01 nov 2011

Veja matéria especial: com a palavra, os eternos alvos “homens de preto”



Juiz de Fora (MG), 30 de outubro de 2011

Os homens de preto não estavam de preto. Os árbitros e assistentes juiz-foranos Marcelo Vangasse (Fifa), Herman Vani (CBF) e Dirceu Fábio Ribeiro (quadro nacional do futsal) foram destaques na noite desta terça-feira, 25, na Semana Acadêmica de Educação Física do Granbery.

Para uma plateia atenta, contaram um pouco de suas experiências na arbitragem e abordaram principalmente como a função de árbitro pode ser importante como uma fonte de renda, mesmo que a arbitragem não seja considerada oficialmente uma carreira profissional.

HERMAN

Herman, o primeiro a falar, disse que nunca pensou em chegar nesta situação, de pertencer ao quadro nacional da CBF. Contou que na época do curso de arbitragem feito na Federação de São Paulo, as aulas eram todas as noites de sexta-feira, durante dez meses.

“Em São Paulo, temos as séries A3, A2 e A1. Para se chegar num Ituano x Paulista, da A1, pode ter a certeza que se custou para chegar lá. Um Ituano x Paulista paga o mesmo que Palmeiras x Corinthians, o primeiro clássico, isso com 10 anos de atuação.”

Ele disse aos alunos que “é legal atuar num Palmeiras x Corinthians, como ocorreu em 2010, com transmissão pela TV aberta (Globo SP), mas o que se ganha é o mesmo que num Ituano x Paulista”.

Como a arbitragem não é considerada profissão, Herman aconselhou aos acadêmicos sempre manter outra atividade: “Hoje minha maior fonte de renda é arbitragem, mas precisamos ter outras fontes de remuneração”.

Como informação adicional ao considerar as oportunidades de trabalho na arbitragem, Herman citou valores aproximados de uma tabela de remuneração. Em São Paulo, um jogo da divisão principal – Série A 1 – paga em torno de R$ 2045 ao árbitro (chamado de árbitro central) e R$ 1045 aos árbitros assistentes.

Na A2, R$ 1045,00 ao árbitro e R$ 545 aos assistentes. Na A3, vale R$ 845, árbitro, e R$ 445 auxiliares. Na 2ª Divisão Paulista, na verdade uma quarta divisão, a taxa de arbitragem é em média de R$ 545, sendo R$ 295 aos assistentes.

Em competições nacionais, uma partida da Série A paga ao árbitro R$ 2450 e aos assistentes R$ 1400. Na Série B: R$ 1950 e R$ 1100. Na C, R$ 750 e R$ 400. Na Série D, R$ 600. Na Copa do Brasil, árbitro ganha R$ 1950 e assistente, R$ 1100.

Herman mostrou fotos destacando algumas partidas em que trabalhou, como Corinthians x Palmeiras em São Paulo e Fluminense x Internacional no Maracanã em 2010. “Nesta, duas emoções fortes. Ver o seu nome no placar eletrônico do Maracanã, um estádio que já conhecia indo apenas ver jogos como torcedor, é uma sensação muito legal. Outro detalhe deste Flu x Inter: foram mais de 60 mil pagantes, o maior público em jogos que já atuei”.

VANGASSE

No início de sua apresentação, Vangasse lembrou que trocou o Curso de Engenharia pelo de Educação Física – “acho que fiz uma boa escolha”. Junto com Herman ia toda sexta-feira a São Paulo, voltando de madrugada.

“Hoje minha vida gira em torno da arbitragem, comecei na Liga Futsal, o amigo Rodrigo Cintra (hoje, dirigente em Natal-RN, trabalhando na Copa do Mundo de 2014) me convenceu a fazer curso de arbitragem em São Paulo. Foram10 meses indo e voltando toda sexta-feira”.

