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Crônicas Toque de Bola

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Toque de Bola

Erro de digitação ou de matemática?

“Portuguesa é punida novamente no Tapetão e salva o Flu”

Foi a manchete do dia 27 de dezembro em boa parte dos sites e do dia seguinte em muitos jornais.

A novela extra-campo de fim de ano na divisão principal do futebol brasileiro acabou provocando muito mais que uma uma simples discussão entre torcedores.

Terminamos o ano falando sobre os dirigentes de clubes e seu amadorismo num futebol pseudo-profissional, da fragilidade ou legitimidade das suspensões previstas no Código de Justiça do esporte nacional, e aqui, da parcialidade de profissionais e veículos de imprensa que, em tese, devem ser formadores de opinião. Não deformadores.

De nossa parte, aguardamos o segundo julgamento para manifestar nossas impressões sobre o tema. Vamos lá.

Qual é o fato “frio”? Flamengo e Portuguesa escalaram, embora em situações diferentes, atletas irregulares na última rodada da competição e foram punidos por unanimidade, 13 a 0, considerando cinco votos do primeiro e oito do segundo julgamento.

Qual a consequência, no aspecto jurídico? Os dois clubes não têm qualquer possibilidade de perdão na análise fria da lei.

Com isso, o Fluminense e o Flamengo escapam da segunda divisão, AMBOS por decisão judicial.

Nos dois julgamentos, caso somente a Lusa fosse absolvida e o clube da Gávea punido, o rebaixado seria o Flamengo, e não o Fluminense.

Volta à manchete: “Portuguesa é punida novamente no Tapetão e salva o Flu”

E volta o questionamento: erro de digitação ou de matemática?

No meu teclado, o “a” está longe do “u”. E na minha calculadorinha, a conta não bate.

Quais são as revelações que antecederam os dois julgamentos entre os clubes que infringiram o regulamento?

A Portuguesa alega que, em telefonema, o advogado terceirizado informou ao clube que Heverton teria sido punido com um jogo, apenas, já cumprido. O advogado garante que informou o contrário. A Comissão Técnica do clube revelou que não tinha conhecimento sequer que haveria julgamento de Heverton.

O Flamengo oficialmente repudia a permanência do rival carioca na Série A. Alega princípios, ética, tudo aquilo que quase todos nós defendemos. Dias mais tarde, “vazam” e-mails entre advogado e departamento de futebol do clube onde há clara confissão de culpa, em que se admite, internamente, o erro na escalação de André Santos contra o Cruzeiro.

Parênteses: o jornal Lance! publica no dia do jogo Fla x Cruzeiro que André não tem condições de jogo porque foi punido no julgamento da véspera.

Estes são os fatos concretos tornados públicos. No mais, somente especulações não comprovadas.

E qual o cenário na maioria da imprensa, desde a divulgação da irregularidade?

O Fluminense, sempre ele, vai virar a mesa mais uma vez e se livrar fora de campo da incompetência técnica demonstrada nas quatro linhas. O Flu, sempre ele, vai ser beneficiado por decisões extra-campo, vilão que sempre foi, malfeitor e cruel diante dos ingênuos e honestos administradores dos demais clubes e das entidades do Brasil e quiçá do mundo.

Qual o fato tornado público sobre o Fluminense antes da noite de terça-feira, dia 10, quando partiu a informação das irregularidades dos dois clubes? Houve uma entrevista coletiva do presidente, na tarde do mesmo dia, uma espécie de mea culpa do dirigente. Uma confissão pública de alguém que despencou de cartola campeão a rebaixado em tempo recorde.

A disparidade do tratamento de parte da imprensa diante dos poucos fatos revelados pela própria imprensa é algo preocupante, sim.

Envolver – e eleger – somente um clube como o grande câncer de todos os males, e citar fatos do passado para cravar que é culpado hoje pelo que fez (ou teria sido beneficiado) ontem é uma atitude incorreta, parcial, perigosa, discriminatória e incitadora de violência.

Parte da imprensa simplesmente passou a esculhambar o Fluminense e manifestar uma defesa e uma simpatia pela Portuguesa que nunca vimos ou ouvimos falar.

