não tão seguros.

    A situação é agravada pelo comportamento mal-educado e egoísta de “vale tudo para ver meu time”. Basta se lembrar dos argentinos que deram entrevistas contando como falsificaram resultados de testes no computador de casa, entregaram na entrada e foram para o Maracanã comemorar o primeiro título de Messi na seleção.

  Belo Horizonte viveu a dupla face da moeda nesta semana: o passeio do Atlético sobre o River foi no mesmo dia de incontáveis demonstrações do que não fazer. Aglomeração no entorno, na entrada, na arquibancada, na saída. O uso da máscara totalmente ignorado. Perdigotos para todo lado.

  Mesmo após pressão das autoridades – com direito ao prefeito e ex-dirigente se chamar de burro na TV, os cruzeirenses também não fizeram a própria parte no jogo que causou reclamação entre os times da série B.

  Resultado: o Comitê de Enfrentamento à Covid da capital suspendeu a liberação de torcida.

Indo ao ponto

Torcedores aglomerados na arquibancada comemoram gol do Atlético contra o River Plate
Foto: Mourão Panda/O Fotográfico/ Estadão Conteúdo

  Se a ciência não funciona e a lógica sofre com a distorção baseada em mentiras, permitam-me ser insensível: seu clube não importa qual seja prefere – e precisa de – que você esteja vivo.

  E não é por amor a você, mas para a própria necessidade dele.  Não tem colher de açúcar que ajude a engolir esse fato amargo.

  Mortos não consomem produtos, compram camisas, assinam pay per views e se inscrevem como sócios-torcedores.

  Mortos não sustentam financeiramente os projetos ambiciosos de dirigentes.

  Mortos são lembrados, como estatísticas frias, sem terem os nomes citados, com silêncio que raramente dura um minuto antes da bola rolar.

  Para o clube, repito, não importa qual seja, só interessa quem está VIVO.  Para o seu clube, você é substituível – morreu, nasceu outro. Exato: reflita um pouquinho e perceba que você pode ser a vítima deste “dane-se coletivo” na pandemia.

  Portanto, se você ama seu clube mais que sua vida, pense nisso. De preferência, se cuide, use máscara, tenha álcool em gel por perto e se vacine. E cobre para que as autoridades providenciem as condições sanitárias para que o mundo retome uma “normalidade” que, provavelmente, nunca será igual ao que era até 2019. 

  Este vírus já tirou muitas pessoas amadas, nosso sossego, nossa sensação de segurança, nossos encontros, limitou nossas experiências e a convivência.

  Não permita que a ignorância, o egoísmo, a irresponsabilidade em meio à pandemia tire você de quem te ama e se importa contigo.

Roberta Oliveira

Jornalista graduada e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Experiência como Professora Bolsista da Faculdade de Comunicação Social. Desenvolve pesquisa na área de Jornalismo Esportivo, Identidade, Futebol e Representação Social da Mulher. Participou do Grupo de Pesquisa Comunicação e Esporte. Experiência de cerca de dois anos na Rádio Solar, cinco anos na Rádio Panorama FM, mais de quatro anos na produção da TV Panorama/Integração e repórter web por seis anos nos sites G1 e GloboEsporte da Zona da Mata, da TV Integração. Experiência com marketing de conteúdo, na Experta Media. Atualmente repórter do portal Toque de Bola, além de criadora e responsável pelo blog Literatura de Mulherzinha (https://livroaguacomacucar.blogspot.com/).

Este post tem um comentário

  1. LUZIMAR CEZAR PINTO

    Muito bom 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽
    Morto não serve para clube nenhum.

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