02 mar 2011

Paixão do torcedor: o dia em que o Galo cozinhou o Bangu



Curiosamente, Theo teve a chance de enfrentar, em jogos amistosos, craques que admirava ao acompanhar sempre o Tupi

  Juiz de Fora (MG), 2 de março de 2011

  Até onde vai a paixão do torcedor? Que sacrifício ele é capaz de fazer pelo seu time? O engenheiro Theophilo do Amaral Castellões Júnior, convidado pelo blog a contar sua aventura, de ver Bangu x Tupy num dia de semana no Rio de Janeiro, “matando” serviço, resolveu “esticar a conversa” e o resultado está no texto abaixo. 
 Theo, 57 anos, é nascido e criado em Juiz de Fora, engenheiro formado pela Faculdade de Engenharia da UFJF, desportista amador (ex-futebolista e atual tenista), casado há 30 anos com a linda Zelia Castellões e pai do craque do futsal e Professor de Educação Física Arthur Castellões.
Aproveitando o pós-jogo de mais uma vitória heróica carijó, goleando o Uberaba em pleno campo do inimigo, vamos ao texto, ou melhor, a essa declaração de amor:

A paixão pelo Tupi

A paixão por um time “pequeno” é como a paixão platônica por uma mulher inacessível. Você sabe que vai sofrer, mas é incontrolável a vontade de ver, a necessidade de estar por perto e de sentir a presença. Ninguém explica. Poucos entendem.

A minha paixão pelo Tupi vem de longa data. Lá pelos meados dos anos 60, fui a Santa Terezinha assistir a um jogo entre a Seleção de Juiz de Fora, representada pelo time do Tupi, e o Flamengo, também meu time de coração. Neste caso não há traição, pois um sabe do outro e convivem bem.

Creio que era aniversário da cidade. Me falha a memória.

Fui de Bonde, do Alto dos Passos até Santa Terezinha. O Salles de Oliveira ainda não tinha alambrado.

Lembro-me da escalação da Seleção de JF: Hélio; Manoel, Murilo, Dário e Walter; Mauro e França; João Pires, Vicente, Toledo e Eurico (era o timaço inteiro do Tupi com a camisa da Liga de Juiz de Fora).

No Flamengo, que veio com um time misto, tinha, entre outros, Waldomiro, Zózimo, Foguete.

O resultado foi 0 x 0. Tinha, na época 12 ou 13 anos.

Desde então nunca mais deixei de ir aos jogos do Tupi. Foi paixão à primeira vista.

Na época o Tupi era grande na região, assim como Sport e Tupinambás. O campeonato da Liga de Juiz de Fora era muito bom. Não havia a concorrência nacional que existe nesses dias atuais. Na televisão (TV Rio e depois a TV Industrial) passavam somente os jogos do campeonato carioca.

Aqui, rendo minhas homenagens a um grande carijó, Hélio Gonzaga, o Dezoito, dono da extinta Camisaria Ideal, já falecido, que sempre me levava ao campo. Apesar da grande diferença de idades, ele fazia questão de me levar. Pude retribuir, depois, na sua velhice. Vivenciamos muitas histórias. Saudades.

Ao longo desses 45 anos, tive grandes emoções, vi grandes jogos, vivi decepções, tristezas e muitas alegrias. É um misto de muitos sentimentos.

Algumas passagens são memoráveis e vivem para sempre em minha memória.

Cronologicamente lembro algumas delas, sem precisão de datas e de nomes, pois puxo pela memória:

• Um clássico TUTU (Tupi x Tupinambás): Campo do Sport, nos final dos anos 60. Irritados com a marcação de um gol do TUPI, os jogadores do Baeta resolveram acabar com o jogo. O Davi (grande centroavante) chutou a bola no juiz, o Carlos Antônio (lateral esquerdo) rasgou a súmula e o jogo acabou em confusão generalizada.

• Um jogo memorável: Tupi 4 x 3 Valeriodoce, Santa Terezinha, final dos anos 60. O Tupi perdia de 3 a 1 até os 38 minutos do segundo tempo. A torcida irritada e sem paciência, como sempre, xingava e vaiava o time. Até uma bandeira foi jogada dentro do campo. Foi aí que entrou um personagem que teve uma passagem relâmpago pelo Tupi, mas que jogava muita bola. Trata-se de Oberdan, um jogador vindo do Fluminense do Rio. Ele entrou e em poucos minutos mudou a historia do jogo. O Tupi virou para 4 a 3. Foi umas das maiores alegrias que vivi no futebol, em tão curto espaço de tempo. Emoção igual só com o gol de cabeça do Rondinelli naquela final de 1978 contra o Vasco.

Alguns personagens desse jogo:

Pelo Tupi: Manga, Murilo, Jair, Oswaldo Guariba, Oberdan, Milton.

Pelo Valério: Lincoln, Turcão (depois jogou no Tupi), Miltão, Canhoteiro.

