Para Laiz Perrut, esporte deve ser pensado como política pública

  Laiz Perrut Marendino é uma das quatro mulheres eleitas para a próxima legislatura da Câmara Municipal de Juiz de Fora. Filiada ao PT recebeu 2.997 votos, na segunda vez que ela concorreu.

  Nascida em Além Paraíba, Mestre em História, curso em que se formou na UFJF, a professora de 29 anos se tornou uma liderança feminista, estudantil e ligada ao movimento sindical.

  Também é militante do coletivo feminista Maria Maria – núcleo da Marcha Mundial das Mulheres e foi presidenta do Conselho Municipal da Juventude de Juiz de Fora até junho de 2020.

  Na entrevista, ela ressalta a importância do esporte como política pública para a juventude e as mulheres, além das pessoas com deficiência.

Confira a entrevista com a vereadora eleita Laiz Perrut ao Toque de Bola:

Toque de Bola: Você é de Além Paraíba e filha de professor e viu dentro de casa a importância da educação e do esporte usado como forma de lazer e de formação do aluno. Como você vê o potencial do esporte como aliado da educação?

Laiz Perrut: Primeiro de tudo, as escolas têm que pensar no esporte nesse sentido, que é uma política pública. O esporte é uma das matérias importantes para a formação das crianças e dos adolescentes. As escolas têm que parar de pensar nisso como lazer. Então, por exemplo, uma coisa que acontece muito, quando a criança faz alguma bagunça nas escolas a punição é ficar sem aula de educação física, por exemplo. Na verdade, a educação física deveria ser uma disciplina para formação das pessoas também.

  A gente sabe que o esporte é fundamental para muitas coisas, não só para aprender a jogar uma bola, mas muitas vezes para se tornar o sonho, o horizonte de uma pessoa. Pensamos também que a gente precisa ter projetos para os momentos em que as escolas não estejam em atividades escolares. A gente tem um projeto que se chama “Escola Aberta” que é fazer as escolas abertas para a própria comunidade pensar e executar oficinas, sejam de lazer, de cultura, de formação profissional e de esporte também. Porque em muitas comunidades tem aquelas oficinas, escolinha de futebol, de capoeira, de vôlei, tem de várias coisas. E a gente acha que se a escola estiver envolvida, se tiver o espaço da escola para tornar isso possível, seria muito importante.

 

A vereadora eleita cita a volta do Intercolegial na cidade.

– Como viabilizar o esporte como uma política pública? O que você, como legisladora eleita, pensa sobre isso?

– Uma conversa que eu estava tendo com o Conselho Municipal do Esporte é a gente aprovar o Plano Municipal de Esporte. Pelo que eu estava vendo, precisa de mudar algumas coisas, precisa incentivar algumas coisas a estarem no Plano, o incentivo ao esporte feminino por exemplo. A gente precisa aprovar esse plano e colocá-lo em prática. A gente sabe que, se a gente investe na prevenção na área da saúde, a saúde fica mais barata, muitas coisas poderiam ser evitadas se tivesse a promoção.

  Uma das coisas para não deixar o esporte, tirando o futebol, ser lembrado pelas pessoas só de quatro em quatro anos, seria ter o Interescolar. A gente sabe que tem um tempo que não existe esse torneio, é importante ter anualmente. Movimenta as escolas a incentivarem a prática de diferentes esportes e essa competição. É uma coisa que a Margarida [Salomão, prefeita eleita de Juiz de Fora] tem falado, a volta desse campeonato entre as escolas de Juiz de Fora. A gente tem que incentivar isso e incentivar o plano municipal de esportes. São essas coisas prioritárias que a gente poderia começar pensando. Ainda tem muita coisa que eu vou aprender, que vou saber em que pé está, mas, de imediato assim, eu penso nessas duas coisas que a gente precisa colocar em prática.

 

– A gente vê muito os homens habituados ao esporte-lazer do fim de semana. Como conversar com as mulheres para que elas enxerguem no esporte essa possibilidade de saúde e de encontrar uma válvula de escape no esporte?

Triatleta Juliana Scher conversou com Laiz Perrut sobre a valorização do esporte feminino em Juiz de Fora 

– Essa é uma das questões que a gente pensou muito na nossa campanha, como a gente teve uma campanha bastante feminista, a gente pensou no esporte para além da questão da escola, voltado para a questão do esporte feminino. Juiz de Fora tem grandes talentos nessa área que não são incentivados. Nós temos várias mulheres que poderiam estar sendo incentivadas a serem realmente campeãs em várias áreas.

  Por exemplo, nós temos a Maria, que é uma menina super jovem, 20 anos, é campeã brasileira de jiu-jitsu, ela não teve nenhum incentivo na cidade para continuar, hoje ela está morando nos Estados Unidos, com incentivo de lá, por que aqui não tem nenhum incentivo para ela continuar? A gente tem a Juliana Scher, ela é triatleta, e também não tem quase nenhum incentivo. Eu acho que a gente precisa pensar nisso, além do lazer, do esporte para promoção da saúde, o esporte como carreira para as mulheres. Porque muitos homens vislumbram uma carreira no esporte, não estou falando que é fácil. Acho que a gente precisa ter este incentivo para que as mulheres possam vislumbrar no esporte uma opção de carreira.

