Do início de ano conturbado no Estadual à briga pelo acesso no Brasileiro. Confira análise tática do Tupi

  O Tupi está classificado às quartas de final da série C do Campeonato Brasileiro e enfrenta o Fortaleza neste sábado, dia 16, às 16h, no jogo de ida. O clube juiz-forano fez uma boa campanha na primeira fase, terminando na segunda posição do grupo B e o desempenho surpreendeu muita gente. O motivo dessa desconfiança vem desde o início do ano, que foi conturbado.

   Com o rebaixamento na série B em 2016, o Carijó começou 2017 com várias dúvidas em relação ao time, já que o elenco sofreu com a saída de quase todos os jogadores e com o orçamento reduzido, devido às dificuldades financeiras do clube.

   Começo com Éder Bastos

  Para a disputa do Campeonato Mineiro, a diretoria anunciou a contratação do técnico Éder Bastos, que por muito tempo foi auxiliar de Ney Franco, e acumulou passagens por Botafogo, Flamengo, São Paulo, Vitória, Cruzeiro e Coritiba, além da seleção brasileira sub-20, no cargo de assistente. O ex-jogador Fabinho (passagens por Internacional, Flamengo, Fluminense e Santos) também foi anunciado como Diretor Executivo na época e chegou para ser o responsável pela montagem do elenco para o estadual.

  Aílton contra a queda

  Porém a diretoria não ficou satisfeita com o início ruim no Mineiro, e após a goleada por 4 a 0 sofrida em casa para o Cruzeiro na terceira rodada, a cúpula alvinegra demitiu o treinador. Para substituí-lo, o escolhido foi Aílton Ferraz, que chegou com a missão de salvar o time do rebaixamento. Nas mãos do comandante, a equipe teve uma melhora de rendimento e terminou na oitava colocação do torneio, permanecendo no Módulo I.

  Após o fim da competição mineira, o responsável pela gestão de futebol do Tupi, Fabinho, deixou o clube. No dia 10 de abril, a diretoria renovou o contrato de Aílton até o fim da Série C, e o treinador teria ainda um mês para remontar o elenco – que perdeu os atacantes Flávio Caça-Rato e Jajá, dois dos principais jogadores – já que a estreia contra a Tombense era somente no dia 14 de maio. Em meio a isso, Nicanor Pires chegou para ser o homem forte do futebol e auxiliar na montagem do grupo para a disputa da competição nacional. O dirigente acumula passagens por Ipatinga e Nacional de Nova Serrana.

  Análise tática

  Cheio de desconfiança, o Carijó deu início à série C, e era considerado por muitos um forte candidato ao rebaixamento. Na estreia, empate diante da Tombense fora de casa por 1 a 1, mas a história começaria mudar a partir da segunda rodada. No segundo jogo, o Tupi recebeu o Ypiranga-RS no Estádio Mário Helênio e com uma atuação ruim foi derrotado por 2 a 0. Sem vencer na competição e com um adversário duro pela frente na terceira rodada – o Joinville fora de casa – o treinador resolveu mudar o esquema tático.

   Precisando de mais solidez defensiva, para fechar os espaços deixados pela defesa, que acabaram proporcionando as entradas em diagonal dos pontas rivais (fato que ocorreu bastante contra o Ypiranga), Aílton promoveu a entrada do zagueiro Patrick, formando uma linha de três defensores com Fernando e Edmário. Isso deu mais liberdade aos laterais Lucas e Bruno Santos, que se tornaram alas. Atuando quase como pontas e sem tantas obrigações defensivas, Lucas e Bruno cresceram de rendimento e a equipe acompanhou a evolução. Bruno Santos anotou três gols em três partidas seguidas, enquanto Lucas se destacava com boas assistências.

Observe que Lucas e Bruno Santos tinham liberdade para chegar à linha de fundo, ou entrar na área quando a bola estava do lado oposto. Os meias Andrey e Diego Luís centralizavam para abrir espaço aos alas. Patrick e Edmário faziam a cobertura, e quando necessário Marcel recuava entre os zagueiros, seja para auxiliar na saída de bola ou fazer o balanço defensivo. (Tactical Pad)

  Tem que variar

   Essa amplitude gerada facilitou as viradas de jogo, que pegavam o adversário desorganizado e muitas vezes os alas estava sem marcação. E com a ideia de dar consistência ao meio campo, para que o time tivesse uma saída com mais qualidade e trabalhasse a bola com paciência, foram testados três volantes. Entretanto Aílton modificava a formação de acordo com o adversário. O comandante não gosta de usar apenas um modelo, já que as nuances da partida obrigam a ter essas variações. Sem a bola, atuando com três zagueiros, na fase defensiva o time se fechava em um 5-4-1 com linhas próximas, e com a bola se transformava em um 3-4-3. Quando perdia a posse, a equipe de Aílton adotava o “perde-pressiona” no campo de ataque, para tentar roubar a bola.

