“Nem na minha pelada”. Leia nossa crônica – atrasada – da Copa

Eu jogava uma pelada por semana até outro dia. Aliás, outra noite (de dia a gente trabalha e o sol castiga ou vice-versa). Nunca vi, ouvi nem ouvi falar numa partida com quatro gols marcados em seis minutos, como aconteceu na semifinal da Copa do Mundo entre Alemanha e Brasil.
Nem na minha pelada e nem nos mais de “trocentos” milhões de jogos ou pedaços de seis minutos de jogos, da arquibancada ou trabalhando atrás do gol ou na cabine, TV aberta, fechada ou pirateada. Nem na beira de estrada com dois times de uniforme e uma grama verdinha ou num Mundial (da Fifa, é para colocar que é da Fifa, hein?). Nem no sub-7 ou no Over-50. Nunca vi.

Jogadores da seleção alemã festejam a conquista da Copa do Mundo. E nós, como ficamos com o futebol brasileiro? (Foto: Getty - reprodução site ESPN Brasil)
Jogadores da seleção alemã festejam a conquista da Copa do Mundo. E nós, como ficamos com o futebol brasileiro? (Foto: Getty – reprodução site ESPN Brasil)

Por que o treinador não colocou o de amarelo mais próximo no banco de reservas só para interromper aquilo? Por que os que estavam em campo não fizeram aquela corrente depois do terceiro gol, sei lá, e começaram a rezar? Ah, já desconfiamos da resposta. É que não havia precedente. Se nunca havia acontecido, qual a receita para combater?
Explicação técnica-tática para a má atuação é moleza. O time estava desfalcado de seus dois principais jogadores, um do ataque, Neymar, e um da defesa, Thiago Silva. E se já não teve meio-campo nas outras partidas, a escalação na semifinal superou a pior previsão. Jogamos sem defesa, sem meio-campo, sem ataque, e sem treinador. Não falei que foi inédito?
O time treinou na véspera quase o tempo todo com William, pelo menos em tese a melhor opção. Na hora do jogo entrou Bernard. Na coletiva, o mal-educado treinador Felipão justificou, dizendo que, como os repórteres estavam no treino, a mexida poderia surpreender o adversário com a entrada do “alegria nas pernas”.

Surreal! O técnico prefere despistar a imprensa e o adversário a escalar a melhor formação, pelo menos em tese, considerando o fio da navalha que foi a campanha nos jogos anteriores? Deu no que deu. Alemanha 7 a 1, e mais uns dias Alemanha campeã, Argentina vice, Holanda em terceiro e Brasil em quarto.
Consequências? Já saíram o treinador, o coordenador, o doutor e o assessor (ou agressor?). Colocaram oficialmente um ex-goleiro (Gilmar Rinaldi) para coordenar, e extra-oficialmente (escrevo no domingo, dia 20) um ex-volante (Dunga, que para mim foi bom de bola, mas é outro técnico mal-educado) para distribuir os coletes.

Os dirigentes? Não ouvi falar em troca dos cartolas. De confederações, federações, clubes. Nada. Nem da Liga aqui, embora este seja nosso amigo.

Aliás, a última boa notícia extra-campo do futebol brasileiro, para mim, ainda é a vitória do Tupi no caso daquele massagista-velocista do Aparecidense na Série D de 2013. Uma vitória da ética esportiva contra a bandalheira.

É disso que precisamos para digerir o desastre. Resgate. De ética, organização, profissionalismo, do marketing que não dependa só dos desmandos da rede de TV que tem os direitos. Ah, e o resgate do futebol, primeiro de tudo. Há muito tempo a seleção brasileira não pertence mais aos brasileiros, seja na forma de jogar ou na forma de trapacear de alguns de seus cartolas fora dele. Hoje, o futebol da seleção não é mais nosso e boa parte de nossas crianças diz que torce por Barcelona, Real, Chelsea, Bayern…

Opa, Bayern não. E se o “futebol é entre as coisas menos importantes a mais importante” (não é frase nossa), vamos rir um pouco do nosso fiasco, sim. Não dizem que a primeira medida para melhorar algo é reconhecer que estamos errados?
Pois a frase que melhor resumiu a semifinal da Copa foi: “Virei a picanha, gol da Alemanha”. Dessa vez, só deu salsicha, chucrute e joelho de porco. Com toda a justiça, aliás.

Que o churrasco de 2018 seja bem mais apetitoso.

 

Ivan Elias

Editor Toque de Bola

Foto: Getty – reprodução site ESPN Brasil

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