08 nov 2018

Como fazer um Tu-Tu domingo depois do rock que varou a madrugada?



  Se a disputa de bastidores já começou e a torcida aguarda com ansiedade pelo clássico Tu-Tu de 2019, o Toque de Bola não fica atrás. Assim, como ainda não pode prever o futuro, a equipe do Portal mergulhou no passado para matar a vontade relembrar antigos confrontos entre Carijó e Baeta.

  Vamos ao ano de 1983, época de efervescência, com jovens querendo se expressar livremente em diversos sentidos. Eis que, naquele ano, Tupi e Tupynambás disputavam a Segunda Divisão do Campeonato Mineiro, dividido o mesmo grupo C com Flamengo de Varginha; Sete de Setembro, de Belo Horizonte; e Juventus, de Contagem. E a dupla Tu-Tu teve um adversário comum – além do oponentes em campo – e inusitado: um show de rock! 

Coincidência de datas

  A bola começou a rolar para o grupo C no dia 7 de agosto. Nessa primeira rodada, o Tupynambás folgou, e o Tupi foi à capital e fez 2 a 0 no Sete de Setembro. Estava armado o cenário para o clássico: estréia do Baeta contra o Carijó líder – o outro jogo da chave havia terminado 2 a 1 para o Flamengo.

  O jogo do dia 14 de agosto, no Estádio José Procópio Teixeira, do Sport, já seria aguardado por si só, e com elementos extras, ganhou novas cores. Mas no meio do caminho havia uma coincidência de datas. Na véspera da partida estava previsto, para o mesmo local do Tu-Tu, aquele que é considerado o primeiro grande festival roqueiro de Juiz de Fora.

  A preparação dos times seguiu normal para o confronto. O técnico do Tupi, Nando Osório, e seus atletas esbanjavam confiança. E o comandante do Baeta, Augusto Clemente, e seus jogadores também estavam animados para o clássico e a estreia na competição estadual.  No jornal Tribuna de Minas do sábado, 13 de agosto de 1983, é possível ver matérias em páginas lado a lado sobre a expectativa para o Tu-Tu e a divulgação do festival de rock, a partir das 15h daquele mesmo dia.

Até de manhã, com fogueiras

   Com nomes como Coquetel Molotov, Lixomania, Olho Seco, Cólera, Dhaal, Toccata, Rogério Skylab, Beatles Forever, Barão Vermelho, Sangue da Cidade, Lobão, Erasmo Carlos e Raul Seixas, o 1º Festival de Rock de Juiz de Fora, que cobrou Cr$ 200 mil por ingresso (R$ 72,73), e teve ainda apresentações teatrais e de poesia, esquentou o Procópio Teixeira.

  Literalmente. Integrante do Beatles Forever, Francisco Bustamante, lembra bem do show. “Foi uma noite muito importante para nós. Conhecemos todo mundo das bandas. Lobão estava começando, Cazuza e o Barão Vermelho também eram desconhecidos.  O carro chefe do festival era o Sangue da Cidade”, explica. 

 O acedimento das fogueiras no campo também marcou a memória de Francisco sobre aquela noite no Sport. “Foi um sábado muito frio. O público, em determinada hora da madrugada, começou a fazer fogueirinhas com papel e copos de plástico no gramado. Isso deixou ele muito judiado realmente. Além de ter ficado o dia todo recebendo gente. Teve esse efeito colateral. Nenhum gramado é preparado para isso”, conta.

  Segundo reportagens publicadas na terça-feira, dia 16 de agosto de 1983, após o show e o jogo, pela Tribuna de Minas, o festival teve público entre 10 e 12 mil pessoas. Nada menos do que 12 fogueiras foram acesas no gramado do Estádio Procópio Teixeira, além de outros atos de vandalismo. Os shows seguiram madrugada adentro, e a última referência de horário é a subida ao palco de Erasmo Carlos às 2h. Sua apresentação seria sucedida pela de Raul Seixas, fechando o lineup.

Como ficou

  Após o Tu-Tu daquele 14 de agosto de 1983, o Tupi só voltou a jogar em duas semanas, por conta da folga na tabela, e arrancou para terminar a primeira fase invicto e classificado. O Baeta também avançou. Um novo clássico aconteceu no dia 31 de agosto, e novamente o placar ficou em 0 a 0.

  Na etapa seguinte da Segunda Divisão, os dois clubes dividiram novamente a chave. Mas o Tupi levou a melhor nos dois Tu-Tu, vencendo por 1 a 0 e 2 a 1. O Carijó terminaria a segunda etapa do torneio classificado, enquanto o Baeta ficou pelo caminho. O Alvinegro de Santa Terezinha seria campeão da Segunda Divisão de 1983 conseguindo o acesso diretamente para a elite do Mineiro, superando na fase final Alfenense, de Alfenas; XV de Novembro, de Uberlândia; e Paraisense, de São Sebastião do Paraíso (mais informações sobre a Segundona de Minas de 1983).

Cenário desolador

 

Chico Bustamante da Cal, do Beatles Forever

Bustamante também se recorda do atraso e como isso afetou o público. “Me lembro que houve um atraso muito grande do Erasmo Carlos, a penúltima atração. Mais de uma hora, não sei se passando mal ou o que. Por conta disso, quando o Raul subiu ao palco já estava amanhecendo. Metade do pessoal já tinha ido embora”, relembra. “No dia seguinte, ninguém pensava em jogo, Estávamos ‘de ressaca’ do show ainda”, conta.