   “É importante você não ter apenas uma forma de jogar. Costumo falar que quando se está em um time médio, você não pode ter uma filosofia de trabalho só. Tem que ter variações. Não jogo com um esquema tático e isso foi funcionando. Sabemos que deu certo, já criamos outras variações também. Nunca vou utilizar uma situação na qual eu não tenha treinado. Contra o Ypiranga foi um começo, onde fizemos um tempo muito ruim e essa derrota nos serviu de lição. A partir daí começamos a crescer e fizemos as variações que treinávamos”, revelou o treinador Aílton Ferraz.

  Solução ofensiva

   Mas era o ataque o setor que mais preocupava. Coma a saída de Matheus Pato – que havia marcado na estreia contra a Tombense e foi jogar na Eslováquia, nenhum atacante alvinegro havia marcado gols até então. Vários jogadores ocuparam o comando de ataque: Thiago André foi o titular na estreia, mas se machucou; Rafael Teixeira entrou em seu lugar e também se lesionou; Flávio Carvalho foi o substituto, entretanto era um jogador mais lento, não tinha a mobilidade para abrir espaços e seu jogo não encaixou com os outros jogadores de frente. Romarinho foi contratado, mas não é um centroavante de ofício. Chegou a ser utilizado algumas vezes como homem mais adiantado, porém rendeu mais atuando pelos lados, explorando a velocidade, que é seu ponto forte. O atacante que mais se destacou foi Ítalo, que marcou seu primeiro gol na décima rodada contra a Tombense – e o primeiro de um atacante desde a estreia na Série C. As características do jovem de 20 anos foram as que mais se aproximaram da ideia que Aílton tem para o time. Tem bom posicionamento, sabe buscar o jogo para gerar superioridade numérica e, ao mesmo tempo, tem velocidade e mobilidade que fazem o time sair de situações em que o adversário esteja fechado. O que facilita o trabalho de Andrey, Diego Luis e Romarinho.

4-2-3-1 utilizado por Aílton. Com a chegada de Brasília, o treinador retornou à linha defensiva com quatro jogadores. O volante tem liberdade para se aproximar do trio Andrey, Diego Luís e Romarinho, que encostam no centroavante. Isso normalmente gera superioridade numérica no setor da bola. (Tactical Pad)

 

   Fator Brasília

   A “cereja do bolo” foi a chegada do volante Leandro Brasília, que acertou o meio campo do Tupi. Atuando ao lado de Marcel, o apoiador se mostrou uma peça dinâmica, que organiza a iniciação das jogadas e também chega com qualidade para concluir. Por ser um jogador rápido, se movimenta por todo o campo, fazendo um trabalho vital nas transições defensiva e ofensiva. Em sua estreia contra o Volta Redonda, Brasília marcou dois gols e hoje é peça fundamental no time. Isso facilitou o estilo de um jogo apoiado, com aproximação e triangulações que Aílton cobra bastante dos atletas nos treinamentos. O jogador conseguiu exercer melhor a função do que Kalu e Bonilha. Kalu é mais passador e melhora a saída de bola, mas não tinha a dinâmica que o meio campo do Tupi precisava. Já Bonilha é um jogador mais de força, que também tem técnica, mas por ser jovem, talvez, pecava nas decisões. Por isso, com a entrada de Brasília, o time passou a atuar também no 4-2-3-1.

   “O time inteiro cresceu (com a chegada do Brasília). Ele é um volante/meia que tem facilidade de entrar na área, de chegar perto do gol adversário. E como sou mais de ficar marcando, dando a contenção atrás, caso haja contra-ataque, encaixou perfeitamente. Com isso o Brasília facilitou a vida dos nossos meias e atacantes, porque ele se aproxima muito perto deles e consegue fazer as tabelas. E isso está nos ajudando a fazer os gols”, revelou Marcel, que forma a dupla de volantes com Leandro Brasília.

    A partir daí o time embalou, melhorou o desempenho, fazendo jogos consistentes e muitas vezes dominando o adversário. Chegou a ficar seis jogos invicto. No segundo turno o Tupi teve uma queda de rendimento em alguns jogos, o que obrigou o técnico Aílton a “ligar o sinal de alerta” e chamar a atenção do grupo. Mesmo com essa oscilação, o Tupi conseguiu a classificação com duas rodadas de antecedência.

   Agora mais uma vez o Galo Carijó pega um clube nordestino que tem uma multidão a seu favor. Esse filme não é tão novo assim para o torcedor do Tupi. Na final da Série D, em 2011, o time juiz-forano foi até o estádio do Arruda, no Recife, e bateu o Santa Cruz por 2 a 0, calando os mais de 54 mil torcedores do rival, conquistando um torneio nacional pela primeira vez em sua história – no jogo de ida, em Juiz de Fora, o Carijó também havia vencido, por 1 a 0.

 

Texto: Toque de Bola, com reportagem de Patrick Alves. edição e supervisão Ivan Elias

Artes: Toque de Bola, a partir do aplicativo Tactical Pad

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