Ou é jogar para galera, ou é defesa de outros interesses ou é um pouco de cada coisa. Claro, houve comentários equilibrados, sim, contra e a favor.

Enquanto não se esclarecer o que houve internamente na conduta suspeita da Portuguesa, ou de pessoas ligadas ao clube paulista, fora de campo, é leviano cravar qualquer coisa.

Excluir o Flamengo do questionamento por ser um clube de massa e “amigo da mídia” também é, no mínimo, “cômodo” e menos perigoso.

Não estamos discutindo mais o que houve em campo. O Fluminense foi rebaixado em campo, sim. Isso nem se discute mais. Ocorre que como a discussão passou a ser o extra-campo, cabe, como única alternativa, apurar as circunstâncias em que ocorreu esse nebuloso extra-campo.

Até que isso ocorra e se torne público, o festival de leviandades prossegue.

Não há mocinhos nessa história. Mas o vilão já foi condenado e assassinado no primeiro capítulo do filme. Os julgamentos surgem como flash back.

 

 

 

 

 

Toque de Bola

 

“Pode ir armando o coreto, e preparando aquele feijão preto, eu tô voltando

Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama, eu tô voltando…”

Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós

É futebol !!!(final)

Texto de Nilo Hallack

            Dizem que até o Tostão e o Boechat resolveram entrar na onda de moralidade da vetusta, podre e imoral imprensa brasileira, onde os mais corruptos posam de éticos, e mais um monte de besteira que não vem ao caso. Dá até vontade de apelar, de falar que o Tostão, que eu respeito e muito, deveria em vez de aceitar a demissão do Saldanha, em vez de aceitar ser usado pela ditadura, deveria ter se recusado a jogar a copa de 70 enquanto matavam e torturavam em nosso país. Mas não tenho o direito de falar isso e nem cobrar isso dele. Só levanto a questão porque a autoridade que o Tostão tem, pela sua condição moral retidão e honestidade intelectual, e também seu profundo conhecimento do futebol, acaba avalizando essa pressão podre que não têm nada de ética, nem de moral, nem de defesa do futebol “jogado em campo” dos que querem, no “tapetão”, rebaixar o Fluminense.

O que eu digo é que a pressão é muito grande, e às vezes mesmo pessoas boas se deixam levar.

É só vermos as matérias da imprensa. De repente, a Associação Portuguesa de Desportos, que não é nem mais e nem menos elitista que o Fluminense ou outro “grande” clube (em outro momento talvez fosse interessante debater a origem do futebol do Vasco e o clube Internacional de Porto Alegre), mas a Portuguesa passou a ser carinhosamente tratada na imprensa como “a LUSA”, diminutivo carinhoso, como se fosse um autêntico time de futebol do povo, que estaria sendo rebaixado pelas elites.

Mas esse é outro assunto, o mais palpitante, mas outro. Voltemos ao futebol.

Sobre futebol, o Fluminense quase caiu porque o Abel, não por malandragem e nem por arrogância, mas talvez pelo seu título mundial e seu sucesso no futebol árabe, se superestimou e errou.

Curto e grosso vejamos, recordemos os fatos.

Como já dissemos, o trabalho do Muricy foi burocrático. Foi campeão brasileiro pela experiência, mas não ousou implantar um estilo de jogo. O esqueleto e o estilo de jogo de seu “Fluminense” era o de Cuca, tendo na base a saída rápida da defesa para o ataque com Mariano e Marquinhos pelas laterais, uma fase inusitada do Diguinho, errando menos passes e fazendo menos faltas, a genialidade dentro da rapidez de Conca, e uma série de contratações que “encorparam” o time. É só comparar o plantel e as escalações do Fluminense de Cuca com o de Muricy. Mas quando precisou realmente se impor, na Libertadores do ano seguinte, Muricy sucumbiu. Não conseguiu montar um time. Mas como a imprensa vive de factoides, falou-se de ratos, divergências com a nova diretoria, enfim…

Veio o Enderson, e depois o Abel. E uma sequencia de vitórias em 2011 que encheu os olhos do torcedor, e levou o Flu de novo a Libertadores. Não devemos ser injustos. Abel teve méritos, acalmou um plantel caro que carregava nas costas ter sido eliminado da Libertadores jogando um futebol sofrível, depois de ser campeão brasileiro e ter no banco Muricy (se o técnico era bom, a culpa só poderia ser dos jogadores); mas teve sorte: contou com o “canto do cisne” de Deco. Tudo bem, de volta à Libertadores, Abel e o Fluminense voltariam a disputar títulos, e já seria o “Fluminense do Abel”.

