Heleno: uma vítima do destino no futebol

Domingo, 21 de junho de 1946. Um dia que entrou para a história do futebol brasileiro. Com grande atuação de Heleno de Freitas (dois gols) e Zizinho, a Seleção Brasileira, jogando em casa, conquistou o seu primeiro título mundial de futebol ao derrotar a Argentina, de Alfredo Di Stéfano, por 3 a 1, no Estádio São Januário. Uma festa que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro e se espalhou por todo o País. O temperamental Heleno, aos 26 anos, foi o destaque da competição e entrou para a história como o artilheiro da quarta Copa do Mundo, garantindo o seu nome entre os principais jogadores da história do futebol nacional e internacional.

A situação relatada, para tristeza dos torcedores brasileiros, não ocorreu. Todos os apaixonados por futebol sabem que as copas de 1942 e 1946 não foram realizadas em razão da Segunda Guerra Mundial. Mas, se tivessem acontecido, o cenário descrito não seria impossível de se imaginar. Quem garante é o jornalista, pesquisador e escritor Marcos Eduardo Neves, autor do livro “Nunca houve um homem como Heleno”, que esteve em Juiz de Fora no dia 25 de abril para noite de autógrafos, quando concedeu entrevista exclusiva ao Portal Toque de Bola.

“Talvez, se ele fosse artilheiro da Copa de 46 ou campeão, hoje em dia um menino na Romênia ou na Rússia ia perguntar para o pai quem foi esse artilheiro de 46. A memória dele estaria sustentada. Isso não é algo impensável de se falar. Em 38, o Brasil foi terceiro lugar na Copa da França e Leônidas da Silva foi o artilheiro. Em 50, após o hiato da guerra, o Brasil chegou à final e teve Ademir como artilheiro. Se dois brasileiros foram artilheiros neste período, por que não Heleno em 42 ou 46, ele com 22 e 26 anos? Heleno foi uma vítima do destino no campo pessoal, já que ele morreu em um sanatório, e também foi vítima do destino no campo profissional”, comenta o escritor. Em 304 jogos como profissional, o jogador marcou 249 gols.

Heleno de Freitas foi um personagem que impactou a sociedade carioca nos anos 40 por seu gênio, sua genialidade dentro de campo e sua figura. Foi o maior ídolo do Botafogo antes de Garrincha. Integrou o famoso Expresso da Vitória do Vasco, onde foi campeão carioca de 1949. Encantou também os torcedores de Boca Juniors e Atlético Júnior (Colômbia). Ele surgiu na vida de Neves após Luiz Mendes, o comentarista da palavra fácil, escrever o prefácio da biografia sobre Renato Gaúcho. No final do texto, Mendes sugeria como próximo desafio do jornalista uma pesquisa sobre Heleno de Freitas.

Nascido em 12 de fevereiro de 1920, em São João Nepomuceno, chegou ao Rio de Janeiro, então capital da República, com 12 anos. Estudou no Colégio São Bento e jogava futebol de praia em Copacabana, onde foi descoberto para o mundo da bola pelo lendário Neném Prancha. Virou amigo de João Saldanha, Sérgio Porto, Sandro Moreira… Da praia, foi levado ao Botafogo, onde virou ídolo nacional e jogador titular da Seleção Brasileira.

O gênio temperamental

Tinha personalidade explosiva. Boêmio, frequentava a alta sociedade carioca, despertando paixões nas mulheres da época por sua beleza e elegância. Seus ternos eram feitos pelo mesmo alfaiate do presidente da República. Entrou para o Clube dos Cafajestes, “uma mítica e profana ‘agremiação’ de milionários, boêmios, brigões, mulherengos… O Heleno, junto com Carinhos Niemeyer, o homem do Canal 100, junto com Jorginho Guinle, Hermelino Matarazzo, herdeiro do Conde Francesco Matarazzo, participava de festinhas, orgias… Eles estavam 50 anos à frente dos homens de seu tempo. Heleno era um homem assim… Tinha Cadilac na garagem, óculos Ray Ban, relógio Cartier, anel de rubi no dedo porque ele se formou em Direito depois de estudar no Colégio São Bento”. Chegava a ser tão popular quanto o cantor Orlando Silva ou mesmo Getúlio Vargas, complementa Neves.

