Crônica: “Pai, mandei uma carta”

Arte: Toque de Bola

   Tudo bem por aí, pai?

   Aqui embaixo anda tudo muito estranho. Mas estamos com saúde, vivos, trabalhando no que gostamos e tendo família e amigos espetaculares. Ficamos até sem graça para conseguir agradecer tanta coisa boa ao mesmo tempo!

  Tenho procurado seguir as coisas simples que ao lado da mamãe sempre nos orientou: respeitar, aprender, crescer, saber ouvir, saber ganhar e perder. Falar é prata, calar é ouro.

   Seu Tupynambás está fazendo bonito na Série D. Nosso Fluminense anda com uma mania estranha de jogar (e pensar) para trás. Se continuar nessa contramão sei não.

 Lembra quando nos alertava sobre “mapear” antes de falar o que se pensa? Não revelar fora de casa os livros que têm lá dentro? Pois é. Recrudesceu. Há pessoas que idolatram torturadores! Indescritível redigir isso. Achei que não haveria mais. Não essa quantidade, pelo menos.

  O trem está feio, chocante (e nem é só na terra brasilis). Votam agora em personagens hediondos, grosseiros, desumanos e pobres de espírito. Tudo o que você e a mamãe sempre ensinaram a não fazer vimos outro dia numa surreal reunião ministerial…

  De vez em quando vejo a Renata Fan que você gostava de assistir depois do almoço. Ah, acredita no Barcelona perdendo de oito e no Liverpool de sete? Verdade sim! Mas nenhum novo Pelé (você dizia que não haverá outro).

  Continuo homenageando o rádio em quadros sempre ao vivo na CBN e o nosso Toque de Bola está com uma turma boa, Mônica sempre pensando na frente e não querendo aparecer nas fotos.

Aliás, incrível como uma frase pode marcar tanto!

O dia em que contou, com brilhos nos olhos, que ia à estação de trem para saborear o que os jornais contavam da véspera, não só das então rotineiras conquistas do Flu…

… aquele sabor de jornal e notícia nos levou da arquibancada à antiga máquina de escrever (com muita gente ajudando e ensinando até hoje), depois Gepeto tela verde, “salvar como” e hoje cá estamos. Todo mundo “tecranu” (teclando, como contou a Miriam do metrô de São Paulo) no celular. Que, aliás, serve para tudo menos como telefone. Boa pergunta: salvar como?

  Hoje, 7 de outubro, é o seu aniversário e daqui todos mandamos um abraço.

  Mamãe, Pedro, Nilo, Miriam, Gustavo e eu, noras, genros e netos. Apesar desse mal invisível, que de certa forma freou uma correria besta, e da incerteza desses tempos, nada mudou sobre o que nos ensinou e transmitiu. Que os ventos afastem o quanto antes gente má de todos os lugares. Utopia? Que seja, pai. Seguimos precisando dela.

  Estou enviando esse texto e desejo que ele percorra o caminho de volta: saia da tela do celular como mensagem enviada e seja recebida como uma carta.

 Naquela emblemática estação de trem.

  O trem da saudade.

Texto: Ivan Elias – Toque de Bola

Arte: Eduardo Antunes – Toque de Bola

Este post tem 15 comentários

  1. rolf pery curt benda

    Caro Ivan::Não sei ¨navegar¨ neste troço, mas, diante deste texto, vou tentar mandar um grande abraço ao amigo. parabéns e continue nos agraciando com sua capacidade e competência. Fraternalmente, Sandra e Rolf Benda

  2. Gilmar Quaresma

    Meu amigo , tricolor, afilhado de respeito, me emocionei com o texto e o carinho das palavras.

  3. VALDECIR V CAMPOS

    Ivan, “tempos difíceis exigem amor ao extremo” e sua emocionante crônica é uma declaração de amor, o amor mais puro e verdadeiro, de pai para filho e vice-versa.
    Saudoso Sr João, parabéns!!!

  4. Knorr

    Belo texto, Ivan! Tenho certeza que Sr. João deixou um like 😉. Em russo! 😂😂

  5. Déa Araujo

    Amei a crônica, Ivan! Nossos pais nos deixam tantas marcas boas… Linda homenagem! Parabéns!

  6. Nenhuma comentário seria bom o suficiente diante do seu texto. Em tempo de celular e selfie uma foto com os olhos marejados talvez dissesse muito. Ainda assim, a imagem seria pouco significativa diante do que meu coração se emocionou. Aprendemos juntos que não existe nada mais velho do que o jornal do dia anterior. Porém, sabemos que numa estação de trem sempre existirá histórias maiores de encontros e despedidas.

  7. Aluizio Silva Gomes

    Lindo , muito bom o texto e a forma de expressar carinho, AMOR , respeito a pessoa tão importante na sua vida ( conforme você fala morreu pra você seu ingrato ,ele vive em meu coração) continua assim GÊNIO sou seu fã , que Deus te abençoe. Sabará.

  8. Perla Diniz Guedes

    Linda mensagem, Ivan! Carinho, respeito e gratidão 🙏 ❤️

  9. Sérgio Brega

    Ivan, muito legal a crônica do seu pai. Parabéns pelo texto. Tenho muita admiração por esta família maravilhosa com quem tive a honra de conviver. Um grande abraço

  10. José Marcos

    Boa Ivan Elias, teve a goleada de 5 do mengão também!

  11. Patricia Franco

    Oi Ivan, saudade do seu pai no caixa da Pipoquinha, da sua mãe alegre e entusiasmada atendendo todo mundo. Era um tempo de mais esperança e cheio de expectativas. Vc tem razão, tá tudo muito estranho e manter um olhar positivo para esse mundo louco é um desafio que vivemos a cada dia. Felizmente, estamos todos bem de saúde.

  12. Amynthas Lobo

    Parabens Ivan. Crônica lindissima. A algum tempo não lia coisa desse nível. Acho q vc devia tentar escrever semanalmente. Abs

  13. Eveline Moreira Toledo

    Viajei junto à vc nesta crônica.
    Seu pai era meu vizinho.
    Saudade!!!
    Parabéns pra vc e pra ele!!! 👏👏

  14. Iara Nagle

    Que legal! Parabéns Ivan!!!!!
    Transportou a gente até a estação de trem.
    Tempos estranhos mesmo.
    Beijao

  15. Jose Anisio Pitico da Silva

    Parabéns, Ivan. Um gol de placa.Lindíssima
    crônica.Grande abraço.

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