Novo chefe Alexandre Barroso receita criatividade, ousadia e Tupi forte em casa em 2018

  O novo comandante carijó chegou com discurso otimista, mesmo tendo ciência das dificuldades que irá encontrar no Carijó. O belo-horizontino de 54 anos falou sobre a escolha pelo Tupi e o fato de o clube ter a tradição de montar bons times.  

   Entre as palavras e pensamentos colocados à mesa, receitou criatividade e ousadia para formar uma equipe competitiva, lamentou que uma das perguntas tenha sido sobre o Uberlândia e não outros clubes, em que sua passagem foi melhor, disse que em casa o time tem que impor seu jogo e observou que a projeção do Tupi pode aumentar a contundência esportiva de Juiz de Fora.

   O clube apresentou de forma oficial Alexandre Barroso, treinador da equipe para a próxima temporada, na tarde desta terça-feira, último dia de outubro, na sede social.

   Além da presidente Myrian Fortuna, o técnico falou aos jornalistas observado pelo diretor financeiro Jarbas Raphael Cruz, pelo dirigente do futebol carijó Nicanor Pires e o auxiliar técnico Ricardo Leão.

   Peso da camisa e relevância da cidade

Sorridentes: presidente Myrian Fortuna entrega camisa do Tupi ao técnico Alexandre Barroso em apresentação na sede social

  “Eu não acho que o Tupi seja muito diferente de outros times não. Falando da realidade, todos estamos acostumados a tratar o futebol brasileiro com muito foco na ponta do iceberg. O que está abaixo da água, que é o verdadeiro futebol brasileiro, não tem o apelo da notícia. Mas na realidade, tirando os clubes da série A e alguns da série B, há uma dificuldade muito grande. Escolhi o Tupi pelo peso da camisa, pela relevância da cidade, pela ambição do projeto. O Tupi já chegou a uma Série B (em 2016), bateu na trave este ano. O Tupi tem essa mística de fazer bons times. Isso tudo é relevante. E o Tupi é uma grande vitrine, e treinador de futebol vive também em função de disso”.

   Peças

  Alexandre chegará com a missão de remontar todo o elenco, já que poucos jogadores presentes na campanha da série C permanecem. Até o momento, apenas os goleiros Gonçalves e Villar, e volante Kalu, tiveram as renovações sacramentadas. O volante Marcel, bastante identificado com a cidade, está bem próximo de um acerto. Outros nomes ainda estão negociando, como é o caso do volante Leandro Brasília e do meia Diego Luis.

    Criatividade x limitações

     Além disso, o Tupi precisará ir ao mercado em busca de novos atletas. A diretoria precisará usar a criatividade, já que pelas limitações do clube, não será possível fazer grandes negócios em termos financeiros. “Vamos ter que ser extremamente criativos. Falei com o Nicanor (Piures, gestor do futebol do clube) que se nós fizermos o que todo mundo faz, vamos chegar no lugar que todo mundo já chegou. Isso não interessa para mim. Por isso teremos que ter um pouco mais de criatividade na contratação, um pouco mais de ousadia nas ações e extremamente profissionais para podermos trabalhar com as limitações de pessoal e dinheiro. Os problemas do Tupi são os mesmos de outros clubes. Sei que temos algumas limitações, mas que são contornáveis, e que a história recente do Tupi tem mostrado que é possível fazer”.

   Trajetória

  O técnico tem passagens por Villa Nova-MG, Ipatinga, CRB, Cabofriense, Uberlândia e Crac-GO. Além de ter trabalhado no Al Hilal da Arábia Saudita entre 2005 e 2006.

  Alexandre conhece bastante o futebol mineiro e teve boa passagem pelo Villa em 2013. Naquele ano ficou em terceiro lugar no Campeonato Mineiro com o Leão, atrás apenas de Cruzeiro e Atlético e foi campeão Mineiro do Interior. Outro bom momento foi no comando da Cabofriense em 2014, quando levou o time às semifinais do Carioca, deixando para trás o Botafogo.

   Seu último clube foi o Crac-GO, pelo estadual em 2017. Chegou durante a competição, mas não conseguiu evitar a queda do time para a segunda divisão. No ano passado esteve à frente do Uberlândia no Campeonato Mineiro e terminou em décimo. Essa passagem pelo Uberlândia não foi tão boa, e quando o Tupi ensaiava anunciar sua contratação, alguns torcedores do Alviverde do Triângulo criticaram nas redes sociais. O treinador comentou sobre o caso.

   Confira trechos ais importantes da entrevista do novo comandante Carijó

    Uberlândia: “Eu sabia que teria essa pergunta”

  “Eu sabia que essa pergunta ia ser feita. É mais fácil ressaltarmos o que deu errado do que o que deu certo. É uma tendência nossa, infelizmente. Difícil as pessoas lembrarem das campanhas na Cabofriense, Villa Nova, o campeonato que tive há dois anos em Maceió, fui campeão pelo CRB, no Ipatinga, resultados positivos na Arábia Saudita. Enfim, eu vim no carro preparado para essa pergunta. Uberlândia foi uma situação parecida e sui generis. Eles fizeram uma parceria com a Universidade de Futebol e uma das coisas que o clube fez foi determinar que todo jogador seria contratado inteiramente na carteira. Quando chegou em um determinado momento do campeonato, começamos a ter que contratar jogadores que haviam disponíveis no mercado, que estavam parados há cinco, seis, sete, oito meses. Jogadores vindos da Europa com muita dificuldade de recuperação física. Iniciamos uma preparação, começamos o campeonato e chegamos na liderança na quinta rodada do campeonato. Foi a primeira vez na história do clube que eles chegavam à liderança do campeonato regional. Por conta de problemas que tivemos, o time decaiu e eu tenho uma parcela de culpa nisso. O treinador é o principal responsável por isso e havia muita pressão da torcida, principalmente da organizada”.