Mas o futebol … Wellington Nem, pela direita e pela esquerda, cumpriu o papel de Marquinhos e Mariano. Deco teve momentos de raro brilho, como contra o Botafogo nas finais do Carioca de 2012 quando o Fluminense fez a única grande partida sobre o comando de Abel. Mas e o futebol… O time se tornou lento, marcava muito, tinha boas jogadas ensaiadas em escanteios, um goleiro em grande fase, um grande artilheiro, mas um futebol mediano, incapaz de encher os olhos dos torcedores, dos adversários…

Um time medroso. Que caiu na Libertadores porque se acostumou a fazer um gol e recuar. O Fluminense caiu para um dos piores “Boca´s” da história, que inclusive foi humilhado por um Corinthians mediano na final. Mas jogando na defesa, fazendo gol de cabeça, e contando com lances geniais de grandes jogadores, acabou campeão nacional em 2012 porque o Galo de quem? O Galo do Cuca ainda não tinha ajustado o estilo veloz com a genialidade, a fusão ainda não estava plenamente madura, e dos vacilos do Galo o Flu campeão mais uma vez. Mas a que preço? Quem pagou o preço foi o futebol. O rápido e bom finalizador Thiago Neves virou um marcador pela direita. E o guerreiro Sóbis, então, quase um beque. Com tanta gente na frente, Gum, Leandro Euzébio e Anderson recebiam de Abel elogios que chegavam ao ponto de dizer que o Flu não precisaria de reforços na zaga durante bom par de anos. Mas como era ruim ver aquela troca de passes na intermediária do próprio Flu, tanta gente boa “desaproveitada”, um time que fazia um gol contra um dos últimos colocados (naquele ano o Atlético Goianiense) e ia para a retranca. Aqui se faz e aqui se paga.

Dois aspectos que, pelo menos para o cronista, chamavam a atenção para os limites do técnico: sem Deco, o Fluminense chegou a jogar partidas inteiras sem inverter o ataque em nenhuma vez (aquelas mudanças que, quando o adversário já está posicionado para marcar o ataque pela esquerda, um passe do time que ataca desloca o jogo para a direita e obriga o adversário a se reorganizar com a bola já vindo em sua direção); e, quando a jogada era pelas laterais, ninguém se aproximava, não existiam triangulações, raramente os laterais chegavam à linha de fundo, e Carlinhos só o lograva graças à habilidade e ao esforço individual.

Mas aqui se faz e aqui se paga. Fracasso no Carioca, fracasso na Libertadores, e um time incapaz de reagir.

Mas o título de 2012 escondeu muita coisa. Um time em final de linha, em última instância o time de 2009 reforçado por “bons jogadores”, mas nem Muricy e nem Abel fizeram nada de substancial, e voltamos para de onde saímos em 2009: o quase rebaixamento.

Mas os deuses do futebol nos salvaram uma vez mais. Esse time já deu o que tinha que dar. Que os erros da Portuguesa, que nos deram a chance de permanecer na primeira divisão, não impeçam uma autocrítica verdadeira. Do time de guerreiros, o que sobrou foi Cuca, disputando o título mundial com o Galo no Marrocos. O Flu deve buscar o seu caminho. E vai fazê-lo por cima, como querem e merecem seus torcedores e o próprio futebol, e a despeito desses hipócritas que, enquanto escrevo, repetem à exaustão que o STJD rebaixou a Lusa… Oh, só uma coisa paspalhos, se tem alguém que vendeu a vaga na primeira divisão, ou para o Flamengo, hipótese mais provável, ou para o Fluminense, foi a própria diretoria da “lusa”…

E vocês, paulistas, que já cansaram de roubar a pobre “lusinha” por Santos, Corinthians, Palmeiras e São Paulo, recolham-se: não vão ter ninguém na Libertadores em 2014, e nem com seus arroubos que enquadraram até a Globo (que é dos imperialistas mas finge ser “carioca”) vão se dar bem nessa!