Marcos Eduardo Neves reafirma: 'Nunca houve um homem como Heleno'

Dentro de campo, não acumulou muitos amigos. Egocentrista, foi o primeiro bad boy do futebol brasileiro. Mas resolvia as partidas. Era ‘matador’ e respeitava apenas dois jogadores: Zizinho, no Brasil, e Di Stéfano, na Argentina. Perguntado se existe algum jogador da atualidade que se aproxima de Heleno, Carlos Eduardo Neves reforça o título de seu livro. “Para existir um jogador como Heleno é preciso somar algumas qualidades. Teria que ser mortal dentro da área como um Ronaldo, um Romário. Ser elegante no vestuário como era o Falcão. Bonito como o Raí, de uma família como o do Kaká, temperamental como o Edmundo, boêmio como o Ronaldinho Gaúcho, mulherengo como o Renato Gaúcho, inteligente como o Sócrates ou como o Tostão… Ser popstar como o Beckham, já que onde ele passava as pessoas olhavam, tanto faz mulheres ou homens. Para fazer um jogador que fosse como Heleno, teria que juntar mais de dez. (…) Então, nunca houve e possivelmente nunca vai haver outro homem como Heleno”, afirma o escritor.

Gilda

Uma partida realizada em 1947, contra o Fluminense, marcaria o jogador. Jogando pelo Botafogo, Heleno enfrentaria o time pelo qual havia passado nas divisões de base. Por isso, era considerado “traidor”. Como deixava o vestiário com as pernas brilhando após massagem, os zagueiros adversários não perdoavam: “Lá vem o viadinho de Copacabana”. Logo no início da partida, escutou um grito conhecido vindo das arquibancadas: “Gilda”. Era um dos amigos do Clube dos Cafajestes fazendo referência à personagem do filme estrelado por Rita Hayworth e que havia estreado dias antes no Rio de Janeiro. Uma mulher linda e temperamental. Os gritos tomaram conta de todo o estádio, desestabilizando Heleno, que passou a desafiar a torcida mandando bananas, fazendo passos de carnaval ou ainda fingindo passar pó de arroz no rosto, o que aconteceu após o apito final. Ameaçou mostrar as genitálias para as sociais. Ele queria calar aquela torcida e, por isso, corria, se empenhava. Discutiu com Heleno Pingo de Ouro, arrancando-lhe o cordão do pescoço. O Botafogo venceu por 2 a 1, gols de Geninho e Teixeirinha, mas foi Heleno quem deixou o campo nos ombros da torcida alvinegra. O apelido “Gilda” o acompanharia para sempre nos gramados. O episódio é registrado com riqueza de detalhes no primeiro capítulo do livro “Nunca Houve um homem como Heleno”.

Mais que um jogador

Apesar de ser um grande craque, Marcos Eduardo Neves garante que Heleno de Freitas não era apenas um jogador de futebol. Era um galã que também jogava bola. Um “Jorginho Guinle” de chuteiras, como definiu. “A vida dele foi uma grande história”, comenta mais uma vez. Morreu aos 39 anos em um manicômio de Barbacena, vítima da sífilis. “Heleno de Freitas tinha uma facilidade muito grande tanto com as drogas que lhe eram apresentadas [lança-perfume e éter], quanto com as mulheres, que se derretiam por ele. Nisso, ele se viciou nas duas coisas. Nas drogas, o que foi sua ruína, e nas mulheres, já que a AIDS do tempo dele era a sífilis. Ele foi muito mais que um jogador de futebol. Foi um personagem, um bon vivant, um homem galanteador, bonito, sedutor”, revela.

Heleno nas telas do cinema

Cartaz do filme "Heleno", estrelado por Rodrigo Santoro

Um galã dos anos 40 só poderia ser interpretado por outro galã. Segundo Neves, não é a toa que o ator Rodrigo Santoro foi escolhido para viver o craque no filme Heleno de Freitas, que chegou às telas brasileiras em 2012. Marcos Eduardo Neves, que lançou o livro “Nunca houve um homem como Heleno” em 2006, foi consultor do longa-metragem. Isso porque já havia feito o mergulho na história do jogador por meio de revistas e jornais da época, disponíveis na Biblioteca Nacional, e entrevistas com jornalistas, amigos, torcedores e mulheres contemporâneos ao jogador.

