Creso, Walker, Marcel e agora Maranhas: Tupi 2018 está sem identidade?

    José Roberto Maranhas, ou “Doutor Maranhas”, como é chamado por amigos e atletas, há mais de 30 anos ligado ao Tupi, está de saída do clube.  

     A informação, divulgada pelo Portal Toque de Bola nas redes sociais no início da noite desta segunda-feira, dia 29, reforça uma situação preocupante no futebol Carijó nesta temporada 2018.

    Desde que terminou a Série C do Campeonato Brasileiro do ano passado, já são quatro saídas de “pratas da casa”, em diferentes campos de atuação. Em comum, todos com história e longa trajetória em Santa Terezinha. Pessoas identificadas com o clube.

    Primeiro, foi o enfermeiro Creso Heleno, encerrando um ciclo de 12 anos na Comissão Técnica do Tupi. Depois, deixaram o clube um atleta (Marcel – prata da casa que voltou ao Carijó em 2017) e o treinador de goleiros Walker Campos, este após 18 anos de atuação no clube.

   Agora, foi a vez de Maranhas dizer adeus.

   Considerando 30 anos de atuação do médico e o período em que os demais profissionais juiz-foranos citados defenderam as cores alvinegras, a soma chega a cerca de 70 anos.

 O médico

Maranhas entrega camisa do Tupi ao técnico da seleção sub-20, Ney Franco (em janeiro de 2011)

  José Roberto Maranhas era vice-presidente do futebol e responsável pelo departamento médico. Já comunicou aos demais dirigentes a sua saída e não ficou no banco de reservas domingo, dia 28, diante da Caldense – a vaga, durante o jogo, foi preenchida por Waltencir Freguglia, marido da presidente do clube, Myrian Fortuna.

  Sem críticas diretas aos dirigentes que permanecem, o agora ex-vice-presidente não desmente o desgaste ocorrido nos bastidores do jogo entre Tupi e Uberlândia, pela segunda rodada do Campeonato Mineiro, que pode ter sido a gota d´água para ele se desligar do clube.

  Para a partida, ele já havia escalado um colega para substituí-lo e não compareceu ao Estádio Mário Helênio. Mesmo assim, estranhou, como responsável pelo departamento médico, não ter sido sequer comunicado sobre a virose, revelada no pós-jogo pelo dirigente do futebol, Nicanor Pires, e, três dias depois, pelo treinador Alexandre Barroso.

  O desempenho do time em campo naquele jogo – derrota de 5 a 2 para o Uberlândia, um dos piores resultados da história do clube como mandante diante de equipes mineiras – também deixou Maranhas muito preocupado.

   Ele e Nicanor conversaram no dia seguinte à goleada e Nicanor, responsável pela montagem do elenco ao lado de Barroso, teria colocado alguns pontos considerados importantes para não mexer na Comissão Técnica naquela oportunidade.

       Ao confirmar sua saída do clube, Maranhas não quis atribuir ao episódio sua decisão. “É um direito do clube permanecer com o treinador. Não estou sempre certo em minhas posições”, pondera.

     Sempre muito sincero em suas declarações, o que nem sempre agrada alguns torcedores, o dirigente não vê muitas perspectivas de avanços no futebol do clube. “A questão financeira é a cada temporada mais complicada”, observa, lembrando, entre outras situações, que as cotas de patrocínio normalmente estão em patamar bem inferior ao necessário, e há dificuldades estruturais – o time não tem um Centro de Treinamento, muito menos um local fixo para treinamentos, por exemplo.

     Como já vinha amadurecendo a decisão de sair há algum tempo, Maranhas preferiu não entrar em choque com o atual dirigente encarregado de conduzir o futebol ou com a presidente do clube e tornou pública a sua saída. 

      O treinador de goleiros

Paulo Henrique e o preparador de goleiros do Tupi, Walker Campos (em agosto de 2017)

    Recentemente, dois integrantes da chamada Comissão Técnica permanente do clube, formada por profissionais da cidade, desligaram-se de Santa Terezinha: o preparador de goleiros Walker Campos e o enfermeiro Creso Heleno.

    Embora ambos não tenham declarado abertamente, a informação de bastidores é que a dupla não chegou a um acordo para prosseguir diante de vencimentos atrasados da temporada 2017.

