Por que (não) parou? (Não) Parou por quê?

  Caros e caras, busquei inspiração no saudoso Moraes Moreira, cujas homenagens após sua morte não puderam ser feitas devidamente – pudemos apenas sentir de longe a dor da perda, sem fazer o Carnaval que ele merecia para nos despedirmos – justamente por ele ter falecido já em meio à pandemia. E lá se vai quase um ano…

Moreira faleceu em 2020 (foto: Facebook Moraes Moreira)

  Acrescido do ‘não’, o questionamento martelou na cabeça nas duas últimas semanas, de férias diga-se de passagem. Por que, com o número de mortos batendo recordes diários, a taxa de contágio aumentando vertiginosamente, o novo coronavírus se transmutando em cepa mais contagiosa e tudo indicando que uma vacinação efetiva só será alcançada por volta de meados de 2022, o futebol não parou no Brasil?

Delírio e torpor

  Mais! Absurdamente, se discute a volta do público aos estádios! Em um delírio dos cartolas que eu só havia visto em livros, quadrinhos e filmes daqueles com um futuro distópico que dá vontade de parar de ver/ler. Infelizmente, não podemos parar de viver a realidade. E essa, lamentavelmente, é a nossa… 

  Como já disse algumas vezes, fui contra a volta do futebol, mesmo internacional. O retorno se provou instrumento de normalização do absurdo, de conformação social e de alienação e torpor para o povo. Não de alívio, como alguns desonestos intelectualmente querem fazer parecer. Títulos e jogos importantes geraram aglomerações, seja nos abraços das torcidas a ônibus ou nas comemorações das conquistas, passando pelos bares – que nem deveriam poder exibir os confrontos – lotados durante as partidas.

Ônibus do Fla é cercado (foto: Thiago Ribeiro/Agif)

  É impossível precisar quantos se contaminaram nestes episódios, quantos infectaram outros e quantos perderam a vida por consequência deles. Mas uma morte ocorrida assim já é uma tragédia, por si só, evitável.  

Segue o jogo

  Diversos clubes da Série A do Brasileiro passaram por surtos, alguns tiveram casos graves até mesmo entre atletas, e profissionais diretamente ligados a eles morreram. A contagem de vítimas exibida a cada transmissão de partidas passou a não ser nada mais do que um placar mórbido, com o qual poucos se importam, na ansiedade de a bola rolar. Como estampou uma revista famosa esta semana: a morte não nos comove mais!

  É triste constatar que o futebol, por sua importância cultural no Brasil, vem fazendo as vezes de circo alucinógeno, encaixando-se na política que nem o pão conseguirá dar, mesmo com a volta do ínfimo auxílio que nunca deveria ter sido suspenso.

Números exibidos antes dos jogos (reprodução Premiere)

  A bola rolando reforça o sentimento de que a vida tem que seguir. Mas, para mais 260 mil famílias, boa parte dela foi ceifada de um ano pra cá. Tragédia provocada pela combinação da pandemia com um governo negacionista incompetente na condução da crise sanitária – e não só nisso – e uma população na qual abunda a falta de empatia.

Sem sentido

  Podem perguntar: mas você trabalha com futebol, como pode defender a ideia de pararem os campeonatos? Para ficar em um argumento simples: para mim, não há futebol sem torcida. Até bem pouco tempo atrás, jogos com portões fechados eram associados à punição de clubes, lembram? Pois é… Não vejo sentido confrontos com arquibancadas vazias.

  Também não há lógica, em um ambiente no qual clubes testam atletas e dirigentes quase que diariamente para tentar se proteger – sei lá eu de que maneira acham que isso os protege -, em obrigar funcionários mais humildes, mesmo que sejam submetidos a exames diários também, a encarar aglomerações nos transportes públicos para irem trabalhar em CTs e jogos. Só isso já rompe a “bolha de segurança” que os iludidos acreditam haver no estranho mundo da bola brazilis.

foto: Facebook Fluminense FC

  A frase “cumprindo todos os protocolos de segurança” não faz nem nunca fez sentido. Pois não há protocolo de segurança capaz de impossibilitar o contágio, a não ser se isolar em casa.

Vai parar?

  Infelizmente, a frase acima vai continuar sendo usada como escudo por cartolas e quem mais embarca na onda negacionista de insistir com a continuação dos estaduais, copas e competições no país. Escondendo o verdadeiro motivo de tocar o barco de Caronte com o apoio do futebol no Brasil: a bola sendo usada como instrumento político de pressão e se ajoelhando aos interesses econômicos das detentoras de diretos de transmissão, que têm grande parcela de culpa nesse cortejo decrépito.

  Este escriba aqui perdeu a esperança de solução razoável através de quem define os rumos do futebol no Brasil nesta pandemia. Acredito que só mesmo o coronavírus será capaz de parar, por inviabilidade total, a realização de competições.

  Não era para ser assim. Afinal, já deveria ter parado. Como poderia ser a explicação dada para justificar tal decisão? ‘Parei porque vi violência (na forma como o vírus e seus aliados promovem um genocídio no Brasil), parei porque vi confusão (na maneira como a doença e suas mortes são tratadas por quem deveria proteger as pessoas do país)’. 

Wallace Mattos

Jornalista profissional, formado pela Faculdade de Comunicação Social (Facom) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), tem mais de 20 anos de carreira na qual já trabalhou em rádio, TV, jornal e mídias digitais. Além disso, tem experiência em gerenciamento esportivo, logística e administração de pequenos negócios. Entre as áreas de interesse e constante busca de aperfeiçoamento, destaca a busca pela discussão do papel da mídia no negócio do esporte e na construção de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento das dimensões participativa e profissional das modalidades. EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS: TUPI FOOTBALL CLUB, Juiz de Fora, Minas Gerais 2015: Consultor de comunicação/Chefe de delegação/Integrante do conselho consultivo. TRIBUNA DE MINAS, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil 2004 – 2015 Repórter sênior (2009-2015) – Repórter júnior (2004-2008). TV ALTEROSA, Juiz de Fora/Varginha, Minas Gerais/Minas Gerais 2003 Assistente de Marketing/Repórter esportivo. TV ALTO LITORAL, Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro 2002 Estagiário/Repórter júnior. MOSTARDA PROPAGANDA, Juiz de Fora, Minas Gerais 2001 Estagiário/Redator. RÁDIO SOLAR, Juiz de Fora, Minas Gerais 2001 Estagiário.

Este post tem 4 comentários

  1. Ângela

    Parabéns Wallace, pelo texto brilhante!
    Repleções muito claras e oportunas para todos nós neste momento difícil.

  2. Miriam

    Parabéns pelo texto e pela coragem de se posicionar nesses tempos tão sombrios.

  3. Suhade Ibrahim

    Parabéns Wallace!!!! Realidade descrita e vivida por todos nós, não só no Futebol!

  4. Wallace Mattos

    Obrigado! A luta por abrir os olhos para a gravidade da pandemia é de todos, em todas as frentes!

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