Talento desperdiçado! A passagem do furacão Valdiram por JF

Valdiram comemora seu primeiro pelo Tupi, em Juiz de Fora

  Vez por outra, quem acompanha futebol de perto esbarra com atletas de grande potencial que não se tornam tudo o que poderiam e acabam perdidos para o vício em álcool e drogas. A história do atacante Valdiram, encontrado morto nas ruas de São Paulo há pouco mais de uma semana, aos 36 anos, é a mais recente delas.

  Parte desta saga que termina em tragédia anunciada foi vivida em Juiz de Fora, e o Portal Toque de Bola relembra esse período como forma de homenagem à memória do jogador e alerta às futuras gerações. Com base no depoimento de quem conviveu com o talentoso atacante naquele 2010, no qual vestiu as camisas de Tupi e Sport, é possível perceber o quanto o talento de Valdiram foi notado e respeitado. E o tamanho do desperdício que a doença impôs ao atleta.

Expectativa e pé atrás

    No início de 2018, o Toque de Bola chegou a noticiar a situação grave na qual estava o ex-carijó e ex-periquito. E não se pode dizer que quem o viu em Juiz de Fora em 2010 já não tinha a noção de que sua vida pudesse ir vício abaixo. Antes mesmo de sua chegada, para a disputa da Série D do Campeonato Brasileiro pelo Tupi, quem acompanhava a carreira do atleta – que havia sido artilheiro da Copa do Brasil 2006 pelo Vasco – já tinha um pé atrás.

Jogador foi artilheiro da Copa do Brasil pelo Vasco

  “Chegou para ser o nome de respeito, que poderia conduzir o Tupi naquela época para a Série C. Ao mesmo tempo, era um jogador que a torcida que acompanhava sabia que era problemático. Por isso até teve essa queda na carreira, do Vasco a clubes menores. No Tupi, a esperança era de ele se recuperar. Esse é o ponto. Toda torcida pensa que o clube vai conseguir recuperar o jogador. O que raramente acontece. Em Juiz de Fora, mais do que fazer um ou dois bons jogos, foi um desastre fora de campo”, relembra o torcedor alvinegro, Eduardo “Dudu” Kaehler.

Talentoso e decisivo

  Valdiram era figura constante nas madrugadas dos bares do Centro de Juiz de Fora. E o vício em álcool e drogas o atrapalhou, mesmo que seu talento dentro de campo tenha sido inegável, atestado por quem atuou a seu lado e treino contra o atacante. “Era um excelente jogador. No um contra um, muito forte. Tinha um dom para fazer gol também”, lembra o meia Léo Salino, companheiro no Tupi.”Tinha uma pedalada que ele levava para o lado e batia. Difícil de parar”, conta o volante Marcel, que jogou a seu lado no Carijó e no Sport. 

Marcel jogou com Valdiram no Tupi e no Sport

  Mesmo nitidamente fora de forma e sem conseguir se livrar dos vícios, Valdiram conseguiu ser decisivo. Marcou pelo Carijó em sua estreia, no dia 7 de agosto de 2010, o único gol da vitória sobre o Botafogo-SP, no Mário Helênio. Voltou a marcar quando fez o terceiro dos três gols do Tupi diante do Madureira, na última rodada da fase de grupos da Série D daquele ano. A vitória por 3 a 0 classificou o time para as oitavas de final da competição.

Atraso e sumiço

  Depois da classificação, veio o episódio decisivo na saída de Valdiram do Tupi. Depois da troca de técnico, com a saída de Ademir Fonseca para o Vila Nova-GO, e o retorno de Léo Condé, o atacante aprontou novamente, foi afastado e teve seu contrato rescindido. “Ele chegou com o Ademir Fonseca, no período que eu estava no Ipatinga, para a Série D. Acabei assumindo o time por dois jogos apenas. Aconteceu comigo um episódio no qual ele chegou atrasado em um treino, e o afastei do jogo. Depois, a diretoria tomou a decisão de liberá-lo”, lembra o Condé.

Leó Salino foi companheiro de Tupi do ex-atacante

  Valdiram já havia se apresentado atrasado e sem condições de treinar em outras ocasiões no Tupi. E aquela teria sido a gota d’água para os diretores. “Ela já havia ficado quatro dias sumido. E escutamos que já tinha feito as mesmas coisas em outros times”, conta Salino. 