Nennnnse!Nennnnse!

 

 

Toque de Bola

É futebol!!! (parte 02)

Por Nilo Hallack

Como? Rodrigo Caetano diz que quer ficar mesmo se o Flu for rebaixado? Contenha-se, “cara-pálida”. Quer dizer que se o Flu for rebaixado você não tem culpa? Você, o diretor de futebol que contratou Rayner, Felipe, Monzon, W. Silva? Quer dizer que você, magnânimo, aceita continuar no Flu mesmo na segundona? Você é maior que o Flu, maior que sua desgraçada obra de rebaixar o time? É difícil…

Mas esse é um desabafo, a parte 02 mesmo é a seguinte:

Para aplacar a dor e a vergonha, entender o que se passou é uma necessidade. E esta situação em que o tricolor está vai ajudar a entender muita coisa. A primeira delas, Cuca! Ele pegou o Fluminense em situação desesperadora. Se não me engano, foi o terceiro técnico no campeonato daquele ano. O segundo foi o Renato Gaúcho. E ele começou perdendo, mas assumiu o risco de tentar implantar seu estilo, um futebol de saída rápida para o ataque. Cuca, o eterno vice, foi corajoso. E o time de estrelas, talvez o plantel mais caro do Rio, ainda traumatizado pela queda na Libertadores, em última instância, por soberba, começou a jogar futebol.

Chamar o time de Cuca de “time de guerreiros” era justo, pois se este time não tivesse o espírito de não se abater diante de situações difíceis, quase impossíveis, não teria logrado jogar futebol e derrotar seus adversários. Mas o time foi guerreiro porque conseguiu, nesta condição extrema, jogar futebol, não porque foi mais “raçudo” que os outros…

Passemos rápido por Muricy. Não fez um grande trabalho. Manteve o “estilo Cuca”, utilizou sua experiência vencedora para administrar situações de jogo que só quem ganhou ou perdeu muito adquire, e foi só. Muricy é digno de admiração, honesto, pouco afeito a “papagaiadas”, mas o cronista se permite levantar uma questão: quando Muricy deu o “fico” que a torcida tanto festejou, não era por seu “amor” ao Fluminense, e seria falso que o fosse, que história tem ele com o Flu? Na verdade, a cúpula da CBF não engolia o caráter autêntico do Muricy, e fez o convite para que ele não aceitasse, e ela pudesse contratar alguém que dissesse “amém!”.

E veio o Abel…

Que em um de seus primeiros pronunciamentos, declarou que não bastava um time de guerreiros, mas um time que jogasse futebol. Muito justo, Abel, uma verdade. Mas porque você concluiu que o time do Cuca era um time de guerreiros e não jogava futebol? Leviano, Abel, julgar os fatos por como eles são difundidos, e não pela forma como realmente ocorreram.

Você errou, Abel. Você que é um sujeito como poucos, honesto, justo, leal, inteligente, culto e, pelo menos a julgar pelo que sai na imprensa, não se mistura com essa cambada de fascistas que dominam a direção dos clubes e a crônica futebolística, e não é a toa que estes últimos acabam no que tem de mais porco e decadente na televisão, estes “programas” que tentam justificar a violência do Estado contra o povo.

Mas você errou, Abel. Você que é do futebol, boleiro, gente boa, humilde, você errou. Mas acabou a página, e fica para a próxima.

(obs: texto escrito antes da rodada final do Brasileirão, que determinou a queda de Fluminense e Vasco para a Série B de 2014)

Toque de Bola

É futebol!!! (parte 1)

Por Nilo Hallack

Em 2009, o futebol derrotou grande sorte de palhaços e energúmenos, gente que por uns trocados se arroga em entender e “cientificar” um esporte, e eis que contra todas as estatísticas o Fluminense terminou o campeonato entre as equipes que permaneceriam na “elite” do futebol nacional.

E novamente em 2013, passando pelo próprio Fluminense, o futebol derrotou mais uma vez detratores, falsificadores e charlatões, que arrastam alguns sinceros e muitas vezes bem intencionados profissionais do antigo esporte “bretão”.

