Especial: o Fla-Flu do Dr. João Márcio, há quase 50 anos

 

Foto com Equipe do Fluminense: De pé: Jair Marinho, Laurício, Dari, Denílson, Castilho e Nonô; Agachados: Ubiraci, Gilson "Puskas", João Márcio, Adilson e Escurinho. Maio/1964

Razão ou emoção? Realidade ou sonho? Dedicação aos estudos e à carreira, ou buscar as glórias e, quem sabe, a consagração de um jogador de futebol, adorado por milhares de torcedores?

Estas perguntas, há quase 50 anos atrás, talvez não tenham “martelado” a cabeça do hoje advogado João Márcio Coelho, 68 anos um dos mais respeitados de Juiz de Fora. Ele sabia que precisava dar prioridade aos estudos.

Mas quando ele nos recebe, em seu escritório, com a habitual educação e gentileza, para contar o dia em que vestiu a camisa tricolor no time principal, num Fla-Flu, no Maracanã, em 1965, os momentos de emoção não são poucos.

“Foi um prazer muito grande, era minha estreia no primeiro time do Fluminense, e contra o Flamengo, aquele Maracanã fervilhando… O Fla-Flu é tão importante que o pessoal se lembra de mim até hoje, e olha que eu joguei apenas uma partida, então olha a importância deste clássico!”

Encontramos, na verdade, um personagem e tanto, que teve uma carreira no futebol ao mesmo tempo curta e meteórica, sendo artilheiro e campeão por onde passou – Tupi (juvenil e profissional), Fluminense (aspirante e profissional) e Veracruz, do México. Isso tudo em pouco mais de três anos de carreira, abreviados pelo estudo.

“A minha mãe sempre me cobrava um diploma universitário e ela estava coberta de razão, e falo com meus filhos hoje: eu vou fazer 69 anos. O que seria eu hoje? Hoje eu sou um advogado, e exerço a minha profissão com dignidade, honradez, e ajudo os outros. Ajudo muito mais do que se eu tivesse jogado futebol”.

Frase de artilheiro

 

João Márcio: uma carreira curta e ao mesmo tempo marcante na década de 60

Qual seria a sigla, hoje, do incrível artilheiro João Márcio? Ele impressionava pela quantidade de gols marcados. Seria um JM9, no estilo Ronaldinho? Com uma frase, nosso personagem simplifica a sua tarefa que encantava o torcedor: “Ser artilheiro é a coisa mais fácil que tem. É preciso ter boa colocação na área. Só isso”.

O Fla-Flu

João Márcio disputou seu único Fla-Flu no “primeiro time” tricolor pelo Torneio Rio-São Paulo em março de 1965, no Maracanã. Ele conta que o rival venceu por 1 a 0, gol de Fefeu, cobrando pênalti já nos instantes finais, e acrescenta que o goleiro Castilho foi o destaque da partida.

O mesmo Castilho que com muito orgulho está numa das fotos do arquivo sentimental de João Márcio. Um dos maiores ídolos da história do clube das Laranjeiras, que era respeitado por todos os adversários. “Se dizia, na época, que quando Castilho está no gol, o adversário só pode comemorar quando a bola passar de fato da linha. Castilho poderia estar deitado, do outro lado da trave, mas se a bola não passou da linha, ainda não é hora de comemorar porque ele pode pegar.”

João Márcio entrou no lugar de Gilson Nunes, ainda no primeiro tempo. Marcial, Paulo Henrique e Fefeu eram nomes conhecidos no rubro-negro. Carlinhos, depois treinador, era um excelente jogador de meio-campo. O Flu tinha Altair, Carlos Alberto, Amoroso e Evaldo entre os nomes que ficariam mais marcados.

O Maracanã

“Naquele momento de subir a escada de acesso ao gramado, me lembrei da rampa do torcedor, quando meu pai me levava para assistir aos jogos, e dizia: poxa, agora eu estou aqui dentro, vou jogar um Fla-Flu no Maracanã”. João nasceu no Rio mas veio para Juiz de Fora ainda criança.

E por já prever que sua passagem no futebol não seria longa, colocou na cabeça um objetivo: jogar no Maracanã. “Não existe no mundo nenhum jogador, por mais famoso que seja, que não queira atuar ou, em outra situação, que não se veja frustrado por não ter atuado no estádio. Recentemente Zidane, astro francês de tantas conquistas, consagrado, declarou esta frustração na carreira: não ter desfilado seu enorme talento no Maracanã. E eu tive a felicidade de jogar lá”

Nervosismo?

“O Fla-Flu é um jogo que mexe muito com a torcida. Nos primeiros minutos a gente fica nervoso, na expectativa, mas depois que passa aquele momento, é um jogo normal. Quando fui jogar pela primeira vez no primeiro time do Tupi, no começo minhas pernas tremiam. Depois, passou”.

A carreira

1962 – João Márcio no juvenil do Tupi – campeão regional e artilheiro

1963 – campeão e artilheiro profissional do Tupi, foi para aspirante do Fluminense

Em 1964 –  atuou nos aspirantes e nos profissionais do Fluminense

Em 1965 – começou no Flu a temporada e foi jogar no Veracruz, do México, indicação de Didi, que foi seu companheiro no clube mexicano

Depois teve convite do Cruzeiro, e quase vestiu a camisa da Raposa no timaço da década de 60.

