Incêndio no Ninho: a palavra de clube, famílias e Justiça

Alojamento do Ninho pegou fogo no dia 8 de fevereiro de 2019

  Mais de um ano após a tragédia do Ninho do Urubu, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro e o Ministério Público (MP-RJ) entraram na Justiça com novos pedidos de indenização contra o Flamengo. No incêndio, ocorrido em fevereiro de 2019 por conta de um curto circuito no ar condicionado do alojamento da base do clube, dez garotos morreram e três ficaram feridos.

  Além de pedir o pagamento definitivo do valor mensal de R$ 10 mil por família, foi solicitado que o rubro-negro pague R$ 1 milhão para cada pai e mãe das vítimas do incêndio. Segundo a Defensoria e o MP-RJ, o Flamengo teve “responsabilidade subjetiva” no incêndio. Os órgãos públicos também pediram o pagamento de R$ 20 milhões por danos morais coletivos, “diante da existência de elementos probatórios que evidenciam a culpa grave e consciente do réu”.

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O clube

  Em entrevista ao programa Fox Sports Rádio no último dia 27, o presidente Rodolfo Landim falou sobre o incêndio e detalhou as ações do clube desde o acidente.

Presidente Rodolfo Landim falou ao Fox Sports na última sexta, dia 27

  “No que dependesse do Flamengo, isso já teria terminado há muito tempo. Desde o início, o clube colocou os recursos que tinha em contato com as famílias, tentou buscar soluções para indenizar esse sofrimento que todos tiveram. Sabemos que as mortes jamais poderemos indenizar, porque uma vida não tem preço. Conseguimos chegar a um consenso com três famílias e “meia” (três famílias e o pai de Rykelmo Viana) dos jovens envolvidos no acidente e continuamos abertos a conversar com as demais”, disse o mandatário. 

“Depende dos advogados”

  Sobre as negociações com as famílias, Landim relatou o atual estágio das conversas e disse que a relação mudou por conta dos advogados.

  “Quanto à indenização, o processo é mais complicado. Hoje, existem advogados constituídos nessas famílias. Eles que coordenam todo o processo de negociação. Temos que fazer isso de forma muito cuidadosa, porque as famílias tinham contato com pessoas do clube e isso foi formalmente solicitado pelos advogados que o Flamengo interrompesse isso porque eles estavam vendo isso como uma forma de acesso direto aos seus clientes”, revelou.

  Ainda no cenário das tratativas, Landim disse que tudo depende dos advogados e revelou a quantia que está sendo paga aos familiares das vítimas.

Dez garotos morreram na tragédia

  “Vai depender muito da velocidade que eles vão tratar do processo. O que eu posso dizer é que, até hoje, apenas “meia” família entrou na justiça contra o Flamengo. O clube tem depositado, mensalmente, uma quantia de R$ 10.000,00 para as famílias, como uma forma de compensação por esse problema que elas tiveram”, finalizou Landim.

As famílias

  A principal reclamação das famílias no caso é quanto à inexistência de diálogo do Flamengo. Em entrevista ao Jornal Estadão, os familiares alegaram que o clube “só se mostrou presente nos dias seguintes à fatalidade. Depois disso, os dirigentes sequer mantêm contato”.

  Sobre a falta de sensibilidade do clube, Darlei Pisetta, pai do ex-goleiro Bernardo Pisetta, morto no incêndio, quer “se sentir acolhido”.

  “O que faltou dessa diretoria é a sensibilidade. Se após o acidente tivessem ido à casa de cada familiar, já estaria tudo resolvido. Queremos um abraço, nos sentir acolhidos. A gente já perdeu nosso maior bem que a gente tinha. Mexer com essa ferida é difícil. Até tentei uma aproximação, mas o clube não conversa com as famílias”, disse Darlei.

  Rosana Souza, mãe de Rykelmo Viana, também desabafou acerca da posição do clube carioca e lembrou da situação financeira favorável do clube atualmente.

Curto circuito no ar condicionado causou o incêndio

  “Sinto revolta, angústia, tristeza. O Flamengo tinha garantia de que poderia ter lucro com eles. Depois do que aconteceu, isso não tem mais valor. O que custa, com tanta contratação, indenizar essas famílias? Será que eles não têm filhos, netos? Entregamos nossos filhos saudáveis, confiando que eles seriam bem cuidados. Os meninos não são animais. Tiveram seus sonhos interrompidos”, disparou Rosana.

Audiência

  Em fevereiro, o CEO do Flamengo, Reinaldo Belotti, e o vice-presidente jurídico do clube, Rodrigo Dunshee, foram a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Incêndios do Rio de Janeiro, na Assembleia Legislativa Estadual (Alerj).

  Na reunião também foram ouvidos representantes da Light, empresa de iluminação elétrica, a Prefeitura do Rio, e a NHJ, a empresa de contêineres. Gerente da NHJ, Cláudia Rodrigues disse que foi recomendado ao clube que fossem instaladas portas de correr nos dormitórios. O uso do equipamento é apontado pela perícia como um dos responsáveis pela tragédia, já que dificultou a fuga dos jovens.

O inquérito

Famílias aguardam a sequência do caso

  A Polícia Civil do Rio de Janeiro remeteu ao MP a conclusão do inquérito aberto para apurar detalhes do incêndio. O processo, que foi conduzido pela 42ª Delegacia de Polícia (DP) do Rio, havia sido entregue ainda em junho, mas foi devolvido pelo MP, que requisitou novas diligências. Em dezembro, mais uma vez, o relatório acabou voltando à Polícia Civil.

  Nesse cenário, a investigação foi concluída. O inquérito indica oito culpados, incluindo o ex-presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello. O ex-cartola, três funcionários do clube, três engenheiros da NHJ e um técnico em refrigeração foram apontados pela polícia como responsáveis pelos dez homicídios com dolo eventual (quando se assume o risco de matar) e 14 tentativas de homicídio, considerando o número de atletas que estavam no Ninho do Urubu e sobreviveram.

Sequência

  Agora, o procedimento investigativo deverá ser encaminhado ao Ministério Público Estadual para oficializar denúncia aos indiciados ou arquivamento do inquérito.

 

Texto: Toque de Bola – Pedro Sarmento, com informações do Jornal Estadão, do Ministério Público do Rio de Janeiro, da Polícia Civil do Rio de Janeiro e dos canais Fox Sports.

Texto com supervisão de Ivan Elias – Toque de Bola

Fotos: Arquivo pessoal/Reprodução; Pablo Jacob/Agência O Globo; Reginaldo Pimenta/Raw Image/Folhapress; Ricardo Moraes/Reuters.

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