  “Nossa Senhora! O que é isto?” A reação do diretor de futebol do Tupi à época, Aloísio Mosquera, estampada em uma das retrancas da página 12 da Tribuna de Minas do dia 16 de agosto de 1983, resume o sentimento dos envolvidos no jogo ao chegarem ao Procópio Teixeira. Na mesma parte do periódico, o vice-presidente do Sport à época, João de Castro, se disse envergonhado.

  Sem um gramado em condições, o jogo, que terminou 0 a 0, foi tecnicamente pobre, perdendo destaque nos relatos para lamentações de dirigentes e pedidos de explicações de sócios de renome do Sport. Na avaliação da partida, o Tupi, além das criticas ao campo, comemorou de certa forma o empate, através de seu diretor de futebol Aloysio Mosqueira. Enquanto isso, no Tupynambás, o técnico Augusto Clemente citou o estado do gramado aliado ao nervosismo da estreia para um desempenho abaixo do esperado de seus atletas.

  Márcio Guerra: críticas ao “presidente eterno”

 

Jornalista e professor da UFJF Márcio Guerra em foto de arquivo (evento do centenário do Sport Club Juiz de Fora, em setembro de 2016)

  O professor da UFJF e jornalista Márcio Guerra conta que ficou perplexo quando chegou ao palco do jogo e viu o estado do gramado após o show de rock. Torcedor declarado do alviverde, abriu a transmissão da partida pela Rádio Super B-3 com duras críticas ao clube e, consequentemente, a uma das pessoas que ele mais admira.

   Ele se emociona até hoje quando cita o seu nome, em diferentes ocasiões. Márcio “pegou pesado”, ao vivo, com ninguém menos que o “presidente eterno” (recebeu essa denominação por atuar como 52 anos como dirigente principal do Periquito) do Sport Club Juiz de Fora, Francisco Queiroz Caputo, por ter liberado o estádio para um show de rock na véspera de uma partida oficial. Felizmente, depois de um tempo os dois voltaram a ser grandes amigos.

  “Me lembro muito bem desse episódio. A diretoria do Sport inexplicavelmente marcou um evento como esse na véspera de um jogo pelo Campeonato Mineiro. Quando nós chegamos ao estádio, e vimos a quantidade de cacos de vidro, e as pessoas tentando recolher para ver se viabilizavam o jogo, quando entrei no ar (na transmissão ao vivo pela rádio Super B-3) fui muito duro com o seu Caputo (Francisco Queiroz  Caputo, presidente do clube). Algumas pessoas me questionaram, falaram que ele era uma pessoa de idade, e que eu devia ter mais consideração. Mas minha admiração e consideração por ele não diminuíram em nada, mas eu não podia deixar de responsabilizar o dirigente que tinha autorizado aquele absurdo. Insisti que era uma irresponsabilidade dele,  que ele era o grande culpado. Seu Caputo ficou um tempo sem conversar direito comigo, muito magoado pelo que eu falei sobre ele e pela atitude dele. Mas depois reconheceu que foi um erro e a gente continuou muito amigo”, lembra Márcio ao Toque de Bola.

  Dhaal: show marca grande sucesso na carreira 

 

O músico Dhaal estava lançando um grande sucesso na época do famoso show no campo do Sport

 O cantor Dhaal foi um dos juiz-foranos que participou do Primeiro Festival de Rock de Juiz de Fora. Lançando seu primeiro disco, um compacto com a música América do Sul, que seria um de seus maiores sucessos país afora, ele se lembra do show, mas confessa não ter memória sobre o estado do gramado e nem fazer ideia que o Tu-Tu se realizaria no dia seguinte.

    “Me lembro bem desse show. Tinha o Erasmo Carlos, Raul Seixas. Mas juro que não lembro como ficou o campo, se ele ficou prejudicado. Nem sabia que tinha sido na véspera de um Tupi x Tupynambás. Daqui da cidade éramos eu, Beatles Forever… Isso tem 35 anos.

   Esse show teve repercussão nacional sim. Não tenho certeza o nome do filme, mas teve cenas do show citado. Vários jornais deram notícias desse evento, que foi um dos primeiros nesse formato no Brasil.

  Começou à tardinha e foi noite afora. Teve a participação de produtores do antigo Circo Voador na coprodução do show. Quem apresentou foi Perfeito Fortuna. Estava lotado o campo. Quem fez tudo na época foi o Marcos Petrilo.

  Gostei muito de ter participado, fazendo um show para centenas de pessoas. Estava lançando meu primeiro disco. Era um compacto com a música América do Sul. Tocou muito no Brasil!”

Veja recortes da Tribuna de Minas, na pesquisa feita  pelo Toque de Bola.

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Texto: Toque de Bola – Wallace Mattos e Ivan Elias, com pesquisa na Biblioteca Municipal Murilo Mendes

Fotos: Toque de Bola – reproduções das páginas do jornal Tribuna de Minas dos dias 13, 14 e 16 de agosto de 1983 pertencente ao acervo da Biblioteca Municipal Murilo Mendes

Se você conhece ou viveu alguma história inusitada sobre o clássico Tu-Tu, entre em contato com o Toque de Bola. Vamos compartilhar os capítulos pitorescos dessa rivalidade que renasce.


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