“Quando eu estava fazendo a pesquisa do livro, corria em paralelo, sem que eu soubesse, a pesquisa do filme. Quando eu vi que a história do Heleno era polêmica demais e talvez até os familiares mais próximos não autorizassem o livro porque ia expor demais o personagem, eu deixei por último o filho único do Heleno, o herdeiro dos direitos dele, para ser o último entrevistado. Quando fui entrevistar o Luiz Eduardo de Freitas, eu não sabia, mas ele sempre buscou, a vida inteira, construir o quebra-cabeça que foi a vida do pai dele. Eles se separam quando ele tinha apenas dois anos de idade, já que o Heleno estava louco e sua ex-mulher fugiu dele. Quando eu fui encontrá-lo, já levei o livro pronto. Se ele não aceitasse, ia buscar uma editora mesmo assim, porque eu sabia que tinha em mãos uma grande história, e talvez o livro fosse uma biografia não autorizada. Só que, para minha sorte, o Luiz Eduardo adorou poder reconstituir esse quebra-cabeça que ele buscava. Mas me disse que não poderia autorizar a publicação porque havia vendido todos os direitos se seu pai para uma produtora que iria filmar a vida do Heleno. Ele me apresentou o pessoal da produtora e houve um casamento: conheci o José Henrique Fonseca e todos os envolvidos no projeto. Eu cheguei com um manancial de informações que eles precisavam para fazer o roteiro. Em contrapartida, eu lançaria a mais completa biografia do Heleno sabendo que teria um filme por trás, e não um filme qualquer, mas um filme com Rodrigo Santoro, o nosso grande ator no momento. Foi assim que nós juntamos forças e eu pude colaborar com o filme sendo consultor, para dirimir a maior quantidade de erros, e com as pesquisas das matérias jornalísticas”, expôs.

O trágico fim

Heleno morreu aos 39 anos em um manicômio em Barbacena

O fim de vida de Heleno de Freitas foi marcado pela evolução da sífilis, doença sexualmente transmissível. Foi nesta fase da vida que ele retornou à Zona da Mata mineira para buscar a recuperação longe da agitação do Rio de Janeiro. “Quando diagnosticado que ele estava sifilítico e viciado em éter, após o vício em lança perfume, para tentar recuperá-lo, antes de interná-lo em casas de recuperação e clínicas de repouso, atentou-se à hipótese de Heleno passar tempos com familiares para ver se melhorava longe do burburinho da capital da República, que era o Rio de Janeiro na época. Então, ele passou um tempo em Matias Barbosa, em Juiz de Fora, na casa de uma irmã, e um tempo em São João Nepomuceno. Quando perceberam que a sífilis já havia atingido o cérebro, teve que ser internado em Barbacena, onde ficou dos 34 aos 39 anos, quando faleceu.

A fase final da vida deste grande personagem era de difícil pesquisa, mas Marcos Eduardo Neves conseguiu obter informações preciosas dos últimos cinco anos de vida de Heleno em Barbacena. “Como dádiva do destino, me chegou às mãos, graças a um jornalista de Minas Gerais, Teodomiro Braga, na época do Jornal do Brasil, o prontuário do Heleno. A clínica onde ele morreu foi implodida e eu pensei que jamais teria acesso aos últimos cinco anos de vida dele, ao drama que ele viveu dentro do manicômio, mas o Teodomiro tinha feito uma reportagem para o Jornal do Brasil em 1996, e tinha tirado o xérox de todo o prontuário. Quando ele me conheceu e descobriu que a minha pesquisa era séria, a fim de resgatar essa personalidade que estava perdida no tempo, eu pude fechar com chave de ouro, mostrando não só a grande aventura que foi a vida dele, como a tragédia anunciada que foi o desfecho fatal”, afirma.

Ao final da entrevista, Marcos Eduardo Neves disse esperar que sua iniciativa de registrar a história de Heleno de Freitas sirva de exemplo para outros jornalistas e escritores. “Acho que o brasileiro tem memória muito curta. Jogadores que foram ídolos há dez anos atrás, como Renato Gaúcho ou Bebeto, a geração mais nova nem sabe direito quem foi. O próprio Rivaldo, que já foi o melhor do mundo e hoje está meio que no ocaso, muitos não sabem nem em qual time está jogando ou se está jogando. Imaginar então, antes dos anos 50, jogadores como Heleno de Freitas, Friedenreich, Fausto, a Maravilha Negra, como Zizinho, o ídolo do Pelé… Seria maravilhoso que os biógrafos ou que os aficionados por futebol, façam pesquisas sobre esses ídolos”, finaliza.

Texto: Thiago Stephan

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