Especial: Raphael Toledo, um autêntico representante da centenária saga carijó

Começa mais um desafio para o Tupi no cenário nacional: a Série C, ou a terceira divisão do futebol brasileiro. A meta (ou o sonho?): alcançar, pela primeira vez, a Série B.

Começa mais um desafio para um jogador em especial: Raphael Toledo.

Depois de terminar bem sua participação no Campeonato Mineiro, atuando improvisado na lateral-esquerda e marcando gols importantes e até históricos, como no Mineirão, diante do Cruzeiro, o neto de Moacyr e filho de Júlio Maravilha vai precisar mostrar novamente que tem lugar entre os 11 titulares.

Numa época diferente, em que o futebol de base da cidade não conta mais com Sport, Tupi ou Tupynambás nas categorias de base do Campeonato Mineiro, Raphael e seu companheiro de equipe, Maguinho, hoje são exceções. São as – raras – pratas da casa, batalhando “um monte” para se transformarem em ouro.

O Toque de Bola decidiu contar com mais detalhes a trajetória de Raphael. Será que a “saga dos Toledo” vai se traduzir em belas e novas páginas, agora na Série C?

Júlio Maravilha, pai de Raphael: 13 anos na zaga carijó como profissional, há 26 anos no time master alvinegro
Júlio Maravilha, pai de Raphael: 11 anos na zaga carijó como profissional, há 26 anos no time master alvinegro

  Te cuida, Fábio!

Será que o excelente goleiro Fábio, do Cruzeiro, que muitos consideram injustiçado por não estar na seleção brasileira, tinha noção do perigo quando um jovem lateral-esquerdo improvisado resolveu arriscar um chute da intermediária, em pleno Mineirão, diante do atual campeão brasileiro? O lance ocorreu no dia 8 de março, e terminou com a bola na rede, depois de desviar em uma perna cruzeirense no meio do caminho. Se soubesse o caminho de onde veio aquele jogador e aquele chute forte, talvez Fábio entrasse em campo um pouco mais preocupado.

O lateral improvisado era Raphael Toledo, neto de Moacyr Toledo, um dos maiores jogadores da história centenária do Tupi Futebol Clube que atuou desde menino até os 40 anos em Santa Terezinha, filho de Júlio Maravilha, zagueiro que defendeu o carijó por 13 anos, sobrinho de João Carlos, canhoto como Raphael (que muitos apontam como um dos candidatos a craque que, na época, optou por seguir  a vida fora do futebol), e sobrinho de Paulo Henrique, jogador e depois preparador físico também do Tupi.

Pela primeira vez na carreira, Raphael encontrou, numa posição improvável, a lateral-esquerda, a chance da tão almejada sequência de jogos entre os profissionais no clube em que seus familiares se dedicaram, numa conta abreviada, 50 anos ao clube, considerando a trajetória do avô Moacyr como jogador e treinador, do pai Júlio, como jogador, e dos tios João Carlos e Paulo Henrique.

Vai para a lateral?

Para a partida contra o Villa Nova, o time estava bastante desfalcado e vinha de derrota para a Caldense (3 a 0) que provocou a queda do então treinador Wilson Gottardo. No quebra-cabeças para rearmar e reanimar o grupo diante da torcida, o auxiliar técnico Ludyo Santos conversou com o apoiador Raphael e perguntou a ele se poderia colaborar atuando na lateral.

Ele topou o desafio. O jogo terminou sem gols, ele saiu-se bem e não deixou mais o time, atuando seguidamente nas partidas contra Nacional de Muriaé (vitória por 1 a 0), Tombense (empate em 1 a 1, na estréia do técnico Paulo Campos),  Boa Esporte (vitória por 1 a 0, gol de Helder após falta cobrada por Toledo), Cruzeiro (derrota por 2 a 1, com gol marcado por ele, que exigiu duas defesas para escanteio de Fábio), Juazeiro-BA (vitória por 2 a 0, segundo gol marcado por Raphael, em cobrança de falta).

O Toque de Bola conversou com pessoas importantes na vida e na carreira de Raphael para contar detalhes de sua carreira, que inclui Instituto Granbery, escolinha do Flamengo em Juiz de Fora, futsal do Acadêmicos do Bairu, base do Tupi, base do América Mineiro, passagem na base do Flamengo, Desportivo Brasil (equipe da empresa Traffic), Ituano (SP), Estoril (Portugal), Capivariano (SP) e de novo Tupi.

Olha o menino aí, nos arquivos do educador Alfredo Coimbra
Olha o menino aí, nos arquivos do educador Alfredo Coimbra

   Uma trajetória longa

Júlio Maravilha e outros personagens revelaram ao Toque de Bola detalhes da carreira do filho, desde o início. E a primeira cena do flash back mostra o vovô-coruja Moacyr levando o netinho Raphael para brincar de bola na praça do bairro Grajaú.

No colégio, o garoto passou pelas mãos de Alfredo Coimbra no futebol de campo. Júlio destaca – e muito – a atenção dedicada a ele pelo “Alfredão”, como é conhecido entre os amigos do esporte.