Curiosamente, muitos anos depois, eu morando em BH, jogando futebol no time de veteranos do Clube Albert Charlet, de Sabará, joguei contra o Miltão e o Canhoteiro. Depois do jogo, na confraternização (era um jogo festivo de final de ano), relembramos esse jogo memorável inclusive para eles, que mesmo passados tantos anos não se esqueciam e não tinham explicação para aquela virada.

A queda para a 2ª Divisão: No início dos anos 80, um jogo em Santa Terezinha, contra o Democrata de Sete Lagoas pelo Torneio da Morte, disputado pelos últimos 4 colocados. O Tupi precisava de um empate. A pressão começou na chegada do ônibus do Democrata. Nada adiantou. O Democrata venceu (1 x 0), gol de Rogério Careca, contra quem também joguei uma vez em Matozinhos. Depois do jogo relembramos este jogo histórico.

A grande curiosidade desse jogo foi a quantidade de bolas isoladas por um beque do Democrata, o Edson Vampiro, que depois também jogaria no Tupi. Quantas bolas eram colocadas em jogo ele as mandava para fora do Estádio. No final só havia aquelas bolas velhas de treino, desgastadas e até pretas.

De nada adiantou. O Tupi caiu para a 2ª Divisão.

• Por fim uma história mais recente, vivida no Rio de Janeiro, onde trabalho:

Dia 18/02/2004, uma quarta-feira de verão, 40º na sombra. Jogo do Tupi contra o Bangu, às 15h, em Moça Bonita, o lugar mais quente do Rio de Janeiro.

Trabalhava, na época, no prédio da Central do Brasil. Com a desculpa que tinha uma reunião fora, peguei o trem e fui para Guilherme da Silveira. Chegando lá, fui comprar o bilhete na frente do Estádio. Lá me perguntaram se eu era sócio ou torcedor do Bangu, o que prontamente respondi: não, sou torcedor do Tupi. O bilheteiro surpreso chamou outra pessoa e disse para ela que teria de abrir outra bilheteria e o portão para a entrada da torcida do Tupi, no caso, eu.

Dei a volta no Estádio até encontrar a tal bilheteria e o portão a “nós” destinados.

O local para a “torcida” do Tupi era na geral.

Havia uma pequena sombra de uma árvore. Ali fiquei. Um sol escaldante.

Minutos antes de começar o jogo chegaram mais alguns torcedores do Galo, que vieram de Juiz de Fora em uma Van. Ficamos todos amontoados na sombra da árvore.

Com o passar do tempo o sol foi baixando e a sombra diminuindo. Ao final do primeiro tempo o sol já nos pegava pela altura do joelho, e eu já no último degrau da geral. Não tinha para onde correr.

Meus pés estavam fervendo.

Atrás da geral corria uma água de um cano estourado. Não titubeei, entrei de roupa, sapato e tudo debaixo da bica. Que prazer. Saiu até fumaça. Era a única maneira de continuar vendo o jogo. Molhado.

No final, Tupi 1 x 0 (gol do Marinho), e eu completamente seco.

Peguei o trem de volta para a Central, feliz da vida.

Guardo comigo o ingresso desse jogo.

Antes de terminar gostaria de citar alguns jogadores que me deram muitas alegrias e prazer ao longo desse tempo em que acompanho o Galo:

• Manga: o melhor goleiro, disparado;

• Lumumba: não foi dos melhores, mas era muito divertido vê-lo atuando. Era cada susto…

• Murilo: um dos melhores centrais que vi jogar;

• Augusto: pela elegância com que jogava;

• Jair: batia faltas como ninguém;

• Francinha: extraclasse no meio de campo;

• João Pires: um ponta direita maravilhoso, não existe mais nada parecido;

• Toledo: símbolo do Tupi. Valente, raçudo e inteligente;

• Júlio Maravilha: formaria com o Murilo a melhor zaga;

• Paulinho: um craque que acompanhei desde criança nos tempos do Cruzeiro do Sul, time da Princesa Izabel, do Moacir Santos (craque do Baeta nos anos 60 que até hoje trabalha voluntariamente com crianças, ensinado-as a jogar futebol e, principalmente, preparando-as para a vida, agora radicado em Itaboraí-RJ. Essa é outra história);

• Sidnei: o diabo loiro. Representando aquele ótimo time dos anos 80;

• Isidoro: jogou muito no Tupi;

• Jorge Luiz: a carreira diz tudo;

• Muller: o pouco que jogou, e bem, trouxe grandeza de um penta-campeão mundial ao Galo;

• Pescoço: Não precisei vê-lo jogar. Sabia de sua história no Galo. Era uma excelente pessoa com quem conversava muito pelas ruas e bares do Alto dos Passos.

• E outros: Iris Brito, Hércules; Ninha; Divino; Zé Waldir; Álvaro; Ronaldinho; Lilinho; Evaldo; Zé Eduardo; Leonardo, Nequinha, Adil.”

