10 jun 2015

Projeto de Futebol de Base da UFJF: revelação de talentos sem vender ilusões



Muito tem se falado do Projeto de Futebol desenvolvido na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) com as categorias de base. Para saber mais sobre este trabalho, que já despertou interesse de clubes como Cruzeiro e Flamengo, o Toque de Bola foi até a Faculdade de Educação Física e Desportos (Faefid) conversar com Marcelo Matta, idealizador e coordenador do projeto.

 

Bruno Próton, Thadeu Rodrigues e Marcelo Matta são treinadores do projeto

Bruno Proton, Thadeu Rodrigues e Marcelo Matta são treinadores do projeto

Desenvolver talentos  

“A ideia do projeto vem de muito tempo. Trabalhamos durante dois anos no nosso grupo de estudo sobre futebol aqui na UFJF em relação ao currículo da formação de jogador de futebol. O nascimento do projeto ocorreu em 1º de abril de 2014 e veio da constatação de que Juiz de Fora tem muitos projetos deste esporte no âmbito social, no entanto esses locais possuem carência de desafiar os atletas a alcançarem o seu potencial. As pessoas só alcançam seu potencial se forem desafiadas. Então, o atleta talentoso que atua com outros de nível abaixo não recebe o estímulo necessário para evoluir, daí a necessidade de juntar talentos em um mesmo local de trabalho para que os desafios sejam maiores e consequentemente se desenvolvam. Fazemos isso da seguinte forma: primeiro, através da seleção. O garoto vem até o projeto, passa por um período de testes e, se cumprir com os requisitos, permanece. Segundo, através do treinamento, que serve como estímulo e competição, e terceiro, a infra-estrutura da UFJF”, explica Marcelo Matta.

 

   Questão social 

Marcelo conta que a função social não é deixada de lado e que os meninos têm o suporte psicológico para encarar a realidade que é se tornar um jogador profissional: “A gente sabe que a maioria desses jogadores aqui não vai virar jogador de futebol. A estatística é cruel: 99,7% não viram jogador de futebol, ou seja, de cada 1000 atletas, só três conseguem chegar lá. Desses, 89% ganham dois salários mínimos no Brasil. E os outros 997? O que vão fazer? Será que vão só sonhar? Nós iremos acalentar esse sonho, mas a cobrança para que eles tenham a consciência de que é preciso ter um plano B. Trazemos profissionais, árbitros de futebol, para trabalhar isso com eles. Incentivamos e os estimulamos através dos treinamentos para que possam se desenvolver da melhor forma, mas não podemos iludi-los dizendo que se tornarão jogadores profissionais”.

 

"Eles carregam o sonho de serem jogadores, e não planejam outra coisa para a vida, e é aí que entra nossa função social", observa Marcelo Matta (Foto: Twin Alvarenga)

“Eles carregam o sonho de serem jogadores, e não planejam outra coisa para a vida, e é aí que entra nossa função social”, observa Marcelo Matta (Foto: Twin Alvarenga)

  Parceria com as famílias 

Sobre a pré-seleção dos atletas, Matta diz que a aceitação das famílias em relação ao projeto é grande. Contudo, alguns ficam chateados por seus filhos não serem aprovados: “As famílias respeitam muito. Já os reuni explicando o projeto e eles elogiaram o desenvolvimento. Alguns criticaram a forma de entrada, porque não é garantido que eles fiquem aqui, porque se um jogador mais talentoso chegar, outro precisa sair. É chato, machuca, é pior parte do trabalho, mas é assim que funciona a metodologia do projeto. Então, esses meninos não têm uma garantia de ficar aqui. Nós temos meninos aqui de extratos sociais diferentes, tem menino que não almoçava, nem jantava, ai alguns apoiadores do projeto de forma independente se juntaram para assistir essa família. Porque é importante a parceria dos familiares, em relação à disciplina. Tem atletas que foram suspensos por não respeitarem os treinadores. Mas, no geral, as famílias recebem muito bem o projeto”.

 

  Relação com os clubes 

O coordenador do projeto explica que a relação direta com os clubes é um fator positivo que transmite segurança aos familiares sobre o futuro dos filhos, já que não dependerão de empresários e que os treinadores não podem ter parcela em uma possível contratação: “A visita do Flamengo e do Cruzeiro ocorreu porque os profissionais da captação foram meus alunos na especialização na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde ministro um curso de futebol há nove anos, e por já me conhecerem e saberem da seriedade do projeto, se interessaram e eu os convidei para virem observar. E agora (com a lei deliberada pelo Comitê Executivo da FIFA de que investidores não podem ter mais participação nos direitos econômicos dos atletas a partir de 1º de maio deste ano) os clubes, que terão direito total sobre os atletas estão mais interessados em captar talentos. Ano passado, tivemos a visita de um empresário aqui, mas eu corri com ele, disse que não precisamos disso, que trataríamos diretamente com o clube. Porque é uma verdade de que o jovem jogador, querendo alcançar esse sonho, e a família, com as perspectivas de um futuro melhor, acreditam em qualquer um que bater na porta. Então a indicação vai ser nossa, de forma direta, sem um terceiro interessado. Hoje esses meninos não possuem empresários, é só a UFJF por trás deles, dando o respaldo e indicando. O que pode acontecer com o dinheiro que será repassado, caso algum clube contrate um atleta nosso, é abrirmos um projeto dentro de uma fundação de dentro da UFJF, seja a Fundação de Apoio e Desenvolvimento do Ensino (Fadepe) ou Fundação de Ciência e Tecnologia (FCT) para que essa verba seja revestido em patrocínio para o próprio projeto, porque nós não podemos receber esse dinheiro”.

 

Treinamentos do Projeto são realizados na Faefid

Treinamentos do Projeto são realizados na Faefid

   “Não vamos aliciar jogador nenhum”

Sobre um possível aliciamento de jogadores talentosos, Matta foi taxativo ao declarar que não convida nenhum atleta a fazer parte do projeto: “Nós não aliciamos jogador nenhum da cidade. Nós temos planejamento, avaliação, infra-estrutura, parceria com grandes clubes, preliminares nos jogos do Tupi, a divulgação do projeto, isso tudo agrega valor e consequentemente as pessoas vão nos procurar. Não vamos aliciar ninguém, mas se quiser vir, tem total condição de vir e ser avaliado. As portas estão abertas para os talentos. Conheço as pessoas que trabalham no futebol de base em Juiz de Fora e são guerreiros, porque têm muita dificuldade. Há falta de apoio dos clubes de Juiz de Fora em investir forte na formação de jovens jogadores na base com a prerrogativa de que no futuro eles podem render muito mais. O projeto aqui da UFJF ocupou um espaço que estava aberto na cidade e que não foi preenchido pelos clubes.  O projeto não quer ser forte só em Juiz de Fora, quer ser forte no Brasil. Não quero monopolizar o futebol de base em Juiz de Fora, minha preocupação é competir em alto nível de desempenho, e não é só aqui que tem um bom time. Bonsucesso, Sport, Tupynambás, todos têm bons times. Tem muitos jogadores em Juiz de Fora, claro que eu queria que todos os melhores estivessem aqui, mas não vou aliciar jogador nenhum, de ninguém. E eu gostaria que esses clubes se desenvolvessem e investissem na base porque isso ajudaria ainda mais o desenvolvimento dos atletas”, concluiu.

 

Texto: Guilherme Fernandes, estagiário, com supervisão de Ivan Elias – Toque de Bola

Fotos: Toque de Bola e Twin Alvarenga

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