Bocha Casa D’Italia: tradição ameaçada?

Equipe de bocha da Casa D’Italia pode ser prejudicada com o leilão. Foto: Arquivo pessoal/Leandro Dias

  A bocha juiz-forana corre risco.

  É o que afirmam os praticantes e incentivadores da modalidade na cidade.

  O motivo? O Consulado da Itália em Belo Horizonte publicou na quarta, dia 30, o aviso de leilão de um dos bens mais antigos e preservados de Juiz de Fora: a Casa d’Italia, na Avenida Rio Branco.

  O documento de oficialização do leilão, assinado pelo cônsul Dário Savarese, surpreendeu a comunidade de descendentes de imigrantes italianos da cidade e afetou um tradicional esporte na região: a bocha. Ao Toque de Bola, Leandro Dias, atleta e vice-presidente da Associação Esportiva e Cultural Brasil-Itália, que é a mantenedora da Bocha na instituição, analisou a situação.

  “Lamentamos ao receber a notícia, pois resgatamos a bocha da Casa D’Italia que estava inativa em competições oficiais desde os anos de 1990. Assim, resgatamos o esporte na instituição e tradição cultural, pois a bocha é um esporte que faz parte da cultura italiana. Afeta bastante, justamente no momento que estávamos com boa parte da reforma do ginásio concretizada. Falta em torno de 40% para terminar tudo. Conseguimos levantar o recurso da obra através de iniciativas dos próprios atletas da equipe, contribuição e apoio de amigos e atletas de outras equipes, parceiros e patrocinadores. Sem falar que estamos filiados na Liga Mineira de Bocha representando a Casa D’Italia Juiz de Fora”, disse Dias.

Local deve ser leiloado no início de dezembro. Foto: Divulgação/Casa D’Italia

A Casa D’Italia

  A propriedade de 3.309m² pertence ao Estado Italiano e, por isso, a decisão de venda do imóvel ocorreu através da representação do consulado. O leilão da propriedade, marcado para o dia 3 de dezembro, significa que o espaço criado para celebrar e guardar a cultura e memória italiana há 80 anos pode deixar de existir. O Consulado Italiano informou ainda que a propriedade vale R$ 19,5 milhões.

  Para Leandro, caso o fato se concretize, a história da bocha em Juiz de Fora pode ser prejudicada. Em resposta ao Toque, ele desabafou sobre a desvalorização da modalidade na cidade.

  “Corre muito o risco, pois atualmente temos apenas três equipes em Juiz de Fora. A bocha aqui já chegou a ter 15 equipes disputando competições na década de 1970. Sem falar nos clubes que tinham as quadras para prática da modalidade como lazer no período. Os mais antigos dizem que foi a melhor época. Resgatamos a bocha da Casa D’Italia para incentivar o esporte e até mesmo outras equipes se formarem na cidade. Voltamos até almejando fazer das nossas dependências um centro esportivo específico da modalidade, aproveitando a ótima localização da Casa D’Italia. A bocha da cidade já perdeu muito por conta de encerramento do departamento deste esporte em alguns clubes tradicionais, como Tupi e Tupynambás. Gestões passadas encerraram a modalidade nos clubes tendo equipes competitivas na época. A equipe da Casa D’Italia atualmente é formada com boa parte dos atletas que defenderam o Tupynambás até 2009, ano que encerrou a modalidade no clube por determinação da diretoria. Digo que não somente a bocha, mas o esporte amador da cidade perderia bastante caso viesse acontecer este leilão”, revelou o vice-presidente.

Leandro Dias (primeiro, da direita para a esquerda) falou com o Toque de Bola. Foto: Arquivo pessoal/Leandro Dias

Pensar positivo

  Ainda que a chance de o leilão não ocorrer seja pequena, o discurso da equipe que coordena a Bocha Casa D’Italia é de plena confiança na reversão do quadro.

  “Acreditamos que esta situação será revertida e seguiremos com nosso projeto. Apesar de termos um pouco mais de três anos a equipe, já construímos algo e temos muito orgulho de representar a Casa D’Italia. Também empenhamos muito para iniciar e avançar nas obras do ginásio. Já temos uma história ali e vamos lutar para a Casa D’Italia se manter, não somente pela bocha, mas sabemos da importância dela para a história e patrimônio da cidade. Juiz de Fora já perdeu muita coisa boa nos últimos anos, principalmente no esporte, cultura e lazer. Não queremos entrar para esta estatística negativa”, afirmou.

Pontos importantes

Modalidade tradicional em JF ameaçada? Arte: Toque de Bola

  Sobre a bocha Casa D’Italia, Leandro lembrou detalhes acerca do Conselho Municipal de Desportos e do apoio da imprensa juiz-forana na divulgação da modalidade.

  “É importante frisar que desde ano passado fazemos parte do quadro do Conselho Municipal de Desportos de Juiz de Fora. Fomos convidados pelo órgão local e inclusive inserimos nossa modalidade no Conselho. Os dois representantes da modalidade no quadro são atletas e dirigentes da Bocha Casa D’Italia JF. Também é importante destacar que desde o retorno da equipe, em 2017, temos uma divulgação muito positiva na imprensa local. Sempre conseguimos divulgar nossas atividades e resultados nas competições. Somos muito gratos a todos vocês da imprensa pela atenção e nos procurar neste momento. Mas estamos confiantes que a Casa D’Italia irá se manter ativa e sem perder sua sede. Pois ela é patrimônio da nossa cidade”, finalizou.

Texto: Toque de Bola – Pedro Sarmento, supervisão Ivan Elias

Fotos: arquivo pessoal

Arte: Toque de Bola

Toque de Bola

Ivan Elias, associado do Panathlon Club de Juiz de Fora, é jornalista, formado em Comunicação Social pela UFJF. Trabalhou por mais de 11 anos no Sistema Solar de Comunicação (Rádio Solar e jornal Tribuna de Minas), em Juiz de Fora. Já foi freelancer da Folha de S. Paulo, atuou como produtor de matérias de TV e em 2007 e 2008 “defendeu” o Tupi, na Bancada Democrática do Alterosa Esporte, da TV Alterosa (SBT-Minas). É filiado à Associação Mineira de Cronistas Esportivos (AMCE) e Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace).

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