Ex-campeão por Flu e Fla, Zé Roberto alerta: sem campos de terra batida, acaba a essência do futebol brasileiro

 

Para Zé Roberto, futebol brasileiro vem perdendo sua essência

Natural de Três Rios-RJ, José Roberto Padilha, mais conhecido como Zé Roberto, esteve presente na UFJF no início da tarde desta sexta-feira, dia 29, para a divulgação de seu mais novo livro “Memórias de um ponta à esquerda”. No livro ele conta várias crônicas e histórias do tempo de jogador. Atuou pelo Fluminense entre 1971 e 1976, fazendo parte da “Máquina Tricolor”, e ganhou quatro títulos cariocas. Entre 77 e 78 jogou ao lado de Zico pelo Flamengo.

   Além do livro, o ex-jogador esteve presente também para discutir vários aspectos que envolvem o futebol. Um dos pontos abordados foi a diferença que tem o futebol atual para o praticado em sua época. Para Zé Roberto, uma das principais causas do baixo nível técnico, se deve pelo fim dos campos de terra. Por isso ele pensa em tornar esses locais patrimônio cultural.

  “Todos grandes jogadores brasileiros começaram na terra batida”

  “Nós temos que fazer nossa parte. Eu com 65 anos – vários de futebol – não há um segmento do futebol em que eu não tenha me envolvido. Jogador, treinador, diretor, representante na federação, estudioso… De tudo isso eu queria deixar um legado. E eu descobri que todos os grandes jogadores do futebol brasileiro, os diferenciados, começaram em campos de terra batida. E esses campos estão desaparecendo. Como você vai encontrar novos gênios se não tem mais o lugar onde eles travavam o duelo de destreza, habilidade com a bola viva, o campo irregular? A Holanda fez 100 campinhos de futebol para revelar jogadores, e saiu uma geração de mesmice, porque era gamadinho. Parece ser um sonho maluco – mas você tem que lutar pelos seus sonhos. Se você consegue dentro de cada cidade preservar de seis a sete campos de pelada, e fazer uma escolinha descalço, você vai recuperar um pouquinho daquela diversidade que é nossa. Ninguém faz jogadores como o futebol brasileiro. Agora não se pode colocar tapete e ar condicionado dentro daquele ‘laboratório’”, afirmou.

   Futebol sem essência

   Segundo ele, o futebol brasileiro perdeu sua essência, e isso fez com que se tornasse como os demais. “O problema é o berço. Porque se você não tem o campinho que revela o bom jogador para o infantil, depois vai para o juvenil, juniores e profissional, você vai perdendo a base. Jogadores comuns vão se sucedendo no futebol e você começa a perceber que sumiu o ‘elástico’ do Rivelino, não tem a ‘folha seca’ do Didi, o drible do Garrincha. Era o que nos tornava diferentes. Hoje somos iguais a todos eles. Temos que humildemente retornar às nossas origens e descobrir onde começamos a ser diferentes. E onde éramos diferentes, hoje somos iguais”, ressalta Zé Roberto.

 Homenagem a Mário Sérgio

   “Memórias de um ponta à esquerda” foi dedicado ao ex-companheiro de Fluminense, Mário Sérgio Pontes de Paiva, que em 2016 era comentarista dos canais “Fox Sports” e estava no voo da Chapecoense. “O Mário Sérgio foi um gênio que surge na sua vida. Às vezes você está no mercado trabalho disputando posição, no futebol não é diferente. O Francisco Horta contratou o Mário Sérgio quando pensei que fosse minha vez como ponta-esquerda. E quando se leva para o seu lugar o melhor do Brasil, você sabe que vai sentar no banco. E teve uma relação muito interessante porque tudo o que ele conquistava no campo, destruía fora. Era muito bagunceiro. Cada vez que ele era suspenso, eu tinha a oportunidade de jogar. E ficou uma relação meio conflituosa. Quando nós terminamos de jogar, ele foi para o Internacional e eu estava desempregado, lancei o primeiro livro “A Dor de uma Paixão”. Contei cinco histórias dele sem autorização. E ele ameaçou me processar, quis tirar satisfação no vestiário quando nos encontramos no master. Nunca mais conversei com o Mário Sérgio. E quando ele faleceu recentemente, me deu um negócio estranho na garganta e falei ‘caraca, uma relação tão bonita e terminou sem pedido de desculpa’. O livro foi uma forma de pedir desculpa a ele e exaltar a importância dele no futebol brasileiro como jogador”.

Paixão por escrever

“Eu escrevia cartas na concentração, peguei uma geração pouco letrada. E como eu era um jogador de família de classe média, ia para a concentração do Fluminense e escrevia muitas cartas para os garotos que estavam distantes de suas famílias. E tomei gosto por escrever. Depois me formei em Jornalismo. Nesse meu livro estou dando depoimento sobre passagens que eu acho interessante da vida de um jogador. É a história do futebol escrita por quem esteve lá dentro. Respeito muito aquele jornalista que fica lá em cima que tem aquela visão. Mas nós que estamos ali dentro também temos uma visão que merecia um espaço dentro da imprensa. Esse é o espaço que eu procuro”.

Contusões e torcida no Fla-Flu

“Só não fui um pouco mais além pelas minhas contusões. Sempre no momento em que eu estava na melhor fase da minha carreira, tinha uma contusão séria. Não estava preparado fisicamente para correr o que eu corria. Procurei na forma física um diferencial para me manter no futebol. Corri muito, me dediquei muito. Só que minha estrutura física não era tão desenvolvida em termos de alimentação. E perdi espaço. Mas ter jogado no Fluminense, Flamengo, seleção brasileira – campeão mundial de Cannes sub-20 em 1971 – são coisas que eu guardo com muito carinho e fazem parte da minha vida. Eu parei de torcer em Fla-Flu porque tenho quatro filhos: três são Flamengo e um é Botafogo. O que adianta um senhor dentro de casa feliz com as crianças tristes. Só torço contra o Vasco. Nada pessoal. É porque não tenho nenhum filho vascaíno (risos)”.

 

 

Texto: Toque de Bola, com reportagem de Patrick Alves, estagiário do Toque de Bola, edição e supervisão Ivan Elias, Toque de Bola

Fotos: Toque de Bola

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