E o professor Coimbra lembra-se de uma história que envolve outro profissional local conhecido, Heglison Toledo, hoje supervisor do vôlei da UFJF que disputa a Superliga Masculina. O Granbery jogou na categoria sub 7 (meninos de no máximo 7 anos de idade) contra a equipe da Associação Atlética Lima Duarte e Raphael “acabou com o jogo”, assinalando quatro gols: 8 a 0. No segundo encontro entre os times, Heglison pediu ao colega Alfredo para escalar alguns meninos um pouco acima do sub 7, “para equilibrar”. Pedido aceito. Quando Raphael pegou a bola ainda em sua intermediária, um dos “gatos” do time de Lima Duarte começou a persegui-lo. Raphael não se intimidou, e mesmo bem menor que o rival, conseguiu carregar a bola de um campo a outro, protegendo o corpo com uma segurança atípica para um menino com menos de 7 anos. “É diferente”, constatou Alfredo naquele momento que ficou em sua memória.

No futsal: camisa 10 e campeão
No futsal: camisa 10 e campeão

Camisa 10

Na base, Raphael era o camisa 10. Atuou na escolinha do Flamengo, que tinha como responsável o tio Paulo Henrique Toledo, o Lica, apontado por Júlio Maravilha como um dos principais responsáveis pela condução da carreira do garoto. Paulo Henrique conta que houve um período em que Raphael esteve na base do Fla, mas, com o passe preso ao Tupi, se viu impossibilitado de excursionar com a delegação carioca e voltou a Juiz de Fora.

Com 13 anos, estava nas divisões de base do Tupi, onde ficou três anos. Com 16 anos, Leonardo Condé (hoje novamente treinador carijó), então na base do América Mineiro, levou a promessa para um teste: aprovado na base do Coelho. Lá, conquista o Estadual Juvenil e uma Taça Brasil disputada em Rio Pomba.

E quais eram as características? “Já cobrava faltas na base. Canhoto. Sempre acreditei no potencial dele por duas características principais: ele sempre teve bom passe e também bate muito bem na bola”, define Júlio Maravilha.

Ainda com passe preso ao América, Raphael, já aos 18 anos, disputa uma partida amistosa no estádio Salles Oliveira e desperta a atenção do ex-craque Alemão, que estava trabalhando como técnico do Tupi e empresário de jogadores. Alemão convida Raphael a voltar a Juiz de Fora, para defender o júnior carijó. O Coelho não libera, mas tem vencimentos a cumprir com o atleta. Resultado: nem lá, nem cá, e Raphael fica três meses sem atuar antes de voltar, após acordo, para o alvinegro de Juiz de Fora.

Nos tempos em que atuava em Portugal
Nos tempos em que atuava em Portugal

O primeiro convite para que jogasse na equipe “de cima” veio aos 19 anos, quando Wellington Fajardo dirigia o Tupi. Pouco depois, veio o convite para Raphael defender   a Traffic, empresa que tinha uma equipe de futebol, Desportivo Brasil, e investia em transação de jogadores. Raphael passa a ser jogador da Traffic. Defende inicialmente o Ituano (SP) e depois é negociado pela empresa para atuar em Portugal, no Estoril, então na segunda divisão. Passa um ano no futebol português e volta ao Brasil.

Num amistoso do Desportivo Brasil contra os profissionais do São Paulo, faz um gol de falta mas ainda no primeiro tempo sofre lesão no joelho que o tira de circulação por seis meses. “Deram toda a assistência para ele, não há o reclamar da Traffic”, revela o pai de Raphael. Quando está recuperado da contusão, a Traffic decide não trabalhar mais com futebol profissional. Com mais um ano e meio de contrato a cumprir, Júlio negocia com a Traffic a rescisão. Raphael tem nova experiência no Capivariano (SP), onde atua como segundo volante e tem experiência rápida na lateral-esquerda.

De volta ao Tupi: entra-e-sai no titular

De volta em definitivo ao Tupi, Raphael começou o Estadual de 2013 na equipe titular, como meia. O Toque de Bola, transmitindo a partida ao vivo, flagrou Moacyr às lágrimas quando a equipe entrava em campo, orgulhoso do neto. Acertou uma bola na trave em cabeceio na estreia diante do América. Na sequência, acabou perdendo a posição. Tem mais algumas oportunidades, mas não a reclamada sequência de jogos.

Na vitoriosa campanha da Série D de 2013, que conduziu o Tupi de volta à Série C deste ano, o meia disputou as três últimas partidas pelo time. Vem a temporada 2014. Novo treinador. Raphael fora dos planos, pelo menos do time principal. Desde a pré-temporada, o clube tem dificuldades para definir seus laterais. Henrique, meia, às vezes atua na lateral direita. Na esquerda, Magnum era o cotado para assumir o posto. Depois da queda de Gottardo, o auxiliar-técnico Ludyo Santos, convidado para ser treinador por pelo menos duas partidas, chama Raphael e pede a sua colaboração para atuar na lateral-esquerda. “Ele disse para mim: vou começar tudo de novo”, conta Júlio Maravilha.

