Veja a repercussão em JF da confissão de Armstrong

O ciclista Lance Armstrong confessou, em entrevista à Oprah Winfrey, que usou substâncias proibidas nas sete vezes que venceu a Volta da França, uma das principais do ciclismo internacional. Entre as substâncias estão a eritropoetina (EPO) e esteróides. Em outubro de 2012, ele foi banido da modalidade pela União Ciclística Internacional (UCI) após a entidade analisar  relatório da Agência Americana Antidoping (Usada). Com isso, os sete títulos obtidos nas estradas francesas foram retirados. Após a notícia da confissão, o Comitê Olímpico Internacional manifestou-se intimando o atleta a devolver a medalha conquistada nos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000.

“Tudo o que se disse de mim no relatório apresentado pela Usada é correto, menos que me dopei em 2009 e 2010 “, revelou Armstrong durante a entrevista. Até a última semana, ele não aceitava as acusações que vinha recebendo. Durante a conversa, pediu desculpas à comunidade ciclística internacional. Antes do encontro com Oprah, o ex-ciclista reuniu os funcionários da Livestrong, fundação criada por ele para o combate ao câncer, e também se desculpou.

Roberta Stopa não poupa críticas à UCI no caso ‘Lance Armstrong’

Repercussão pelo mundo

A notícia da confissão repercutiu pelo mundo. Em Juiz de Fora não foi diferente. Atual campeã brasileira de mountain bike no Cross Country e em Maratona, a ciclista Roberta Stopa afirma que a confissão de Armstrong não foi nenhuma surpresa para ela. “Sabemos que o ciclismo, há anos, é movido por essas substâncias”. Entretanto, as críticas da atleta não foram voltadas a Lance Armstrong. “Esses órgãos maiores, como a UCI, são os grandes responsáveis pelo esporte ficar nesta situação. Eles sabem de tudo que acontece”, afirma.

Ainda segundo Roberta, o doping não é uma exclusividade de competições na Europa e Estados Unidos. Ela revela que não são raras as vezes que, competindo no Brasil, vê atletas com desempenhos que levantam suspeitas.

“Já tive várias percepções de atletas com rendimento acima do que deveria ter se comparado com competição anterior. Nós, que somos atletas, sentimos isso. Somos o segundo país das Américas em número de provas da UCI. Essas competições têm que ter controle antidoping. Os organizadores sempre falam que vai ter, mas nunca somos abordados depois das corridas. Com isso, acabam permitindo que atletas busquem essa forma mais rápida de resultado”.

O triatleta Hugo Amaral não esconde que não estava esperando a notícia, mesmo com o ciclismo apresentando um histórico de casos de doping. “Foi uma surpresa por ele ser um ídolo mundial e considerado até então o maior ciclista de todos os tempos. De ídolo, virou vilão. Espero que cresça a ideia contra o doping para a gente ter um esporte mais limpo. Esperamos que isso mude e que os próprios atletas tenham mais espírito esportivo. Não somente vencer a qualquer custo, mas com honra na vitória”, afirma.

Para o triatleta Hugo Amaral, de herói, Armstrong se transformou em vilão

Aumento de velocidade sem explicação

O doutor em Ciência do Esporte e professor da Faculdade de Educação Física da UFJF, Jeferson Vianna, acredita que o doping de Armstrong possa abrir espaço até para uma possível eliminação do ciclismo dos Jogos Olímpicos, opinião que Roberta Stopa também compartilha. Ele acredita que o episódio deva servir para a UCI adotar o controle de dopagem como prioridade nas associações, federações e confederações. Sobre a confissão, Vianna revela que estudos realizados mostram que, em uma década, houve aumento médio de velocidade que não tem explicação tecnológica ou fisiológica.

“Há algum tempo as provas de ciclismo pertencentes ao grupo dos ‘tours’ europeus vêm sendo questionadas em relação aos resultados obtidos pelos atletas. Estudo realizado por um grupo de pesquisadores franceses revela  que a velocidade dos ciclistas nas principais provas disparou desde a década passada, sem qualquer explicação fisiológica ou tecnológica, coincidindo com o aumento e disseminação do EPO entre ciclistas do pelotão de elite  e em outros esportes de resistência. A questão era em que momento a verdade viria a tona. Seus resultados sempre foram questionados”, explica Vianna.

A suspeita de Roberta Stopa em relação ao doping em provas nacionais coincide com a resposta de Vianna quando questionado se o cenário de doping também é observado no Brasil.

Segundo Vianna, estudos mostram crescimento na média de velocidade que não tem explicação tecnológica ou fisiológica

“Em 2012 tivemos o episódio da demissão pela Confederação Brasileira de Ciclismo do técnico da equipe brasileira, Antônio Silvestre, que admitiu publicamente que a prática do uso de substâncias dopantes é comum entre os atletas brasileiros. A CBC deveria apurar com maior rigor essa afirmativa e ir atrás das pessoas envolvidas, em vez de tomar atitudes de ‘moral duvidosa’. É notório percebermos performance acima da média de atletas brasileiros, não exclusivamente no ciclismo, em provas sem controle de dopagem, e, quando se trata de uma Olimpíada ou uma competição com maior rigor, estes atletas não atingem os mesmos resultados. Não posso afirmar e muito menos acusar alguém sem provas , mas, que é algo que nós chama atenção, não tenho a menor dúvida”, afirma.

Vianna aposta no passaporte biológico – espécie de banco de dados com informações sobre o organismo de atletas – como instrumento para um controle de dopagem mais rígido. Além disso, ele acredita que as entidades responsáveis pela modalidade devam adotar medidas para evitar esse tipo de situação.

“É humanamente impossível mantermos por mais de duas horas em uma prova utilizando prioritariamente o glicogênio como combustível principal, muito menos em intensidades próximas do limiar anaeróbio. Já há algum tempo se discute as mudanças nos percursos, com redução das etapas europeias. Por outro lado, aos patrocinadores e o público em geral essa ideia não agrada. Tem que haver uma discussão em que todos os principais segmentos da comunidade esportiva envolvida se manifestem em prol desta modalidade que não temos ainda uma tradição no Brasil, mas, nos EUA e na Europa, arrastam multidões às ruas e milhares de expectadores para a frente das TVs”, finaliza.

Texto: Thiago Stephan

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