Fluminense e Atlético Mineiro. Parecia um jogo entre um time da primeira divisão de um campeonato qualquer, contra um time da terceira divisão. A bola não parava no meio de campo, chutões, dívidas ríspidas, pelo lado tricolor nenhuma jogada, e a tradicional posse de bola dos tempos do “Abel”: Cavalieri, Leandro Euzébio, talvez Edinho, volta para trás, lateral esquerda, volta para o meio e para trás, o adversário se anima, vê que ninguém joga bola e vai em cima tentar induzir a um erro, Gum, uma corrida para escapar de dois que se aproximam e… Será um lançamento? Será um chutão? Será um passe errado, mais um?

Mas, pasmem, os narradores e comentaristas, diante de dantesco espetáculo, de um time desesperado contra um time que tentava jogar futebol, repetiam a exaustam “que grande jogo!” A emoção estava à flor da pele mas, “grande jogo”?

O futebol, passando em 2013 pelo Fluminense, derrotou os “idiotas da objetividade” que espalharam, espalham e se desmancham diante das palavras comprometimento, raça, preparo físico… Imaginem daqui a algumas centenas de anos, se a besta fera capitalista não lograr destruição em massa, se algum pesquisador for ler a crônica esportiva de nossos dias; um mais atento, diante de primeira leitura, vai pensar que entrou no arquivo errado, das reportagens sobre esportes marciais; talvez até algum pesquisador mais desavisado, que distante dos fatos mistura informações, vendo que os estádios se chamam “Arenas” e tantas vezes lê a palavra força, vontade, determinação, comprometimento, talvez pense que pegou uma crônica dos tempos do império Greco-romano.

É bem verdade que o gordinho Walter já tinha chacoalhado essa cambada, e o saudoso Samarone, em uma crônica bastante profunda, havia colocado o dedo nessa ferida quando analisava, partindo da má fase e dos campeonatos pífios de Flu e Corinthians, a rápida decadência dos times que alçam voos maiores com ênfase na marcação.

Mas o Fluminense contra o Atlético…

Digão, guerreiro, lutador, capaz de desarmes geniais e de sair jogando com uma habilidade inimaginável pelo seu porte físico. Digão, responsável pelo gol de empate, ao impedir que a bola que quicava na pequena área do Atlético saísse pela linha de fundo. Digão, aplaudido pela torcida por tentar ir ao ataque mesmo completamente torto sendo destro e jogando pela esquerda. Pois faltaram as pernas, e veio o lançamento, o gol de empate, e uma situação desesperadora. Digão, vaias, vaias, aplausos o jogo não acabou, tristeza, prostração…

Mas o futebol venceu. Venceu os matemáticos, os fanáticos pelas séries tipo “Rambo” que se arvoram em esportistas, e muita gente ruim.

Que os Deuses do Futebol, diante das verdades que o Flu, pelo seu suplício, ajudou a demonstrar, nos salvem na última rodada. Nense !!!

Texto de Nilo Hallack

Toque de Bola

No futebol, o jogo da arquibancada do estádio passa – muito! – longe do jogo da poltrona da TV.

Óbvio ululante? Querem exemplos?

No campo, quando seu time sai do vestiário para o palco sagrado ele sempre foi o melhor do mundo, que vai confirmar a boa fase ou se recuperar de um revés momentâneo.

Na TV, analisamos a escalação, que sempre demora, para xingar quem falhou na partida anterior, e saber quem nos ameaça desta vez com a camisa titular fazendo dedão de positivo. “Tá rindo de quê, cara pálida?”, perguntamos, da poltrona.

No campo, quando a partida começa temos a certeza da vitória. Só não sabemos de quanto será nem quem irá fazer os gols. Mas o triunfo é questão de 95, 96 minutos.

Na TV, o locutor repete que seu time há “x” jogos não vence, há “y” jogos não faz dois gols e há “n” jogos não atua bem.

No campo, se o seu time sofre o primeiro gol, basta o adversário buscar a bola na rede e você grita: Vamos virar! Uns até saltitam em direção à torcida contrária, gritam impropérios, mostram dedos da mão, você sabe.

