Especial: professores de JF avaliam efeitos da morte de dez “sonhos” da base

  As primeiras horas da sexta-feira, dia 8 de fevereiro, trouxeram uma atmosfera de consternação ao mundo do futebol. Um incêndio matou dez adolescentes com idade entre 14 e 16 anos no Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro. Os jovens foram surpreendidos ainda no início na manhã, enquanto dormiam. De acordo com informações preliminares, tudo teria ocorrido após um curto circuito no ar condicionado de um dos quartos do alojamento.

  Por todo o País, diversos clubes passaram por fiscalizações em suas estruturas, sendo algumas delas interditadas. Ao longo dos dias que sucederam a tragédia, várias instituições se envolveram no início das investigações, assim como opiniões de personalidades vieram à tona.

  Em Juiz de Fora não foi diferente. O Toque de Bola traz a opinião de diversos profissionais locais, com experiência em categorias de base, para falar sobre os efeitos do incêndio no Ninho do Urubu. Entre diretores, coordenadores e professores, o luto e a necessidade de providências imediatas foram o consenso.

  Todos foram questionados não apenas sobre a morte dos atletas, mas a abordagem por parte do clube, da imprensa e da opinião pública. O receio e preocupação de pais que possuem filhos no mundo do futebol também foram temas das entrevistas. Confira abaixo o posicionamento dos profissionais.

  A tragédia

 Marcelo Matta – coordenador do projeto de extensão “Futebol UFJF”

Marcelo Matta (Foto: Twin Alvarenga)

 “Conforme todo esportista ficou chateado com esse evento, eu também fiquei. O que envolve ali são dez crianças, uma cultura brasileira muito forte, que é o futebol, a possibilidade de ascensão social através do esporte, a possibilidade de ajudar os familiares, conforme muitas histórias que a gente conhece. Alguns meninos do projeto sentiram muito o acidente, pois conheciam alguns desses garotos que faleceram. É muito triste ter que acompanhar isso”.

 

 

 

Henrique Biaggi – professor da Escola Oficial do Flamengo e ex-treinador do Tupi Futsal

Henrique Biaggi

“É lamentável. Se nós estamos tristes dessa forma, nem imaginamos como estão as famílias dessas crianças que estavam buscando um sonho. Acompanhando os desdobramentos nós vemos que não só o Flamengo mas boa parte das equipes brasileiras possuem CTs irregulares. E agora, como tudo no Brasil, após ocorrer uma tragédia, todos correm atrás. Que sirva de alerta a todos os clubes, todas as empresas, para que todos regularizem seus estabelecimentos para ficar de acordo com o que a norma pede. Torço para que tudo seja resolvido da melhor maneira possível, principalmente com os familiares das vítimas”.

Leonardo Beire – diretor do Centro de Futebol Zico Juiz de Fora

Diretor do Centro de Futebol Zico, JF, Léo Beire, entrega placa ao Galinho de Quintino antes de amistoso

“Nós, como formadores que trabalhamos em uma escola de futebol, recebemos com muita tristeza a notícia. Vira e mexe nós mandamos garotos para realizarem avaliações nos grandes clubes do País, inclusive o Flamengo, e temos essa surpresa terrível desse incêndio. Me coloco no lugar de todos os envolvidos, porque é uma situação muito difícil.”

 

 

 

 

A experiência

Luiz Fernando Freitas – ex-jogador do Bahia e professor na Escola Oficial do Flamengo

Luiz Fernando Freitas é professor na Escola Oficial do Flamengo

“Morei seis anos e meio em alojamento. Durante dois anos e meio morei em Itaperuna, onde até em arquibancada eu tive que dormir algumas vezes, porque faltava energia e nós dormíamos na arquibancada para não sentir calor. Depois morei durante quatro anos na sede de praia do Esporte Clube Bahia. Era um galpão com cerca de 20 a 30 criança, juntos, atrás de sonhos. Infelizmente, um trágico acidente, que agora vai abrir os olhos para as vistorias e para ver se realmente existe segurança onde essas crianças ficam. Existem muitos clubes com a estrutura muito pior que a do Flamengo, e olha que a do Flamengo era boa, porque não é qualquer clube que tem ar condicionado para criança, a maioria é ventilador mesmo ou você leva o seu”.

Alfredo Coimbra – professor responsável pela escolinha Iniciação Esportiva São Mateus (Futsal)

Alfredo Coimbra, idealizador da Copa Toque de Bola

“Já trabalho faz bastante tempo na área de formação de jogadores de base. O problema todo é que as famílias veem esses meninos como a salvação de todos, não só no poder monetário, mas é o garoto que pode tirar uma família da miséria. Os clubes têm de rever esses conceitos, porque não é só no Flamengo que é assim. O que aconteceu é muito chato”.