Ida ao Sport

  Sem contrato com o Tupi, o atacante foi para o Sport, mas sua chegada começou a dar polêmica antes mesmo de se concretizar, como conta o vice-presidente do Periquito em 2010, Márcio Guerra. “A ida do Valdiram para o Sport, na época, causou uma discussão muito grande na diretoria. Ele foi indicado pelo Waltinho (Ribeiro, diretor de futebol do período), com ligações muito fortes com o Vasco. Algumas pessoas, inclusive eu, se colocaram contra. Mas como o próprio Waltinho disse que se responsabilizaria em tomar conta do jogador, alguns diretores deram um voto de confiança.”

Guerra relembrou passagem pelo Sport

  Apesar das esperanças, os problemas se repetiram no Verdão. “A chegada do Valdiram trouxe mídia ao Sport. Teve impacto na presença do torcedor nos jogos. Mas, em campo, não correspondeu ao que a gente esperava. Pelo contrário, foi uma decepção. Nós começamos a ter problemas disciplinares com ele. Especialmente nos treinos pela manhã, ele raramente aparecia. Cada hora tinha uma desculpa, cada hora um problema. Isso foi gerando um desgaste entre os jogadores. Alguns afirmavam abertamente que não correriam por ele”, explica Márcio.

Fim da passagem em JF

  Para Guerra a passagem de Valdiram pelo Sport um ponto crucial para o insucesso  e a derrocada do futebol no clube. “Na época, o time profissional do Sport tinha feito boas primeira e segunda fases da Segunda Divisão do Mineiro. Estava indo para a terceira, que poderia nos levar ao acesso. Tínhamos notícias a todo momento de que ele estava na noite, em situações complicadas. Isso fez com que, em curto espaço de tempo, ele se desligasse do time, e o Sport perdesse ao mesmo tempo a vaga na final do campeonato e também o acesso. Isso poderia ter feito o clube permanecer no futebol profissional até hoje”, considera.

Desperdício

Léo Condé trabalhou com o ex-atacante no Tupi

  Todos os entrevistados pelo Toque para a matéria, e quem viveu de perto a passagem de Valdiram por Juiz de Fora são unânimes em afirmar: seu talento foi desperdiçado. “A gente lamenta muito porque era um grande talento, muito potencial. Trabalhei com ele uns dez dias só e já deu para perceber isso”, lembra Condé. “Foi um talento que se perdeu de maneira triste para as drogas”, constata Márcio.

  Quem o viu da arquibancada também teve a impressão de que o jogador poderia ter sido mais. “Foi um cara que vai ficar na conta de um talento desperdiçado. Entre os jogadores que passaram pelo Tupi foi um dos que mais tinha condição, potencial para mostrar algo”, considera Dudu. E quem esteve a seu lado em campo e nos vestiários confirma. “Era uma pessoa humilde, brincalhão. Dentro de campo, muita qualidade e trabalhava sério. Infelizmente, tinha essa doença e complicou a passagem dele em Juiz de Fora”, diz Marcel.

Lamento e alerta

  O que fica é o lamento pelo trágico fim do ex-jogador e um alerta para todos. “Temos vários exemplos de atletas, principalmente do futebol, com esse vício de bebidas, drogas. É um retrato até mesmo social do país, temos esses casos em várias outras áreas. Infelizmente, teve esse lado que o prejudicou até levar a essa fatalidade. Que sirva de exemplo para que outros consigam ficar longe do vício da bebida e principalmente das drogas que tiram vidas e destroem famílias”, pede Condé.

  Salino, que chegou a reencontrar Valdiram após sua passagem em Juiz de Fora, também lamenta. “Fico triste pelo que aconteceu com ele. Passados três anos, encontrei ele no Rio. Eu estava no Nova Iguaçu e ele estava bem, na Igreja, treinando no Bonsucesso. Mas logo depois teve uma recaída e acabou parando. Agora é rezar pela alma dele e torcer para que não aconteça isso com mais ninguém”, deseja o meia. 

  Marcel lembra que muitos tentaram ajudá-lo, mas sem sucesso. “Muita gente tentou ajudá-lo, mas não conseguiram. Ficam as memórias de ter atuado a seu lado. Pedir a Deus que conforte sua família. Que sua história sirva de lição para os jogadores mais novos e muita gente por aí de que essa doença mata”, alerta.

Texto: Toque de Bola – Wallace Mattos

Fotos: divulgação Vasco da Gama; divulgação Tupi FC; Patrocínio Photo Studio; e arquivo Toque de Bola

 

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