Ele estava desanimado, Júlio? “Não, ele nunca desanimou. No começo da carreira, talvez ele tivesse a preferência de atuar como meia avançado, mas depois ele já atuou como segundo volante e outras funções. Sempre procuramos orientá-lo para que mesmo fora do time ele mantivesse a motivação e o bom condicionamento físico para o momento em que fosse ser aproveitado”. Consciente, Maravilha afirma que só o fato de ser neto e filho de jogadores importantes na história do clube não seria suficiente para vencer na profissão. “Ele sempre demonstrou qualidade na forma como passa e como bate na bola. Ocorre que por motivos diferentes ele só agora está tendo a oportunidade de se firmar e mostrar sua importância para o clube. Ou mudava o treinador, ou chegavam jogadores de fora para a posição em que ele atuava, nada contra os de fora, pelo contrário, mas em determinados momentos ele poderia ter permanecido na equipe”.

   No elenco, o apoio da “velha guarda” 

O jeito reservado e de poucas palavras de Raphael não é empecilho, na avaliação do pai. “Ele é um menino tímido mesmo, mas conta com uma força muito legal dos jogadores mais experientes, que conversam muito com ele e o orientam. No grupo atual, por exemplo, jogadores como Henrique, Fabrício Soares e Ademilson estão sempre passando instruções para ele, o Ademilson gosta muito dele. É bom o Tupi contar com esses jogadores experientes, que façam também esse papel fora de campo com os mais jovens”.

Hoje com 24 anos, Raphael Toledo é dono do passe, ou direitos federativos, como passou a se chamar. Se em seis jogos como titular, Raphael já marcou dois gols e participou de outros, a esperança em ver o sangue carijó se multiplicar em campo aumenta. “Vejo com muita alegria essas boas atuações”, comemora o pai.

O avô Moacyr levava Raphael para brincar de bola no campo da praça. Coruja?
O avô Moacyr levava Raphael para brincar de bola no campo da praça. Coruja?

Parênteses

Um detalhe: Júlio Maravilha diz que há 26 anos defende a equipe master do Tupi que está em ação praticamente todo final de semana. Opa, considerando essa revelação, teremos que recalcular aquela conta do início do texto. Se Moacyr jogou e treinou o Tupi por uns 40 anos, Júlio jogou por mais de 10 no profissional e joga – até hoje – há 26 no master, se Paulo Henrique foi preparador, no total, por oito anos, é bom o goleiro Fábio e seus outros companheiros de camisa 1 ficarem mesmo preocupados.

Quando Raphael começa a ajeitar a bola para cobrar a falta ou chuta de fora da área com bola rolando, o tira-teima do Toque de Bola informa: esse chute, além de forte e com efeito, vem com um peso de mais de 85 anos. E  os torcedores carijós mais antigos vão poder, quem sabe, matar as saudades de antigos batedores de falta, donos de petardos memoráveis, como Pescoço, Zé do Correio, Jair Canhão e Zé Eduardo Bodega, entre outros.    

Raphael Toledo: um raro modelo de prata da casa no atual elenco carijó. E - muita ! - história na centenária família carijó
Raphael Toledo: um raro modelo de prata da casa no atual elenco carijó. E – muita ! – história na centenária família alvinegra

Perspectiva

Depois de terminar o Mineiro como titular na lateral-esquerda, Raphael passou a ter a concorrência de Bruno Barros, lateral de origem contratado recentemente. Contra o Fluminense, pela Copa do Brasil, na reestreia de Condé diante da torcida, o prata da casa foi escalado no meio-campo e não voltou do vestiário, sendo substituído, no intervalo, por Genalvo.

Para a estreia na Série C, neste domingo, às 16h, diante do Macaé, com transmissão ao vivo pela rádio web do Toque de Bola, o descendente dos Toledo não tem escalação assegurada. Nem posição definida. Pode até voltar para a lateral. Ou ao banco de reservas. É aguardar o (re)início da jornada e torcer para que Raphael siga escrevendo a centenária saga carijó que passou por Moacyr, Júlio, João Calos, Paulo Henrique…

“Estou à disposição, para o meio, para a lateral, onde for preciso estou pronto para ajudar”, resume Raphael.

Na cobrança de Raphael Toledo, a bola entra no ângulo: primeiro gol do Tupi na Série C de 2014
Na cobrança de Raphael Toledo, a bola entra no ângulo: primeiro gol do Tupi na Série C de 2014

Na seleção da rodada

Esta matéria foi publicada em sua primeira versão no sábado. Domingo, 27, o neto de Moacyr marcou um belíssimo gol de falta no empate em 1 a 1 entre Tupi e Macaé. As emissoras da cidade fluminense elegeram o meia o melhor em campo. No dia seguinte, o site Futebol Interior colocou Raphael Toledo na seleção da primeira rodada da Série C do Campeonato Brasileiro 2014.

 

Texto: Ivan Elias

Fotos: Toque de Bola, Arquivos Pessoais, Divulgação, reproduções e assessoria Macaé

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