Na TV, um gol sofrido é prenúncio de tragédia. O locutor já informa que com esse resultado o seu time provavelmente vai dormir na zona.

(Além de projetista, o do microfone tende a ser indelicado, indecoroso).

As tentativas do empate, no campo, são vistas como a convicção reforçada da virada inexorável.

Já na TV, o locutor a essa altura já repetiu pelo menos três vezes que seu aproveitamento ofensivo vai de mal a pior, que o time vai dormir na zona porque dificilmente conseguiu transformar derrota em vitória ao longo da competição. E que só restarão três rodadas.

Quando seu time empata, no campo, é golaço. Não importa se foi de pé, de mão, cabeça, nuca, orelha, cotovelo, buço, bigode ou beiço. Nem quem fez. Importa é que empatou, e que a justiça, enfim, se faz presente.

O empate, na TV, é visto com desdém. Vão dizer que foi falha da defesa ou do goleiro adversário. Vão pedir para repetir por 18 câmeras para “procurar” um impedimento no primeiro ou no segundo lance. E que mesmo igualando tudo na etapa inicial, provavel e estatisticamente no segundo tempo as coisas vão piorar. Afinal, quem irá contestar números?

Parênteses do intervalo: aqui você é obrigado a lembrar da TV quando vai comprar meia grama de uma batata qualquer e alguém (alguma) de colete responde que custa R$ 7. Carestia! Um real a mais que um “cachorro quente frio” (sim, ele existe!), sem gosto e sem tempero. Menos mal que o xixi do estádio está bem mais civilizado do que nos tempos da pré-reforma. Até conseguimos lavar as mãos depois! E a água nem está amarelada.Primeiro mundo…

Vai começar o segundo tempo.

Olho no campo. O desenrolar dos lances é só um pano de fundo para adivinhar quem será o autor do gol da virada e da vitória que derrubará os idiotas da objetividade. As substituições só tornam o desafio mais difícil e a brincadeira ainda melhor.

Olho na telinha. A cada substituição ou cartão, os números se multiplicam. Vão dizer quem está fora do próximo jogo, que a troca de um atleta por outro não resultará em nada, vão repetir que o seu time sofreu um gol quando estava 0 a 0 e, mesmo com o empate, não tem mais jeito. Vamos todos dormir na zona. Ah, e vão querer nos convencer que nosso time, tão perfeito, errou de 40 a 50 passes e que isso é inaceitável no futebol profissional.

O jogo está terminando. No campo, aguardamos somente o gol da vitória. É líquido e certo.

Os instantes finais na TV são melancólicos. Locutor, comentarista e repórteres já nos “abasteceram” com novas estatísticas, como se a batalha estivesse encerrada. Vamos dormir na zona, sim, e no ano que vem cairemos no limbo dos jogos às terças, sextas e sábados, aqui às 16h20, horário da pelada (a nossa) ou do churrasco. E ainda teremos que trocar a letra do pacote peipervíu (tradução simultânea).

Olho no campo: gol! O nosso time venceu! O herói é um zagueiro. Guerreiro de sangue, suor e lágrimas que dá a vida pelo nosso clube. Como tantos zagueiros nossos de outros tempos e outras táticas, como o 2-3-5, 4-4-2, 4-3-3, 4-2-2-2-, WM, MW, leques, sanfonas e adjacências.

Olho na telinha: gol. Sem exclamação. Quem marcou? Um dos piores em campo, que merecia ter sido expulso dez minutos atrás por omissão de recursos técnicos e excesso de recursos violentos. Um limitado, que, segundo as estatísticas não oficiais, comete duas faltas a cada tentativa de roubar a bola do adversário.

Sim, este cronista estava na arquibancada do Maracanã domingo.

Para apresentar as versões de Fluminense 2×1 São Paulo.

Versão do campo: virada épica. Um jogaço, em que o nosso time venceu com dois golaços, dois cabeçaços, e assim – acredita-se – começa a mandar para longe o fantasma de ir para o espaço!

Versão da TV: não sei o que se disse antes, durante ou depois do jogo. Mas meus companheiros de batalha, conhecidos e anônimos, rampa abaixo, têm a fisionomia do dever cumprido, e são unânimes: “Sim, o campeão voltou!”

 

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