Um Fla-Flu “rodriguiano”: 40 minutos depois do nada

  Apaixonado torcedor do Fluminense, o jornalista, dramaturgo e escritor, Nelson Rodrigues (1912-1980), dono de diversas crônicas e frases  repetidas pelos torcedores, deve estar sorrindo escondido até agora na Tribuna de Imprensa do Maracanã depois do Fla-Flu 2021 pelo Brasileiro 2020.

   Os primeiros 40 minutos do embate foram dos comentaristas, em geral os “idiotas da objetividade”. A equipe de maior investimento e com pelo menos cinco jogadores muito acima da média nacional – Gerson, Everton, Gabriel, Arrascaeta e Bruno – criava oportunidades sem precisar fazer muita força.

   Concretizado o um a zero (aos 40) para coroar todo o script do resultado anunciado na véspera, se deu a novidade: o time de Nelson “saiu de suas tumbas” e resolveu jogar.

     E como – felizmente – o futebol não se prende só às estatísticas e aos resultados de véspera, bastou o Flu se propor a jogar (assim que foi buscar a bola na rede) para descobrir que uma partida “ganha” poderia se transformar de fato numa disputa entre duas equipes hoje desiguais mas dois clubes de história semelhante.

  E não houve milagre para o primo pobre virar o jogo. Bastou coragem, reassumida de vez no tento de empate e um sentido melhor de marcação. Ah, quer saber? Foi bem mais coração que tática ou marcação.

Luccas Claro – foto: Mailson Santana/FFC

  Diante do quinteto extraordinário, os contrapontos foram três: um jovem goleiro recém-titular com reflexos em dia – Marcos Felipe, um zagueiro “rodado” no melhor momento da carreira – Luccas Claro –  e um atacante veterano que mesmo não sendo o Frederico de outrora ainda mostra qualidade que um atleta só “tático e saúde” passa até rodadas inteiras sem apresentar.

  E assim terminou o Fla de um, Flu de dois. Continua quilométrica a distância entre os dois elencos. O derrotado segue com os seus talentos e a teórica vantagem nas mesas redondas ou quadradas em qualquer partida no Brasil. O vencedor ainda tem longo caminho para que no próximo clássico destas cores possa ser considerado favorito (se souber gerenciar com sucesso o trabalho das divisões de base já é golaço).

   Mas ficará registrado – como tantas outras vezes no futebol – que na noite de 6 de janeiro de 2021 bastou ao “fraco de ocasião” ousar em nome de sua história e tradição para ser premiado com um triunfo que os “idiotas da objetividade” nunca iriam ou irão antecipar.

  Essas aspas são de Nelson Rodrigues. Vejam se não é incrível! Ele imortalizou a frase “o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada”. E não é que o Fla teve 40 minutos durante o “nada” do Flu para resolver um jogo ganho e não o fez?    

   Diante das evidências, do “óbvio ululante”, fechamos com mais um trecho de texto rodriguiano:

  “Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos”.

Texto: Ivan Elias – Editor Portal Toque de Bola

Foto: Mailson Santana/FFC 

 

 

Toque de Bola

Ivan Elias, associado do Panathlon Club de Juiz de Fora, é jornalista, formado em Comunicação Social pela UFJF. Trabalhou por mais de 11 anos no Sistema Solar de Comunicação (Rádio Solar e jornal Tribuna de Minas), em Juiz de Fora. Já foi freelancer da Folha de S. Paulo, atuou como produtor de matérias de TV e em 2007 e 2008 “defendeu” o Tupi, na Bancada Democrática do Alterosa Esporte, da TV Alterosa (SBT-Minas). É filiado à Associação Mineira de Cronistas Esportivos (AMCE) e Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace).

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