Fernando Vanzella destaca que a Natação brasileira está em evolução

Ele esteve presente em duas Olimpíadas como técnico da Seleção Olímpica de Natação do Brasil, Pequim e Londres, mas também teve um atleta convocado para os Jogos de Athenas, em 2004. Acostumado a treinar alguns dos melhores nadadores do Brasil, caso de Thiago Pereira, Lucas Salatta e Henrique Rodrigues, o técnico Fernando Vanzella participou, no último final de semana, do 2º Encontro Mineiro de Técnicos de Natação, realizado no Colégio dos Jesuítas. O encontro teve 34 técnicos de sete cidades inscritos. Todos com ouvidos e olhos atentos para assimilar as técnicas de um dos profissionais mais gabaritados da Natação brasileira.

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No final da manhã de sábado, após palestra sobre “Metodologias Científicas para a Natação de Alto Rendimento”, com abordagem prática dos quatro nados, Vanzella conversou com a equipe do Portal Toque de Bola. Na oportunidade, classificou como fundamental para o crescimento da Natação o esforço dos organizadores do encontro em trazer profissionais tarimbados para a troca de experiência com os professores locais.

“As pessoas que estão organizando o encontro e se motivando a trazer profissionais para fazer palestras ajudam no crescimento do esporte na região. É muito legal saber que existem pessoas no interior de Minas interessadas em desenvolver a Natação, principalmente agora que estamos iniciando um ciclo olímpico importante, já que em menos de quatro anos vamos ter a Olimpíada do Rio de Janeiro”, destacou.

No contato com os professores da região, Fernando Vanzella comentou também a experiência em Jogos Olímpicos. Para ele, apesar de o Brasil ter conquistado o mesmo número de medalhas em Londres e Pequim, duas em cada edição, houve crescimento da modalidade neste período.

“Foi a primeira vez que o Brasil teve várias oportunidades de subir ao pódio. Até então, tínhamos sempre um ou dois nadadores credenciados para buscar uma final e tentar medalha. Nesta Olimpíada, apesar de termos mantido o mesmo número de medalhas que em Pequim, tivemos mais oportunidades de pódio (…) Isso mostra a evolução. Infelizmente, não conquistamos mais medalhas, mas tivemos mais oportunidades. É um crescimento que leva tempo e acredito que no Rio de Janeiro vamos estar brigando por mais por medalhas e ganhando também”, analisou.

Tecnologia a serviço do esporte

Durante as aulas práticas, o treinador usou um equipamento de chamava atenção de quem esteve presente à piscina de borda infinita do Jesuítas: uma câmera de grava debaixo d’água. A Go Pro HD Hero2 pode até ser discreta em um primeiro momento, tal o seu tamanho. Utilizada principalmente para fazer imagens de esportes radicais, virou uma ferramenta importante também para a Natação. Um “case” transparente permite que ela faça imagens debaixo d´’agua, proporcionando a correção de movimentos feitos dentro da piscina.

O treinador usa a câmera Go Pro para corrigir movimentos realizados debaixo d´água

“Esse equipamento atualmente é muito utilizado na Natação. É uma filmadora que pode ser colocada dentro da piscina. Traz imagens com qualidade que possibilita uma análise biomecânica do nado. Podemos ver várias vezes, em câmera lenta, quadro a quadro. Com esses detalhes e modelos de nadadores mais eficientes e experientes, podemos transferir para os nadadores mais jovens, fazendo uma correção técnica para eles evoluírem nos estilos. É uma ferramenta importante para qualquer centro de treinamento. Hoje em dia, existem várias marcas disponíveis. Facilitou muito. Até o próprio atleta pode ter um equipamento desse e fazer ele mesmo uma auto-correção”, revelou.

Academia Brasileira de Treinadores

Um dos pontos abordados na entrevista com Fernando Vanzella foi a criação pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) da Academia Brasileira de Treinadores (ABT), com objetivo de melhorar o nível técnico daqueles responsáveis por preparar os atletas brasileiros. A Natação será um dos primeiros alvos da ABT. Para o treinador, o esforço do COB é positivo.

“A notícia é boa para o esporte brasileiro. Sempre fui a favor de que, para se ter bons atletas, é preciso ter bons profissionais, que são aqueles que estudam, se atualizam, que pesquisam. Acho que o COB, por meio da ABT, está dando um passo muito importante para melhorar a qualidade dos treinadores. Consequentemente, vamos ter melhores resultados daqui para frente. Acredito que a comunidade [da Natação] gostou muito. Ainda estamos descobrindo como vai ser isso, quem serão os técnicos que vão palestrar, os profissionais que estão envolvidos, o que ainda não foi divulgado. Com certeza, o COB vai por pessoas preparadas. Vejo esse esforço com muito bons olhos. É uma aproximação maior da teoria com a prática. Já temos alguns profissionais acadêmicos que trabalham com a Seleção, caso do Paulo César Marinho, que é o Biomecânico da Seleção. Ele fez o mestrado com atletas da Natação. Desenvolve pesquisas e publica artigos dos trabalhos com os nadadores. Já temos essa veia acadêmica”, analisou.

O papel da imprensa

O treinador acredita que os profissionais da imprensa precisam estudar mais a modalidade

É senso comum que, para que o desenvolvimento do esporte olímpico brasileiro aconteça, é preciso um esforço de vários setores da sociedade. Ao ser questionado como a imprensa pode ajudar neste sentido, Vanzella afirmou que ela tem um papel muito importante por mostrar para a comunidade o que está sendo realizado. Ele acredita que os profissionais da imprensa também precisam entrar nesse movimento de capacitação e atualização, a exemplo do que o COB está propondo para os treinadores.

“Um dos pontos que a imprensa pode ajudar é procurar, de forma positiva, mostrar como é a estatística do esporte, onde o Brasil melhorou e onde pode melhorar. Divulgar isso de forma mais clara. Não adianta divulgar que o Brasil ficou em décimo-nono no quadro de medalhas da Natação. É preciso ir um pouco mais a fundo. Mostrar quantas medalhas de ouro, prata e bronze já é uma coisa a mais. Quantas finais e semifinais fizemos, como foi em relação a Pequim, o que melhorou e o que piorou. Falta estudar um pouco mais a modalidade estatisticamente e divulgar desta forma. Às vezes, a mídia divulga de forma muito ampla, não retratando o que realmente acontece dentro da modalidade. Como vamos ter quatro anos até as Olimpíadas do Rio de Janeiro, se a mídia ajudasse nesta estatística e conhecesse mais o esporte… Ajudar mais na forma de divulgar. Às vezes, um quarto lugar é visto como uma derrota. A medalha de bronze do Cielo é vista como derrota… Nós temos 13 medalhas no quadro da Natação em toda a história da Olimpíada , sendo que três são dele. A medalha de bronze também é uma conquista, mesmo assim é divulgado que ele decepcionou. O Cielo também queria a medalha de ouro, mas ganhou a de bronze. A mídia poderia pensar em como colocar essas notícias para ajudar o esporte. Ter uma ótica um pouco mais positiva, procurar incentivar os nossos atletas e, lógico, quando tiver que criticar, também criticar. Não estou falando que não tenha que fazer esse outro lado. Mas que seja uma crítica sempre pensando no crescimento”.

Texto: Thiago Stephan

Confira, em breve, a entrevista com Fernando Vanzella na Rádio Toque de Bola

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