Por que o Fla tem a maior torcida do Brasil?

 O Clube de Regatas do Flamengo, atual líder do Campeonato Brasileiro e semifinalista da Copa Libertadores da América, tem a maior torcida do País com 20% de preferência por parte dos brasileiros, de acordo com pesquisa Datafolha, divulgada em setembro deste ano. Além disso, o clube possui médias de 50 mil pagantes nos jogos no Maracanã e 30 mil como visitante, com a arrecadação ultrapassando a marca de R$ 62 milhões.

  Mas como se chegou a este número tão grande de torcedores? Os motivos desta popularidade foram abordados na Conferência “Flamengo: a invenção do clube mais querido do Brasil nos anos 1930”, ministrada pelo Professor Adjunto de História do Brasil Republicano da Universidade Federal Fluminense (UFF), Renato Soares Coutinho,  na última quarta feira, 16, no Instituto de Ciências Humanas (ICH) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Renato Soares Coutinho (à esquerda) palestrante e Jorge Ferreira (orientador)

A pesquisa é da tese de doutorado feita com a orientação de Jorge Ferreira, Professor Titular da Universidade Federal Fluminense. A ideia central foi falar um pouco sobre o futebol carioca com ênfase no Clube de Regatas no Flamengo, em seu início, como um clube elitizado até o final da década de 30, quando passou a ser considerado “do povo”.

  Renato explica que inicialmente o clube era de elite, ficava na Lagoa, área nobre do Rio de Janeiro, e o esporte era praticado por sócios do clube como uma forma de diversão, e não para disputa de jogos e campeonatos. A maior época de destaque para ele é a década de 30, na qual o clube ganhou um nome que entraria para a história. José Bastos Padilha assumiu a presidência com o objetivo de torná-lo o “Mais Querido”.

  Padilha decidiu se candidatar à presidência no início da década de 30 e foi eleito. Promoveu ações que contribuíram para o crescimento do clube como organizar um concurso nas escolas do Rio de Janeiro para que os alunos criassem frases louvando o Rubro-Negro e entre elas uma das mais conhecidas até hoje, “Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”, vindo a fazer parte do hino do clube.

  Alavancou o Flamengo com atitudes inovadoras como a criação da Gávea, aumento no número de sócios e da receita e o clube passou a ter jogadores de pele escura, com a primeira contratação sendo de Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”.

   O Flamengo passou a ser uma Nação. O dirigente fez com que o clube tivesse suas próprias características, temperamento e motivação. Além disso, o estudo mostra nomes que também foram importantes nesse processo: Mario Filho, Roberto Marinho, Ary Barroso e José Lins do Rego. O Clube conquistava o apoio da mídia e de grandes nomes da época. Padilha ficou no clube até 1937 e até hoje é um nome de referência para muitos.

   Para explicar esse momento, Renato utilizou os seguintes argumentos: “O problema ganha uma relevância historiográfica à medida que observamos que na década de 30, época de regulamentação das relações sociais de trabalho, no momento de profissionalização do desporto no Brasil, o Flamengo passou por um grande processo de reconfiguração administrativa, institucional e simbólica”.

Encontro foi promovido na quarta-feira, dia 16, em Juiz de Fora

Veja outros pontos importantes destacados no estudo.

Início da tese

  “A ideia da pesquisa surge não pelo futebol, e sim, para gerar um debate sobre os usos do conceito de populismo. Na verdade, o trabalho se insere muito mais no caminho de criticar os usos do conceito, baseados na percepção que a classe trabalhadora brasileira era amorfa, sem projetos, manipulada pelas estatais. O campo do desporto é um caminho para mostrar quais valores, qual cultura política era utilizada, e também a referência para os trabalhadores no campo esportivo, com a ideia de mostrar como era a organização das torcidas. O trabalho surge muito mais por conta de uma releitura da história da política brasileira sobre o período, uma releitura que critica o conceito de populismo como uma forma de manipulação e debilidade dessa classe brasileira para tentar enxergar os elementos de construção de modernização a partir do trabalhador como sujeito e não só como grupo manipulado”.

 

Ponto de destaque

“O Clube de Regatas do Flamengo ao longo do século XX mostra que pesquisas de popularidade indicaram que o clube era a agremiação esportiva mais constante no quesito popularidade. Um elemento importante para entender a história do Brasil a partir do desporto é o uso das narrativas dos discursos nacionalistas do estado por parte dos clubes de futebol e nesse caso, mais especificamente, o Flamengo como sendo o que mais se apropriou de um discurso nacional estatista baseado na noção de integração nacional, mestiçagem, conceitos que eram muito caros para os intelectuais modernistas brasileiros”.

 

Texto: Lara Valentim, estagiária, supervisão Ivan Elias

Fotos: Toque de Bola

 

 

 

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