“O Botafogo é um tanto tantã, que nem eu”

Foto: Vitor Silva/BFR

  A comparação não é da minha autoria, óbvio. É do escritor e poeta Paulo Mendes Campos, publicada em uma crônica chamada “O Botafogo e eu”, na revista Manchete Esportiva nº540 em 1962.

  No entanto, em se tratando do meu longo relacionamento com o Botafogo, ela procede. Ainda mais agora. Sim, este é um texto com as conjecturas de uma torcedora do Botafogo sobre a série B

  Antes da primeira rodada, eu repetia que serão os confrontos entre 17 times ossos duros de roer e três equipes desorientadas. Adivinha em qual lado está o Botafogo?

  Por isso, eu me organizei espiritualmente para permanecer na ignorância durante as partidas. Não é falta de amor, é uma medida de proteção. Uma forma de poupar meu coração do sofrimento que aguarda a mim e à torcida nos próximos meses no Brasileirão.

  Aí eu vi o vídeo do João Vitor. 

“Vou à ofensiva com a cabeça, a loucura e o coração”

  Outro trecho do texto já citado de Paulo Mendes Campos só comprova que ele e outros mestres das palavras que foram escolhidos pela Estrela Solitária ficariam encantados com João Vítor. 

 O goleiro alvinegro de 10 anos, transtornado pela paixão, fez uma defesa em um amistoso contra a escolinha do Fluminense. O gesto seguinte foi se voltar e entrar com bola e tudo no gol para devolver as provocações da torcida adversária.

  Os pais e acompanhantes dos meninos do Fluminense estavam gritando que a cobrança de falta resultaria em “gol certo”. O garoto se esqueceu de tudo, apenas para cobrar respeito e manifestar o amor pelo Botafogo.

  Quando o vídeo caiu na rede, muitas pessoas criticaram o jovem arqueiro. No entanto, em mais uma demonstração inabalável de confiança, o garoto disse que quer jogar no Botafogo e ser como o Jefferson.

  Ah, quem não queria um amor tão incondicional assim!

“A mim e a ele soem acontecer sumidouros de depressão, dos quais irrompemos eventualmente para a euforia de uma tarde luminosa”

   No mesmo texto, Paulo Mendes Campos fala sobre a luz e a sombra na história alvinegra. Ele “tornou-se encantado” antes do Botafogo ser rebaixado pela primeira vez. Viu apenas os flertes com as piores campanhas, os paliativos cada vez mais frágeis para conter uma crise que se avolumou como avalanche. E a conta veio – três vezes.

Foto: Vitor Silva/BFR

  Depois de ter visto a passionalidade de João Vítor, até me envergonhei de meu ceticismo. Queria ainda ser assim e acreditar no melhor, apenas por acreditar. No entanto, eu cresci e sei que, em se tratando de futebol, a fé precisa de ações concretas.

  Exato. Só reforça o que escrevi na minha primeira coluna: me tornei o perfil descrito por, nada mais nada menos, que Nelson Rodrigues: “há, no alvinegro, a emanação específica de um pessimismo imortal”.

  Juro que tento não ser assim. Claro que queria que o Botafogo fizesse uma Série B sem sobressaltos e voltasse para a Série A. Percebam que não estou pedindo título, me refiro a QUALQUER UMA das quatro vagas. Isso me alegraria tanto quanto ganhar livros – meu tipo de presente favorito.

  Botafogo, sem sobressaltos, sem drama, sem perrengue?

  Até parece. A lógica alvinegra é andar na contramão da qualidade de saúde mental da torcida.

  Pelo menos, ensina claramente que nada é fácil na vida. A gente precisa aproveitar o bom momento e não se apegar quando a maré não for boa. Vitórias e derrotas passam. O que fica é o amor pelo clube guiado pela Estrela D’Alva que carrega no peito.

“Às vezes torcemos para o Botafogo apesar do Botafogo”

  Esta frase é atribuída ao incrível escritor colorado Luís Fernando Veríssimo, que também adotou o Botafogo. Posso usá-la para resumir a primeira partida do Botafogo da Série B 2021.

  Jogo em Goiás, adversário com um a menos. E o Vila Nova saiu na frente em uma cobrança de falta onde a marcação deixou um jogador goiano solto, na entrada da grande área. O suficiente para surgir o gol. Com um a mais no campo e um a menos no placar, Navarro marcou o gol e deu números finais ao placar.

  Não vi o jogo. Optei por um livro. Talvez, por isso, tantas referências literárias neste texto. Quando imaginei que o juiz já tivesse apitado, fui atrás do resultado.

  Um a um.

  Minha reação: “Empatou. Menos mal. Marcou um ponto. Podia ser pior”.

  Racional na forma, esperançosa nas entrelinhas.

  Sim, eu sou um tanto tantã. Sou Botafogo.

Texto: Roberta Oliveira 

Roberta Oliveira

Jornalista graduada e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Experiência como Professora Bolsista da Faculdade de Comunicação Social. Desenvolve pesquisa na área de Jornalismo Esportivo, Identidade, Futebol e Representação Social da Mulher. Participou do Grupo de Pesquisa Comunicação e Esporte. Experiência de cerca de dois anos na Rádio Solar, cinco anos na Rádio Panorama FM, mais de quatro anos na produção da TV Panorama/Integração e repórter web por seis anos nos sites G1 e GloboEsporte da Zona da Mata, da TV Integração. Experiência com marketing de conteúdo, na Experta Media. Atualmente repórter do portal Toque de Bola, além de criadora e responsável pelo blog Literatura de Mulherzinha (https://livroaguacomacucar.blogspot.com/).

Este post tem 3 comentários

  1. David

    Time anão.

  2. Bruno Denis Lima

    Suas palavras me conectam ao que há de mais grandioso no esporte: o coração do torcedor.

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