  Tem várias mulheres, além dessas que falei, que jogou até na seleção brasileira de futebol feminino e hoje estão em outro estágio estão trabalhando com outras coisas porque não tiveram incentivo para continuar. Então em relação a essa questão por exemplo do futebol, a prefeitura tem incentivo para os clubes, o Tupi, o Tupynambás, sem nenhuma contrapartida desses clubes. Uma coisa que a gente conseguiu pensar é que esse incentivo da prefeitura para esses clubes tem que ter uma contrapartida como acontece por exemplo no campeonato brasileiro, que os times que disputam o campeonato, tem que ter equipes de futebol feminino. Pode ser um tipo de política pública, que os clubes mantenham algum tipo de escolinha, de time, para incentivar as mulheres. A gente sabe que tem muita mulher querendo jogar futebol em Juiz de Fora, querendo ser atleta. Isso a gente precisa pensar e incentivar.

  Uma das coisas que eu falei com o pessoal que estava me procurando para falar sobre o Plano Municipal do Esporte, eu falei que deveria conter no plano essa situação de incentivar o esporte feminino. Confesso que essa é uma das áreas dentro do esporte que mais me interessa puxar sardinha, para que a gente possa ter o esporte feminino em juiz de fora mais forte que a gente já tem.

 

– Você mencionou as reuniões durante a campanha. Como foram esses encontros e o que acrescentaram à sua campanha e agora você pode usar como legisladora?

– Essa reunião na verdade do Conselho [Municipal] do Esporte foi mais informal, com alguns conselheiros que me procuraram para falar sobre o plano municipal do esporte. Reunião mais oficial que eu tive durante a campanha foi com as mulheres do esporte, com a Juliana, com a Maria, com as meninas que tem projetos no futebol feminino, isso me acrescentou esse olhar de que a gente precisa falar sobre o futebol seja na escola, seja como opção de futuro para as pessoas e de incentivo que falta.

  Hoje na cidade a gente tem uma Lei de Incentivo à Cultura, que é a Lei Murilo Mendes, a gente não tem uma Lei de Incentivo ao Esporte, por exemplo. São coisas que me acrescentaram, que me abriram os olhos, a reunião com as mulheres me abriu os olhos para observar melhorias não só para o esporte feminino, porque as mulheres foram reivindicar melhorias para o esporte feminino, mas nessas reuniões surgiram coisas mais além como essa Lei de Incentivo ao Esporte geral não só para as mulheres e a preocupação de ter o Plano Municipal de Esportes como política pública aprovada na Câmara, como Lei.

 

– Temos projetos na cidade que trabalham com basquete, tem o Bom de Bola, com times femininos, o ideal seria colocar na vitrine para que as meninas percam o medo a vergonha o tabu e se apresentem para praticar o esporte?

– Exato, acho que falta uma comunicação sobre essas coisas, falta as mulheres saberem que existem, muitas não saibam. Falta colocar na boca do povo, falta falar e incentivar e falta mais projetos de todas as áreas.

 

– Como o esporte vai fazer parte na sua legislatura?

– A gente pensar o esporte no nosso mandato vai ser muito importante, porque temos duas essas áreas de atuação que são muito fortes para a gente: a questão das mulheres e da juventude. Acho que tem tudo a ver a gente colocar o esporte na ordem do dia, de pensar mesmo política pública voltada para o esporte porque tem tudo a ver com a juventude e também tem tudo a ver com as mulheres. São coisas que a gente vai falando transversalmente a nossa pauta das mulheres e da juventude, acho que isso vai ser importante para a gente.

 

– E sobre as pessoas com deficiência, o esporte paralímpico também pode entrar na pauta?

Bocha Paralímpica é um dos esportes praticados em Juiz de Fora

– A gente podendo falar sobre os esportes paralímpicos, essa foi uma pauta – a questão da acessibilidade, a questão das pessoas com deficiência – que também foi importante para a gente durante a campanha. Nossos vídeos quase todos tiveram Libras. A gente sempre esteve muito focado nessa situação. Confesso que, no esporte, não chegaram tantas demandas, mas a gente sabe que tem vários atletas e, assim como as mulheres e a juventude, precisam ser mais incentivados. Com certeza, a gente podendo trazer à tona tudo isso, a gente vai estar junto.

  Não é a coisa que mais sei, assim como várias outras pautas que vão chegar para mim, que a gente vai querer se envolver. Mas o compromisso que a gente vai estudar, vai aprender junto com as pessoas. Isso é um ponto importante para mim: poder ouvir as pessoas para poder fazer os projetos e a nossa atuação. Então o nosso compromisso é que a gente vai aprender mais sobre isso, sobre essa questão toda do esporte, que a gente vai correr atrás, que a gente vai ouvir as pessoas que estão envolvidas para ver como a gente consegue melhorar o esporte na nossa cidade.

 

– Para concluir, você tem um esporte ou um time favorito?

– Eu fui muito ligada ao futebol durante um tempo. O meu pai [professor Naldo Marcolino] foi jogador lá em Além Paraíba, jogava bola, ajudava em escolinhas de futebol. A minha família sempre foi tricolor, em Além Paraíba é divisa do Estado do Rio com Minas.
  Então meu time do coração é o Fluminense e, até um tempo atrás, eu acompanhava muito, assistia muito. Confesso que, de uns tempos para cá, o futebol profissional tem me decepcionado muito, seja pela corrupção, por todo machismo e pelo racismo que existe no esporte. isso foi me desmotivando um pouco a acompanhar.

  No ano passado, na Copa do Mundo feminina, a gente fez um grande evento na universidade para acompanhar a copa, reunimos mais de mil pessoas em todos os jogos. Então, o futebol, como todo brasileiro, sempre fez muita parte da minha vida. Na escola, eu jogava handebol, não era a melhor do time não, mas sempre joguei nos interescolares. Eu fazia até a escolinha que tinha à tarde.

 

Texto: Toque de Bola – Roberta Oliveira.

Fotos: Laiz Perrut/arquivo pessoal

Arte: Toque de Bola.

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