Entrevista: Fajardo na conexão JF-Manaus

  Ele atravessou o País para ser campeão estadual com o Manaus. Além disso, levou o Verdão da capital do Amazonas para a Série C do Campeonato Brasileiro com um vice-campeonato. E mais: é o técnico que ficou mais tempo invicto na temporada atual do futebol brasileiro, com 21 jogos sem derrota em cinco meses. 

Fajardo falou com exclusividade ao Toque

  O Toque bateu um papo exclusivo de mais de uma hora e meia – que, segundo o próprio, duraria a tarde toda se regado a uma cerveja gelada e um bom tira-gosto – com o mineiro de Leopoldina, radicado há mais de 20 anos em Juiz de Fora, Wellington Fajardo.

Ex-comandante de times mineiros como Tupi, Patrocinense, Uberlândia, Villa Nova e Democrata de Governador Valadares, além do Sobradinho do Distrito Federal e da paulista Francana, teve este ano a melhor temporada de sua carreira. 

Invencibilidade e temas

  Ex-goleiro de América e Cruzeiro, o técnico de 58 anos renovou seu contrato e se prepara para embarcar novamente rumo ao Norte do Brasil. Em 2019, após deixar a Patrocinense, Fajardo chegou ao Manaus e permaneceu 21 jogos invicto.

A sequência levou o Verdão à conquista do Campeonato Amazonense, no qual estreou no dia 24 de fevereiro, e só terminou na primeira partida das oitavas de final da Série D, no dia 30 de junho, por 1 a 0, para o São Raimundo do Pará.

Esta é a maior invencibilidade do futebol brasileiro na temporada em termos de período de duração. 

  No papo com o Portal Toque de Bola, Fajardo falou de tudo um pouco, inclusive do técnico sensação do Brasileiro, Jorge Jesus. Durante a entrevista Welington abordou invencibilidade, título estadual, como se manter atualizado, acesso, vice da Série D, Tupi, Baeta, Cruzeiro e Seleção Brasileira. Tudo através do olhar de quem conhece a fundo o futebol e é apaixonado pelo campo e pela bola.

Confira os principais trechos da entrevista de Fajardo para o Toque (Veja a íntegra do papo em nosso canal no Youtube): 

Fajardo recebeu carinho em Manaus

Aclimatação a Manaus  

  “Alimentação, clima, jeito de jogar, forma de trabalhar, de lidar com os jogadores, tudo é diferente em Manaus. Como o time não se classificou para as finais do primeiro turno, pude fazer uma pré-temporada, conhecer os jogadores, conviver com a diretoria, me adaptar, aprender a conviver por lá. Conquistamos o título estadual e ficamos invictos por 21 jogos, até as oitavas da Série D. Foi uma alegria muito grande.”

Organizado e difícil

  “A gente que está no Sudeste pensa que o futebol do Norte é desorganizado. Mas não. E não tem jogo fácil. Foram partidas equilibradas, decididas no final. Tem pelo menos quatro, cinco postulantes ao título: Nacional, Fast, Princesa do Solimões, Iranduba e Rio Negro. Campos bons, estádios bons. Foi uma competição dura, e achei até que meu ciclo tinha terminado. Mas faltando dez minutos para terminar o jogo, o estádio em peso gritando: ‘Fica, Fajardo!’. Aquilo me emocionou, então resolvi renovar para o segundo semestre. Agora, estou voltando muito animado.”

O treinador conquistou o Estadual e o acesso à Série C

Primeira derrota

  “Só perdemos para o São Raimundo, nas oitavas. Cheguei a temer pela desclassificação até. Foi difícil recuperar os jogadores. Atletas são físico, técnico e emocional. Perdemos em uma hora difícil. Foi a partida mais dura  da competição o jogo de volta. Mas passamos para a outra fase nos pênaltis.”

Maratona no acesso

  “Gastamos 22 horas do Amazonas até o Rio Grande do Sul para enfrentar o Caxias no mata-mata do acesso. Fomos de Brasília para São Paulo, ficamos em um hotel para esperar o voo de lá para Porto Alegre e, depois, seguimos de ônibus para Caxias do Sul. Saímos às 4h de Manaus e chegamos às 2h no hotel. Variamos a temperatura de 36 graus para 5 graus. Torcida deles acampou em frente ao hotel, soltando foguetes das 2h às 7h do dia do jogo. Aproveitei aquilo tudo. Fizemos um bom jogo, aos 48 minutos o Caxias teve um pênalti, e perdeu. Pensei: tá pra nós, vai dar!”

Final da Série D estabeleceu recorde da Arena

Manaus Mania

  “Foi uma mobilização que nunca vi na minha vida. Para sair do hotel no dia do jogo do acesso, um trajeto que demorávamos uns cinco, dez minutos, levamos 40. Nos dois jogos seguintes, tivemos que ir com batedores. A torcida queria carregar o ônibus. Tivemos que que entrar na contra-mão e acessar o estádio por outro local porque estava impossível de entrar na Arena da Amazônia pelas vias normais de tanta gente. Até o acesso, durante cinco meses, morava no hotel, almoçava em um restaurante simples, todo dia ia lá. Depois do acesso, todo mundo me conheceu, pediam para tirar fotos, autógrafos. Nem lido muito bem com isso, foi surpreendente. Não tinha noção de que eles estavam tão sofridos. Isso me tocou, e influenciou muito para eu renovar e voltar.”

