Soca a bota, Roberta: o Rio de Janeiro é logo ali

A biker Roberta Stopa conquistou, no último domingo, 30, o título da 3ª Etapa da Taça Brasil de Mountain Bike. A prova foi disputada em Campo Largo (PR), cidade próxima à Curitiba. Com o resultado, ela terminou o ranking da Taça Brasil na segunda colocação, apenas um ponto atrás da campeã. A participação encerra, em alto nível, os compromissos da juiz-forana em 2012, uma temporada marcada pela descoberta de um problema de saúde e a assimilação do diagnóstico, títulos nacionais e dissabores. Aos 32 anos e após tantas emoções em um mesmo ano, ela se mostra fortalecida ao revelar dois grandes objetivos: participar dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, e lutar por um novo modelo para a Confederação Brasileira de Ciclismo.

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Aguenta, coração

A cada início de ano, a atleta passa por uma bateria de exames. Em 2012, eles não apontaram nada de errado. Mas, pouco a pouco, Roberta observou um déficit de rendimento, o que a levou a abandonar duas provas, a segunda em “estado meio crítico”. “Terminei a prova toda arrepiada, sentindo calafrios, com os lábios roxos. E isso me chamou muito a atenção. Quando voltei a Juiz de Fora, resolvi fazer outro check-up. O meu cardiologista diagnosticou uma extra-sístole, um quadro que vou ter que levar para o resto da vida. O que me deixou tranquila é que ela se manifesta apenas em repouso”, revela Roberta.

 

Em 2012, Roberta enfrentou ‘tempestades’ em sua vida profissional, mas não fugiu da luta

A orientação do médico foi para a biker cortar todas as substâncias estimulantes, presentes no café, chá verde e ergogênicos, por exemplo. A nova dieta levou à redução do problema. Mas, mesmo com todo acompanhamento médico, a notícia foi um baque para a atleta. Ela temia que seu rendimento não voltasse a ser o mesmo ou ainda que tivesse que abandonar a carreira, dúvidas sanadas quando descobriu que ainda era uma atleta de ponta ao conquistar o Campeonato Brasileiro Cross Country – em circuito – e o Campeonato Brasileiro de Maratona – 83 km de percurso.

“Percebendo como eu estava, o doutor Júlio me disse para eu dar graças a Deus que o problema se manifestava em repouso. Ele me pediu para fazer bastante força nos treinamentos. Soca a bota [risos]! Saía para treinar com isso na cabeça. A frequência cardíaca chegava a 180 e eu não sentia nada. Cheguei com um psicológico bem tranquilo em julho, no Brasileiro de Cross Country, em Salvador, e foi aonde eu conquistei o título”, expôs a atleta, destacando que segue realizando exames periódicos para monitorar o problema. Posteriormente, no final de agosto, ela conquistaria o título de Maratona, em Curitiba, sagrando-se bicampeã, uma vez que já havia vencido em 2007. “Liderei a prova de ponta a ponta debaixo de forte calor”.

De olho em 2016

A temporada chegou ao fim e Roberta quer férias. Depois, começa tudo de novo

Os dois títulos nacionais vieram dar ainda mais força para que a biker realize um grande sonho: disputar os Jogos Olímpicos. Após ficar de fora de Londres, Roberta volta as suas atenções para Rio 2016. Ela acredita que tem mais chances, já que o país sede tem representantes garantidos em todas as modalidades. Atualmente, seriam três as principais concorrentes da juiz-forana.

“Estou indo para São Paulo em outubro. Vou fazer uma bateria de exames com o meu treinador [Cadu Polazzo]. Nosso foco vai ser provas internacionais e provas no Brasil que contam pontos para ranking da UCI [União Ciclista Internacional]. Vou estar com 36 anos, no auge de performance. Vamos trabalhar durante esses quatro anos para que isso ocorra. Em Londres, a segunda melhor colocada tinha 41 anos. Idade é apenas número. Depende mais da sua performance no momento”, destaca.

Segundo a atleta, seis provas nacionais contam para o ranking da UCI. Juntas, somam cerca de dois mil pontos, pouco em relação a provas internacionais. Roberta acredita que a participação fora do Brasil é fundamental, mas deve ser decidida estrategicamente.

“Não adianta montar uma seleção para querer participar de cinco etapas da Copa do Mundo, sendo que em cada etapa largam 200 atletas. Acho que a melhor estratégia é achar algumas provas nas Américas que tenham pontuação alta, mas sem muitos atletas de alto nível”, expõe, chamando a atenção do empresariado e autoridades locais para investirem no esporte da cidade. Para o próximo prefeito (a), ela tem um pedido: “Voltar com a nossa pistinha de BMX no Parque da Lajinha”.

Confederação Brasileira de Ciclismo

No primeiro semestre de 2012, Roberta Stopa foi de encontro à Confederação Brasileira de Ciclismo. Não aceitou a decisão da entidade de priorizar o naipe masculino na tentativa de conseguir representação em Londres. Roberta ainda tinha chances matemáticas de obter a vaga, mas não houve convocação da equipe feminina. Segundo ela, a CBC argumentou que não teria recursos para investir nos homens e nas mulheres. Assim, acabou excluída no que diz respeito à ajuda financeira por parte da confederação.

Brigou, bateu de frente, chamou a imprensa, denunciou a situação que ela e outras bikers estavam vivendo. Situação semelhante ocorreu no Pan-Americano do México, quando a entidade também só convocou os homens. Roberta não desistiu e viajou por conta própria, assim como outros atletas brasileiros. Eles tiveram resultados melhores que os três ciclistas convocados pela CBC que faziam o ciclo olímpico. A juiz-forana voltou com a medalha de bronze.

‘Tenho 18 anos de carreira e não posso ficar batendo lata’

Após um ano de desgaste com a confederação e sabendo que haverá eleições em janeiro de 2013, Roberta decidiu de vez entrar na briga. “Tenho 18 anos de carreiras e não dá mais para ficar batendo lata. Resolvi enviar para a confederação uma sugestão de critérios e seletivas para o próximo ciclo olímpico. Após essa sugestão, o presidente da entidade, que nunca falava comigo, resolveu entrar em contato. Ele pediu que eu fizesse um projeto para o feminino para ver o que poderia ser feito de melhor”, diz, antecipando qual o critério para seleção sugeriu.

“Montei um critério que acho muito justo e transparente. Por exemplo, temos um Pan-Americano em abril. A gente escolhe três provas no Brasil em que todas possam participar. As três melhores nestas provas teriam as despesas pagas pela CBC. O mesmo com outras provas internacionais. Acho justo porque vamos pegar a melhor atleta no momento daquela prova internacional, além de dar chance para todas”, destaca.

Ao final da entrevista concedida ao Portal Toque de Bola na Praça Cívica da UFJF, Roberta pegou sua bike e saiu… É cedo para dizer onde suas pedaladas poderão chegar, o certo é que a juiz-forana não está disposta a abrir mão de lutar pelo que acha justo e pelo seus sonhos.

Roberta Stopa é patrocinada pelas seguintes empresas:

Patrocinadores: Damatta / MOB / Ashima / X-Fusion
Co-patrocínio: Specialized / BR Esportes / SRAM
Apoio: Thule / GU / X-Pedo / Francisco Magaldi / PSY Fitness / Cabaret Voltaire / Las Casas / IBSM / Studio Way3 / Spiuk / Fisi´k / Continental / Pedal.com.br / Genuine Innovations

Texto: Thiago Stephan

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