  Consultado nesta terça-feira, dia 30, pelo Toque de Bola, Walker, que estava na arquibancada na vitória sobre a Caldense, mostrou-se surpreso com  a saída de Maranhas: “Uma pessoa que tenho muito respeito. Fiquei surpreso com a saída dele. Sempre pronto para nos ajudar, tem uma história dentro do Tupi”.

  Sem querer se estender sobre a sua situação – supostos vencimentos em atraso, Walker mostra-se preocupado com a saída, num intervalo curto de tempo, de profissionais identificados com o Carijó: “Ficamos preocupados. A gente gosta do clube”.

   Quanto ao elenco, após a saída de Marcel, o treinador de goleiros lembra só de um jogador formado nas divisões de base, coincidentemente na posição em que ele se dedicava: Gonçalves, que é considerado o terceiro goleiro da equipe.

    O enfermeiro

Ulisses conversa com o enfermeiro do Tupi, Creso Heleno (em fevereiro de 2015)

  “Amo de paixão o Tupi, mas temos que separar as coisas”. Foi assim que o enfermeiro Creso Heleno, o primeiro a deixar o clube entre os profissionais da Comissão Técnica desde o ano passado, analisou não só a sua saída como a de Walker e agora Maranhas ao Toque de Bola, na tarde chuvosa desta teça-feira em Juiz de Fora.

  Creso lamenta, mas já esperava que o médico se desligasse do clube: “Para ele sair, alguma coisa houve. Já tinha me dito que não estava satisfeito, nos últimos dois anos demonstrava sua insatisfação. Maranhas sempre foi uma pessoa extremamente profissional, muito pacífica, que gosta demais do clube e já ajudou bastante, inclusive financeiramente o Tupi”.

 O enfermeiro, que agora dedica-se exclusivamente às suas funções no Exército – antes dividia o tempo com as atividades no clube,  não esconde a mágoa com os rumos do futebol em Santa Terezinha.

  “Essas saídas têm tudo a ver com o que se passa lá. Não somos ouvidos, não ouvem a parte do profissional. Sou um dos funcionários que mais ajudaram o clube, até financeiramente. Uma pessoa que está lá no futebol agora pode ser o porquê de tanta gente estar saindo”.

  Sobre a transferência de Marcel para o Taubaté (SP), Creso atribui à falta de reconhecimento na cidade de jogadores juiz-foranos. “No caso do Marcel, acredito que tenha a ver com valorização. O jogador da cidade tem que comer grama e nem sempre é reconhecido. Muitos de fora às vezes são mais valorizados sem fazer tanto pelo clube”, entende.

  A situação delicada da equipe no Campeonato Mineiro – ocupa a lanterna após quatro rodadas – entristece o profissional de saúde: “Torço muito para o time não cair, para que as coisas melhorem porque amo de paixão o Tupi mas do jeito que estava não deu para continuar trabalhando lá. Quem sabe futuramente?”

Tipo exportação

Sávio em jogo contra a URT pelo Campeonato Mineiro, sua penúltima partida pelo Tupi. Sua despedida foi contra o Ypiranga, pela Série C

   Como o Tupi já há alguns anos não consegue desenvolver um trabalho bem estruturado nas categorias de base – desde 2012 não disputa o Campeonato Mineiro Júnior – o futebol do Tupi está cada vez com menos profissionais locais dentro e fora de campo.

    Alguns exemplos. Na Série B de 2016, Sávio conseguiu se destacar apesar da campanha negativa, entrando em algumas partidas. No ano seguinte, porém, preferiu transferir-se para Portugal por não ter oportunidades entre os profissionais.

   No início deste ano, o volante Marcel, que seria, talvez, o único remanescente titular da Série C para o Mineiro de 2018, acertou a saída para o Taubaté (SP), que disputa a Série A-2 Paulista, tradicionalmente uma competição mais valorizada para os profissionais do futebol que a divisão principal do futebol mineiro.

   Quanto à última safra de jogadores formados nas categorias de base de Santa Terezinha, resta ao torcedor vê-los pela TV, ou acompanhá-los de alguma forma, como as redes sociais.

 

 

Texto: Ivan Elias – Toque de Bola

Fotos: Arquivo Toque de Bola

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