No Tupi, gols e salto direto para os profissionais

De pé: Mauro, Manoel, Hélio, Délio, Eli Flores e Sabino; agachados: João Pires, Toledo, João Márcio, Paulino e Tatão

A trajetória de João Márcio no futebol foi muito rápida. No Tupi, foi artilheiro do juvenil, sendo treinado por Isaías Bagno. Jogou por oito meses, foi artilheiro e campeão do Torneio Regional.

Ao se destacar nos juvenis do Tupi, “pulou” direto para os profissionais, sem passar pelos aspirantes do carijó. Orgulha-se de ter sido companheiro de muitos ídolos da história alvinegra, a base, até, do mais tarde Fantasma do Mineirão.

 

 

 

 

 

Aqueles tempos

 

João Márcio, Pipico e Evaldo em treino nas Laranjeiras.

João Márcio revela que tinha um temperamento forte. Talvez por isso também não tenha prosseguido num grande clube do futebol brasileiro ou internacional. Ele não admitia, por exemplo, ver a maneira desrespeitosa como alguns treinadores tratavam seus atletas. Mesmo sem se estender sobre o assunto, deixa escapar que alguns treinadores chegavam a ofender alguns de seus comandados com veemência inadmissível durante as partidas. Até agressões físicas de treinadores eram comentadas.

Outra situação que percebemos na entrevista, e que talvez não tenha tanta diferença com o chamado futebol profissional de hoje. Nem sempre os atletas com melhor desempenho são vitoriosos na carreira. Há muitas questões, nos bastidores dos clubes, de difícil entendimento. No Fluminense, como exemplo, um clube de administração impecável, João Márcio já viu jogadores que “acabavam com a bola” nos treinamentos ou testes não terem chance de voltar a mostrar suas qualidades. Tim era o treinador do Fluminense, na época de João Márcio.

“Quando vejo a foto do time campeão do Fluminense em 1964 e não estou lá …”

 

 

 

 

Aí entra o Didi na história

 

Veracruz, do México: em pé, Elizondo, Del Muro, Herrera, ?, Montez e Tranquilino; agachados, Batata, Didi, Aussin, João Márcio e Frank

O próprio João Márcio admite que, além da prioridade aos estudos, se tivesse um temperamento menos explosivo na época, e se abrisse mão de suas convicções e de sua formação, talvez tivesse carreira ainda mais gloriosa.

Já com a ideia de encerrar a carreira, o atacante foi procurado por um personagem ilustre: Didi. “Eu estava decidido a parar de jogar futebol. O Didi me viu treinando e veio conversar comigo: não para ainda não, tem uma oportunidade boa, você é jovem e ainda pode jogar mais um tempo, posso te indicar para o Veracruz, do México. Eles têm um  time forte”

João Márcio conta que as indicações que partiam de Didi não eram contestadas pelos mexicanos, que o idolatravam. “Fui conversar com os dirigentes mexicanos, nem tinha ideia de quanto pedir. Na época, o Gerson estava negociando a sua renovação de contrato com o Botafogo. E eu não tinha ideia mesmo de quanto pedir, até porque não pensava em transferência naquele momento. Arrisquei um valor parecido ao que vi nos jornais do que Gerson pedia ao Botafogo, e eles acabaram aceitando pagar quase tudo que pedi. Então fui para o Veracruz, do México”.

E aqui outro parênteses: ao contrário do que dirigentes de clubes disseram a João Márcio na época da transferência, Didi jamais cobrou do jogador a indicação que fez.

Obs: a interrogação, na foto do Veracruz ao lado, é, na ordem, um jogador que não teve seu nome lembrado por João Márcio.

Quase a Raposa

Quando voltou do México, João Márcio estava em Belo Horizonte e se encontrou casualmente com o Airton Moreira, que o conhecia do Tupi. O Airton me disse: “Olha, estou montando um time no Cruzeiro, e acho que você vai se encaixar perfeitamente. Vai lá treinar um dia”. “Respondi que não, que já tinha parado, decidido a estudar. Mas depois de muita insistência fui a um treino. Olha só: depois de uma semana tentando recuperar a forma física, estava parado, fui ao Cruzeiro e o Airton me colocou para treinar num time que tinha no ataque Natal, Tostão, Dirceu Lopes e Hilton, ainda tinha Raul, Oreco, Piazza, William, Pedro Paulo. No treino, Tostão me chamou e disse que eu não precisava voltar muito para armar jogadas. Foram tantos gols, alguns confesso que ficava até encabulado, era só empurrar para a rede, não tinha mais nada para fazer…”

João Márcio até considerou voltar ao futebol. No momento de acertar o contrato, porém, não houve entendimento com os dirigentes do clube da capital.

Estreia nos aspirantes do Flu

Na estreia de João Márcio pelos aspirantes do Fluminense, ele marcou um gol, após tabela com Evaldo. O Fluminense venceu o Botafogo por 2 a 1. “A soma dos dois times aspirantes da época de Fluminense e Botafogo era a base da seleção olímpica do Brasil”, lembra João Márcio.

Texto: Ivan Elias – Toque de Bola

Fotos: Arquivo Pessoal

Clique, no ícone abaixo, para conferir o áudio da entrevista com João Márcio:

 

Este post tem um comentário

  1. Andréa Soares Vieira

    Sou filha do Gilson “Puskas” e foi muito bom ver uma foto dele e ler uma entrevista de uma pessoa que ele sempre falava comigo.

Deixe seu comentário