Toque de Bola

No futebol, o jogo da arquibancada do estádio passa – muito! – longe do jogo da poltrona da TV.

Óbvio ululante? Querem exemplos?

No campo, quando seu time sai do vestiário para o palco sagrado ele sempre foi o melhor do mundo, que vai confirmar a boa fase ou se recuperar de um revés momentâneo.

Na TV, analisamos a escalação, que sempre demora, para xingar quem falhou na partida anterior, e saber quem nos ameaça desta vez com a camisa titular fazendo dedão de positivo. “Tá rindo de quê, cara pálida?”, perguntamos, da poltrona.

No campo, quando a partida começa temos a certeza da vitória. Só não sabemos de quanto será nem quem irá fazer os gols. Mas o triunfo é questão de 95, 96 minutos.

Na TV, o locutor repete que seu time há “x” jogos não vence, há “y” jogos não faz dois gols e há “n” jogos não atua bem.

No campo, se o seu time sofre o primeiro gol, basta o adversário buscar a bola na rede e você grita: Vamos virar! Uns até saltitam em direção à torcida contrária, gritam impropérios, mostram dedos da mão, você sabe.

Na TV, um gol sofrido é prenúncio de tragédia. O locutor já informa que com esse resultado o seu time provavelmente vai dormir na zona.

(Além de projetista, o do microfone tende a ser indelicado, indecoroso).

As tentativas do empate, no campo, são vistas como a convicção reforçada da virada inexorável.

na TV, o locutor a essa altura já repetiu pelo menos três vezes que seu aproveitamento ofensivo vai de mal a pior, que o time vai dormir na zona porque dificilmente conseguiu transformar derrota em vitória ao longo da competição. E que só restarão três rodadas.

Quando seu time empata, no campo, é golaço. Não importa se foi de pé, de mão, cabeça, nuca, orelha, cotovelo, buço, bigode ou beiço. Nem quem fez. Importa é que empatou, e que a justiça, enfim, se faz presente.

O empate, na TV, é visto com desdém. Vão dizer que foi falha da defesa ou do goleiro adversário. Vão pedir para repetir por 18 câmeras para “procurar” um impedimento no primeiro ou no segundo lance. E que mesmo igualando tudo na etapa inicial, provavel e estatisticamente no segundo tempo as coisas vão piorar. Afinal, quem irá contestar números?

Parênteses do intervalo: aqui você é obrigado a lembrar da TV quando vai comprar meia grama de uma batata qualquer e alguém (alguma) de colete responde que custa R$ 7. Carestia! Um real a mais que um “cachorro quente frio” (sim, ele existe!), sem gosto e sem tempero. Menos mal que o xixi do estádio está bem mais civilizado do que nos tempos da pré-reforma. Até conseguimos lavar as mãos depois! E a água nem está amarelada.Primeiro mundo…

Vai começar o segundo tempo.

Olho no campo. O desenrolar dos lances é só um pano de fundo para adivinhar quem será o autor do gol da virada e da vitória que derrubará os idiotas da objetividade. As substituições só tornam o desafio mais difícil e a brincadeira ainda melhor.

Olho na telinha. A cada substituição ou cartão, os números se multiplicam. Vão dizer quem está fora do próximo jogo, que a troca de um atleta por outro não resultará em nada, vão repetir que o seu time sofreu um gol quando estava 0 a 0 e, mesmo com o empate, não tem mais jeito. Vamos todos dormir na zona. Ah, e vão querer nos convencer que nosso time, tão perfeito, errou de 40 a 50 passes e que isso é inaceitável no futebol profissional.

O jogo está terminando. No campo, aguardamos somente o gol da vitória. É líquido e certo.

Os instantes finais na TV são melancólicos. Locutor, comentarista e repórteres já nos “abasteceram” com novas estatísticas, como se a batalha estivesse encerrada. Vamos dormir na zona, sim, e no ano que vem cairemos no limbo dos jogos às terças, sextas e sábados, aqui às 16h20, horário da pelada (a nossa) ou do churrasco. E ainda teremos que trocar a letra do pacote peipervíu (tradução simultânea).

Olho no campo: gol! O nosso time venceu! O herói é um zagueiro. Guerreiro de sangue, suor e lágrimas que dá a vida pelo nosso clube. Como tantos zagueiros nossos de outros tempos e outras táticas, como o 2-3-5, 4-4-2, 4-3-3, 4-2-2-2-, WM, MW, leques, sanfonas e adjacências.

Olho na telinha: gol. Sem exclamação. Quem marcou? Um dos piores em campo, que merecia ter sido expulso dez minutos atrás por omissão de recursos técnicos e excesso de recursos violentos. Um limitado, que, segundo as estatísticas não oficiais, comete duas faltas a cada tentativa de roubar a bola do adversário.

Sim, este cronista estava na arquibancada do Maracanã domingo.

Para apresentar as versões de Fluminense 2×1 São Paulo.

Versão do campo: virada épica. Um jogaço, em que o nosso time venceu com dois golaços, dois cabeçaços, e assim – acredita-se – começa a mandar para longe o fantasma de ir para o espaço!

Versão da TV: não sei o que se disse antes, durante ou depois do jogo. Mas meus companheiros de batalha, conhecidos e anônimos, rampa abaixo, têm a fisionomia do dever cumprido, e são unânimes: “Sim, o campeão voltou!”

 

Toque de Bola

Ivan Elias, associado do Panathlon Club de Juiz de Fora, é jornalista, formado em Comunicação Social pela UFJF. Trabalhou por mais de 11 anos no Sistema Solar de Comunicação (Rádio Solar e jornal Tribuna de Minas), em Juiz de Fora. Já foi freelancer da Folha de S. Paulo, atuou como produtor de matérias de TV e em 2007 e 2008 “defendeu” o Tupi, na Bancada Democrática do Alterosa Esporte, da TV Alterosa (SBT-Minas). É filiado à Associação Mineira de Cronistas Esportivos (AMCE) e Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace).

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