Físico predomina

  “Entre o jogador mais atleta e o mais técnico, atualmente, você tem que contratar o mais atleta. Ele vai te dar mais contribuição em todas as fases do jogo. Já estamos monitorando cada jogador contratado para a próxima temporada, fazendo contato com os personal deles, para não chegarem acima do peso ou mal condicionado. A pré-temporada é curta, por isso não podemos perder tempo.”

Futebol mudado   

  “O futebol mudou, primeiro, na parte física. Antes, se corria em média 6km por jogo, atualmente, são 12km. Se você não estiver bem, o outro correrá mais do que você. O jogo exige isso. O que não impede de termos jogadores técnicos. Outro aspecto é o protagonismo dos volantes e laterais em detrimento do meia central. Ele e o centroavante pegam muito pouco na bola, por conta da faixa que eles trabalham. O camisa 10 pode até decidir, mas ele está no ponto onde tem mais gente e qualquer pé na bola atrapalha a jogada. Os volantes e laterais pegam muito mais na bola. É onde você tem que buscar qualidade.”

Fajardo está atento às transformações do futebol

Jorge Jesus

  “Gostaria muito de estar no dia a dia do Flamengo para ver como é a preparação física do time do Jorge Jesus. Marcação alta, pressão pós perda, intensidade de jogo e o time gosta de ter a bola. Mas isso cansa. Por isso, os bastidores de preparação e recuperação de atletas devem ser fantásticos. Ele trouxe qualidade, tem grandes jogadores e aplica o conceito de protagonismo dos volantes e laterais, onde começa sempre o jogo de sua equipe.”

Diego Alves    

  “O Diego Alves tem sido um dos grandes responsáveis pelo sucesso do Flamengo. Sempre que o time passa por situações que, se levar um gol, não recupera, ele faz uma grande defesa. Em um time que joga com a linha alta, isso é importantíssimo. Nenhum sistema é perfeito. Esse de marcação à frente te expõe muito. Então, você tem que ter um goleiro fazendo duas, três defesas em casos de 0 a 0, 1 a 1 ou 1 a 0. A defesa no 3 a 0 não tem valor nenhum para mim.”

Brasileiros x estrangeiros 

  “Independente de nacionalidade, temos que ver o que é bom. E no futebol temos que sempre estar provando. Não se pode viver de passado, pois tudo na vida está evoluindo. Atualmente, em termos de Brasil, temos que tirar o chapéu para ele. Nós que estamos no mercado, temos que tirar o que há de bom e ruim. Particularmente, acredito que devemos saber o momento de usar. Esse embate não faz sentido.”

Treinador renovou para 2020

Tite

  “Futebol é momento. Mas Seleção Brasileira é um capítulo à parte. Não estou lá no dia a dia para falar, mas muito coisa a gente não concorda. Só trabalho de segunda a sexta para jogar no fim de semana, mas não sei como é reunir jogadores de lugares diferentes, por três dias, para jogar. Por isso não culpo o Tite pela não adoção de um sistema mais ousado. Até porque a Copa do Mundo é uma competição eliminatória.”

Cruzeiro 

  “É muito ruim para mim que estive no Cruzeiro ver o time nessa crise. O clube é gigante demais. Como ex-atleta, fico muito triste. Acredito que não caia, mas vejo muita coisa que não deveria ter chegado nessa situação. O time é muito bom, mas está instável emocionalmente. Estou certo que ninguém está pensando nos salários atrasados por lá. A pior coisa para um jogador é cair e ainda mais com um time que nunca caiu. Foram muitas atribulações em pouco tempo. O time tem muitas referências para que isso não aconteça. Fábio, Henrique, por exemplo. Devem estar fazer de tudo para não serem rebaixados.”

Tupi 

  “Já tinha percebido algumas coisas. Dirigi o clube em 57 partidas. Meu último jogo foi o do título da Taça Minas (2008), e falei até em casa que não trabalharia mais no Tupi. No futebol você tem que respeitar algumas coisas. Via que não estava indo por um bom caminho. Mas não esperava que ia chegar no ponto onde chegou. Dei minha contribuição, e não tenho nada a ver com a vida do clube mais. Mas torço muito mesmo para que ele retome sua trajetória respeitada, de honra, de fibra, que não se entrega.”

Baeta

  “Não conheço muito o Tupynambás, mas torço para que faça uma bela campanha e um projeto bacana. Vem bem nessa retomada. Estou na cidade há 22 anos, criei meus filhos aqui. Torço para que Juiz de Fora tenha um time na Série B, Série A. A rivalidade com o Tupi também pode ajudar. O que faz o futebol são essas disputas sadias. É uma forma até do Carijó retomar suas forças e competir.”    

Texto: Toque de Bola – Wallace Mattos

Fotos: Toque de Bola; Divulgação Manaus FC

Toque de Bola

Ivan Elias, associado do Panathlon Club de Juiz de Fora, é jornalista, formado em Comunicação Social pela UFJF. Trabalhou por mais de 11 anos no Sistema Solar de Comunicação (Rádio Solar e jornal Tribuna de Minas), em Juiz de Fora. Já foi freelancer da Folha de S. Paulo, atuou como produtor de matérias de TV e em 2007 e 2008 “defendeu” o Tupi, na Bancada Democrática do Alterosa Esporte, da TV Alterosa (SBT-Minas). É filiado à Associação Mineira de Cronistas Esportivos (AMCE) e Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace).

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