 

 

 

Providências

Lucas Fajardo – professor responsável pela Escola de Futebol Wellington Fajardo

Lucas Fajardo com alunos da Escola de Futebol Welington Fajardo

“Nós, que estamos no meio do futebol, sabemos que esse é apenas um dos riscos. Tudo isso requer uma responsabilidade muito grande. Agora, como sempre em nosso País, eles vão começar a rever muita coisa e tem que ser levado mais a sério, para que nunca mais tenhamos que conviver com esse tipo de coisa. Só lamento muito e desejo força principalmente para as famílias. É o momento de pensarmos neles. Temos que melhorar e tornar o futebol mais humano”.

 

Leonardo Beire 

“Quando acontece uma situação tão negativa e desesperadora dessa, logicamente os responsáveis devem ser punidos. Na realidade, o futebol brasileiro, muitas vezes, apresenta um cenário de concentrações, alojamentos e categorias de base com grandes problemas. Temos que entender melhor tudo isso”.

Marcelo Matta 

“Todas as circunstâncias demonstram que realmente houve erro e os responsáveis terão que responder por isso. Sinceramente, tem que penalizar e criar um regime rigoroso quanto a isso, pois os clubes, a cada dia que passa, procuram descobrir, selecionar, detectar meninos mais novos e antes de seus concorrentes. Se o Flamengo, com esse investimento, passou por esse problema, como será que estão as instalações de clubes espalhados pelo País? Quais são as condições deles?  É por isso que esse fato pode criar um novo modelo, mais rigoroso, e parar com isso de tirar os meninos de suas famílias tão cedo”.

A família

Luiz Fernando Freitas 

Acredito que a participação dos pais nessa hora é fundamental. Acho que o pai tem que ter acesso ao local que o filho está, onde o filho vai dormir, com quem vai dormir, como vai dormir, e muitas vezes eles não são ouvidos. Meu pai viajou 1200km até Salvador para saber onde eu ia ficar. Acho que agora o poder público, as instituições, os clubes, ficarão atentos a tudo, e os pais principalmente, porque sempre vão lembrar dessa situação ao levar seus filhos em clubes”.

Henrique Biaggi  

Isso sempre aconteceu. Agora, depois dessa tragédia, todos vão querer saber para onde seus filhos estão indo. Aquela coisa de atleta dormir embaixo da arquibancada, como havia há muito tempo atrás, alojamentos sem nenhuma estrutura… isso vai fazer com que, com certeza, os clubes se profissionalizem e os pais, quando chegarem a um clube, vão analisar as condições oferecidas. Situações difíceis muito já passaram, mas agora esse tipo de situação tende a acabar.”

Leonardo Beire 

Tenho certeza que muitos pais ficarão mais atentos com relação a onde e como os filhos vão ficar. Infelizmente, esse posicionamento tende a acontecer com aqueles que tem uma garantia, com os pais sempre atentos. Conheço muitos garotos que toleram qualquer tipo de coisa para continuar atrás de seus sonhos como, por exemplo, dormir em degrau de arquibancada. É complicado”.

  Indenização

 

Incêndio matou 10 jovens promessas que dormiam no alojamento do Flamengo

Na tarde desta segunda-feira, dia 18, o globoesporte.com informou sobre as providências e o cálculo para a indenização dos familiares das vítimas do incêndio.

    Após reunião na última sexta-feira, o departamento jurídico do Flamengo voltou ao Ministério Público nesta segunda para discutir as indenizações do incêndio que matou 10 atletas do clube no dia 8 de fevereiro no Ninho do Urubu. O clube apresentou proposta para membros do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Infância e Juventude, do MP, em encontro com a participação também de representantes da Defesa Civil e do Ministério do Trabalho.

    O MP fez contraproposta ao Flamengo, que ficou de responder até o fim da semana. O cálculo inicial foi feito pelo Rubro-Negro e levou em conta tempo de carreira e remuneração média para jogadores. A proposta de indenizações será dividida em categorias: familiares dos 10 atletas mortos no incêndio; sobrevivente com lesão permanente (Jonatha Ventura); sobreviventes que escaparam sem lesões. Os valores ainda são mantidos em sigilo.

 Depois do Flamengo e do Ministério Público entrarem em acordo, a proposta será levada aos familiares, em outra etapa. Cada família indenizada pode aceitar ou recusar o acordo. Em caso de negativa, podem recorrer por indenização individual.

 

Texto: Toque de Bola

Texto complementar: globoesporte.com 

Fotos: Toque de Bola, G1, globoesporte.com e arquivos pessoais

 

 

 

 

 

 

 

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