Texto: Theophilo do Amaral Castellões  Júnior


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8 Respostas to “Paixão do torcedor: o dia em que o Galo cozinhou o Bangu”

  1. 27/06/2012 às 15:11

    como eu faço pra postar uma foto no blog me manda um email
    dizendo como

  2. sidinei
    05/02/2012 às 21:02

    gostei do blog queria dizer que sou filho do oswaldo guariba citado a cima tenho 35 anos não vi ele jogar como profissional devido ele ter parado cedo,depois conto porque]mais o vi jogar depois junto com o murilo com o edson vampiro que tmb jogou no tupi e outros como amador pelo união ftc.do monte castelo,não é orque é meu pai não mais jogava muito,eu morei em sta terezinhha até os 12 anos não perdia um jogo do tupi joguei nas categorias de base até os 12 anos pepoca que o jorge luis tava chegando no tupi bati bola com ele nos treinos conheci tmb o grande goleiro ika o nekinha sidinei conhecido como diabo loiro valdir me lembro um pouco do lumumba ele ia la em casa direto e muitos outros não da pra citar todos aqui]outra história que depois eu conto conheci o manga em 2003 quando éra treinador do araxá,tenho uma foto rara do tupi com manga murilo eurico e outros e uma foto com o time inteiro quado meu pai tiver por perto vou pedir ele pra me dizer o nome de todos que estão na foto valeu por ajudar a preservar a historia do tupi

  3. Renato Berg/JFora-Mg
    13/05/2011 às 13:14

    Parabens pelo belo comentário do nosso tupi , que ainda com todas as dificuldades que vive é um orgulho para a nossa Juiz de fora., também como um torcedor que acompanha o tupy desde os anos 60., assisti aquele jogo entre tupi(Sel.jf) x Flamengo , onde quero acrescentar um detalhe, naquele jogo o Flamengo colocou para jogar ainda garoto o FIO MARAVILHA, que fêz sua estreia no time principal, fazendo uma grande partida, o goleiro do flamengo era o Marco Aurelio, de pequena estatura mas pegava muito, tinha também carlinhos no meio de campo, todos esses jogaram nesta partida., a mesma foi em comemoração ao aniversário da Revolução de 31/março/1964 – foi em 65 ou 66., não tenho certeza. os outros jogos também tive o prazer de assistir ( tutu , Valério Doce Etc,..) , nos anos 70/71/72/73 jogava no campeoanato amador da cidade ( Nacional do ladeira ).foi goleiro,fiz testes em clubes do RJ, Bangu e Botafogo mas devido a problemas de vistas e estudos tive que deixar de jogar., , joquei com julio Maravilha, Sydney Vieira, Ademir Vieira(FILHOS DO FUTRICA) e outros, que jogaram no tupy/ Rio Negro/MA, e tupinambas e Sport..
    O que ficamos a lamentar hoje em Juiz de Fora é que temos um belíssimo Estadio de futebol, precisando claro de alguns detalhes técnicos do estatuto do torcedor a serem feitos, mas não termos um Bom time para a cidade crescer e prosperar!!!!.O SEU FUTEBOL.

    Sds.

  4. Jorge
    12/03/2011 às 10:24

    Muito bom o depoimento, que mostra a paixão do torcedor e abre espaço para outras manifestações.

  5. Jorge
    12/03/2011 às 10:23

    Depoimento que mostra bem a paixão do torcedor e abre oportunidade para manifestações de outros aficcionados.

  6. 08/03/2011 às 19:48

    Parabens, pela memoria e por aproveitar as oportunidades da vida, gratidão é um predicado que poucos possuem. Fiz parte de um jogo onde fomos eu, Celso, dezoito, voce, dentre outros já no estadio municipal.

  7. Nel
    06/03/2011 às 12:44

    Parabéns a todos que fazem a história do Esperte de Juiz de Fora

    Nel

  8. amauri batista beghini
    03/03/2011 às 17:08

    Ao meu amigo/irmão Theophilo
    “Realmente é como uma paixão platônica por uma mulher inacessível”
    Sou amigo/irmão (esta é outra história) do Theophilo desde 1966, portanto, acompanhei alguns episódios citados acima só que eu não tinha esta mesma paixão, jogávamos bola no mesmo time e contra, passávamos a noitada juntos e depois era ele me marcando, no dia seguinte, sempre aos domingos e feriados.
    Mas voltando ao Tupi, eu como era Baeta, mas não tão apaixonado quanto ao meu amigo, tomava destino diferente em dias de jogos do Tupi.
    So que estas passagens não param por ai, pois mesmo depois de se mudar para Belo Horizonte ele acompanhava o Carijó, e até os dias de hoje.
    Vc. (meu amigo tem muito mais para colaborar com este blog, parabéns pelos registros, por sinal ótimos), conta mais sobre o Tupi, porque tenho certeza que em sua mente existem mais e mais passagens do Galo.
    Parabéns também para o Ivan Elias, por montar este blog, que naturalmente é uma tribuna onde todos podem colaborar com fatos e passagens do futebol, principalmente de JUIZ DE FORA.
    Abraços
    AMAURI BATISTA BEGHINI

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