  Confronto com a torcida no Triângulo: “Não admito que me ameace”

  “Um grande problema foi a minha objeção e minha postura contundente com a torcida organizada. Eu não admito que o indivíduo me ameace. Teve um incidente lá em Uberlândia em que parei o ônibus, desci e fui confrontar a torcida que soltava fogos em cima dos jogadores. Achei isso um absurdo. Portanto essa minha postura de confrontação marcou muito o clube. Mas seria interessante também, já que você usou as redes sociais, que você perguntasse o pessoal do CRB o que eles pensam ao meu respeito, o que o pessoal da Cabofriense, do Vila Nova e os torcedores do Juventude, pensam ao meu respeito para darmos um pouco mais de amplitude nas opiniões e na ficar só com um ponto de vista”.

“Tupi tem que propor o jogo em casa”

   “O Tupi jogando em Juiz de Fora tem que ser uma equipe assertiva, que proponha o jogo. Temos um estádio com boas dimensões, um campo excelente para jogar. Acredito que em casa o Tupi não pode ser um time que reaja ao resultado. Tem que propor a maneira de jogar. Evidentemente que essa maneira é refém da qualidade dos jogadores. Se eu tenho um grupo que é mais propenso a deixar o adversário jogar, e especular o contra-ataque, eu vou ter que treinar a equipe para isso”.

“Modelo de jogo é uma coisa e tática, outra”

“Todo jogo coletivo é tático, seja basquete, futebol americano, voleibol… O grande pulo do gato dos esportes coletivos é você fazer com que a equipe entenda a maneira de jogar. Existem duas coisas distintas: uma coisa é modelo de jogo e outra coisa é tática. A tática pode variar de acordo com a circunstância, adversário, posição na tabela e com o seu momento durante o ano. O modelo de jogo não. Ele é um conjunto de referências que todo grupo tem para determinadas situações. E isso não é uma coisa que acontece em duas semanas ou em seis meses, é um projeto de longo prazo. Aqui no Brasil se troca treinador sem antes conhecer o nome da secretária do clube. Não sou diferente, estou inserido nesse contexto”.

“Menino ganha jogo, não campeonato”

“Se fizermos um time só de meninos não vamos longe. Trabalhei em categorias de base do Cruzeiro, Atlético, adoro trabalhar com os garotos. Mas menino ganha jogo, não ganha campeonato. Portanto se você montar um time só de menino, a probabilidade é de ter um resultado negativo é muito grande”.

Identificação com a cidade e necessidade de contundência esportiva

 “Eu vim para cidade e estudei no Granbery, passei no vestibular de Educação Física na UFJF, mas acabei cursando em BH. Um período muito interessante na minha vida, guardo amigos até hoje dessa época. Juiz de Fora tem uma característica muito interessante, a cidade tem personalidade, uma cidade que se interpõe a Belo Horizonte, embora seja a capital do estado. Mas JF tem uma relevância política e cultural muito grande. Eu acho que Juiz de Fora está deslocada no cenário do esporte brasileiro, a cidade precisa de ter mais contundência esportiva. O Tupi é o caminho para isso, se o Tupi joga uma série B, acho que muda o interesse do poder público pelo time, muda o interesse do empresariado, ganha-se um novo fator. A cidade também teve uma transformação física. Eu me lembro muito de uma Juiz de Fora mais pacata. Tenho uma relação afetiva com a cidade, mas evidentemente sei que relação afetiva não garante resultado e comigo não é diferente”.

  Detalhes da carreira

“Iniciei minha carreira como preparador físico no Cruzeiro de 1989 a 1996. Em 1997 comecei minha carreira de treinador no sub-20 do Cruzeiro. Em 2003 fui para o interior trabalhar com o Democrata, de Governador Valadares. Nesse mesmo ano fui treinador do sub-20 do Atlético-MG. Em 2005 fui para a Arábia Saudita, passei 10 messes por lá e fui campeão. Em 2006 voltei para o Brasil e fui para o Ipatinga, participando da campanha de acesso para a Série C. Em 2007 fui para o CRB de Alagoas e foi a melhor campanha da história do clube na série B do brasileiro. Em 2009 trabalhei como chefe de scout (estatísticas) no Atlético-MG. Ainda no mesmo ano fui para o Cruzeiro novamente, depois trabalhei no Juventude-RS como treinador e depois gerente de futebol. Em 2013 no Vila Nova, 2014 Cabofriense, 2014 e 2015 no CRB e em 2016 essa experiência do Uberlândia”.

 

Reportagem e fotos: Toque de Bola

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