30 jan 2012

Rafael Novaes conta a experiência de ensinar futebol no Haiti após o terremoto



Juiz de Fora (MG), 30 de janeiro de 2012

No dia 12 de janeiro de 2010, o Haiti, país mais pobre das Américas, era atingido por um forte terremoto de magnitude 7. O epicentro foi registrado próximo à capital Porto Príncipe. Estimativas apontam que cerca de 200 mil pessoas morreram. Entre elas, militares brasileiros que integravam a força de paz da ONU e pessoas que realizavam ajuda humanitária. Cerca de um ano e meio após a tragédia que destruiu o país, em agosto do ano passado, o juiz-forano e técnico de futebol Rafael Novaes deixava o comando da equipe de juniores do Sport para viajar ao Haiti e integrar o Projeto Pérolas Negras (Perles Noires), na cidade de Bon Repos, próxima a Porto Príncipe. Ele sabia que enfrentaria uma realidade bem diferente da que estava acostumado em Juiz de Fora, mas, acreditava que o esporte poderia fazer muito pela reconstrução local e pelos jovens haitianos. Além disso, tinha a certeza que seria uma experiência profissional única. Quatro meses e meio após o desembarque, Novaes concedeu entrevista, via e-mail, ao Portal Toque de Bola comentando o início de sua experiência no Pérolas Negras. Confira a matéria exclusiva.

Toque de Bola: Qual era o seu objetivo ao aceitar o desafio de treinar jovens haitianos?
Rafael Novaes: Vim aqui pro Haiti com contrato de um ano, com grandes chances de renovação por mais tempo. O objetivo principal do Projeto Perles Noires (Perolas Negras) é realizar um trabalho em longo prazo, formando atletas capacitados para daqui a três ou quatro anos. Assim, que estes atletas possam estar em grandes clubes do mundo. Nosso interesse é que os jogadores que serão formados e colocados no mercado possam financiar a academia de futebol futuramente com suas vendas. Nós também queremos deixar um legado para a melhoria do futebol haitiano, com nosso trabalho e metodologia aplicada no cotidiano do país. O objetivo de aceitar este desafio é de ter uma experiência única, crescimento tanto profissional como pessoal, e de estar à frente de parte de coordenação e treinamento técnico/tático de um projeto tão grande como é esse, que é coordenado pela ONG Viva Rio. Não poderia dizer não a um desafio como esse, pois minha vida é movida a desafios.

T.B.: Como está sendo o desenvolvimento das atividades no país? Conseguiu garimpar alguns talentos?
R.N.: O desenvolvimento das atividades no país não poderia estar melhor, superando nossas expectativas. Nesses primeiros quatro meses e meio em que estou aqui, o processo de evolução técnica, tática e física foi grande, sem falar no processo de captação de atletas feito constantemente em várias províncias em todo país, sendo que em várias delas os jovens vivem em pobreza extrema. Mesmo assim, conseguimos captar bons valores e promessas para o futebol haitiano. Hoje, temos 60 atletas alojados em nossa concentração, todos eles divididos em três categorias: infantil, juvenil e feminino. Além de moradia, oferecemos quatro refeições diárias (a maioria da população faz apenas uma refeição por dia), escola dentro de centro de treinamento, com professores contratados pela Viva Rio. São dois campos society, um de grama esmeralda e outro sintético, dois campos oficiais (um natural de grama esmeralda e outro sintético), academia de musculação, sala de televisão, refeitório, piscina, quadra de futsal…

T.B.: Como foi se deparar com a realidade local, que, à distância, parece ser bastante impactante?
R.N.: Em um primeiro momento foi difícil demais, pois o país é muito pobre, com muitos problemas após o terremoto. A realidade fora do centro de treinamento é profundamente impactante. Aqui dentro, nós, da comissão técnica e os atletas, desfrutamos de uma estrutura de um projeto pioneiro no país. Passamos, com o tempo, a se acostumar em ver lugares paradisíacos, como as praias do Caribe, e as regiões de pobreza extrema e afetadas pelo terremoto. Sem falar na grande desigualdade social que afeta os haitianos: ou a pessoa é muito pobre ou rica. A discrepância é muita.

T.B: E a diferença de cultura? Como está lidando com isso?
R.N: É uma cultura bem diferente da nossa. Temos que aprender a conhecer e lidar com essas diferenças, pois escolhemos viver aqui. Na parte da culinária não temos grandes problemas, pois as cozinheiras fazem uma comida bem parecida com a nossa. A língua local é o Criouli (mistura de francês com dialeto). Temos tradutor, mas estamos nos acostumando à língua. É um povo extremamente alegre, que não se abate fácil, apesar de todos os problemas do país.

T.B.: Qual a relação que os haitianos mantêm com os brasileiros?
R.N: A relação do povo haitiano com os brasileiros é a melhor possível, principalmente pelo futebol. Se falarmos que somos do Brasil, logo vem a pergunta sobre Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo, Rómario, entre outros. Abrem-se muitas portas aqui no Haiti sendo brasileiro.

T.B.: Qual o maior ídolo do esporte haitiano?
R.N.: É um país que aprendeu a idolatrar ídolos de outros países. São apaixonados por Ronaldinho, Ronaldo, Zidane, Messi, entre outros. Na Seleção do Haiti, gostam muito do Tigá, que atua em Portugal. Mas os principais ídolos haitianos no esporte são estrangeiros. As províncias carentes aqui estão gostando muito de Evens Pierre, de 26 anos, foi campeão da América Central [Boxe] e pode ser considerado primeiro ídolo do esporte em comunidade carente do país. Em matéria exibida no globoesporte.com, em 2011, se pode  acompanhar mais a respeito [Evens Pierre].

T.B.: Qual o papel que o esporte pode desempenhar na reconstrução do Haiti?
R: O esporte é, e sempre será, agregador. Além de uma intensa alegria que traz ao povo haitiano, traz também a esperança de dias melhores, o sonho de se tornar um grande ídolo mundial, e, consequentemente, de ter uma condição financeira melhor. O sonho de uma vida melhor através do esporte é uma constante. Apesar de sabermos de todas as dificuldades do país, essa capacidade não pode faltar ao povo haitiano que, apesar das dificuldades, nunca deixa de ser feliz e alegre.

Texto: Thiago Stephan


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Uma Resposta to “Rafael Novaes conta a experiência de ensinar futebol no Haiti após o terremoto”

  1. Rafael Novaes Dias
    30/01/2012 às 15:39

    Esse trabalho não poderia ser realizado sem o comprometimento e trabalho intensivo de Luiz Carlos Laudiosa(Preparador de Goleiros) e Jorge Santos(preparador Físico).

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