O assistente da Fifa reiterou as palavras de Herman: “A gente não chega apitando direto jogos importantes, passa por todas as etapas, desde Copa Prefeitura Bahamas, futebol amador, categorias de base, divisões de baixo, até chegar num jogo de grandes clubes, como um Flamengo x Vasco ou um Corinthians x Palmeiras”

Marcelo ressaltou que o fato de o árbitro não ser profissional, a vida pessoal tem que ser muito tranquila para que as coisas aconteçam bem. “Escutamos muita coisa que não devíamos escutar, por isso é preciso batalhar fora a arbitragem um trabalho legal. Tem mês, por exemplo, que a gente não faz jogo, em outro mês temos cinco jogos, aí você fala: que beleza, mas e no mês em que não tem jogo? Ficamos vendo o jogo pela TV e dizendo: poderíamos estar ali”.

A quantidade de árbitros no Brasil também foi destacada. “São mais de 400 árbitros no quadro da CBF. É claro que quando se começa a ficar mais conhecido se trabalha mais vezes. Temos no Brasil só 10 árbitros e 10 assistentes internacionais, então é difícil chegar”.

E o fato de ser 100% infalível gera uma pressão interminável: “O árbitro tem que sempre acertar, jogador erra, mas o árbitro que erra fica sem trabalhar. E dependendo do jogo em que houve o erro, podemos ficar mais de um mês sem trabalhar”.

A idade também é fator importante, segundo Vangasse. “A idade conta muito hoje na arbitragem, é preciso começar com 20, 22 anos”.

E os investimentos para se tornar um árbitro ou assistente de primeira linha? “Gasta-se muito dinheiro, dos 80 que começaram conosco talvez nem 10 estejam na 1ª divisão. Mas para quem gosta e se dedica, o reconhecimento te deixa feliz, você acaba deixando até a profissão de lado para se dedicar a arbitragem”.

Divisor de águas

Um jogo marcou a carreira de Vangasse. Pela Copa do Brasil, o Corinthians vinha de uma derrota para o pouco famoso Cianorte por 3 a 0 e precisava devolver a diferença de gols. O clube paulista tinha feito enorme investimento na equipe, com Tevez, Roger e cia.

O assistente lembra de cada detalhe do jogo: “Pacaembu lotado, o Cianorte fez gol irregular e eu era auxiliar e validei, achei na hora que o jogador estava em condição legal. No intervalo, vieram repórteres, câmeras em minha direção. Pensei: Fiz coisa errada, se fizesse certo ninguém viria me entrevistar”.

No final da partida, o Corinthians conseguiu a goleada de 5 a 1 e “salvou a minha pele”. Consequências? “Doei minha taxa recebida naquela partida, fiquei um mês e meio sem trabalhar, e pensava: o que será da minha carreira? Recebi, depois, um telefonema do então diretor do quadro nacional de arbitragem Armando Marques, e ele perguntou o que houve, eu disse errei, depois pela TV vi que errei, mas na hora achei que estava em condição legal, e o Armando disse: “Fique tranquilo, vou lhe dar novas oportunidades.”

O lance polêmico acabou, com o tempo, tornando-se positivo para a sequência da carreira de Vangasse. Como eu errei num lance contra uma equipe grande, de alto investimento, as pessoas e o mundo do futebol viram que eu era um cara honesto, porque mesmo tendo cometido um erro não levei em conta que era o Corinthians, errei sem tentar beneficiar o Corinthians, time de massa.

Desafio

O próximo desafio de Vangasse é Sul-Americano Sub-15, no Uruguai. “É um recomeço, a partir do dia 15 de novembro, depois de todos estes anos é preciso trabalhar muito bem agora, para chegar numa Libertadores. A gente não imaginava que faria de novo um sub-15, como foi quando iniciei a carreira, mas são altos e baixos, temos que estar preparados para tudo. Carreira é curta, só até 45 anos, por isso deve se dedicar a outra atividades fora da arbitragens”.

DIRCEU

Dirceu Fábio Ribeiro podia ser árbitro Fifa de futsal. “Mas não tenho como deixar minhas atividades profissionais para ficar só no futsal porque a modalidade não alcança valores como os de futebol de campo”.

Ele citou um exemplo claro. “Eu apitei uma partida do Falcão, o grande astro do futsal brasileiro. Ele deve ganhar em torno de R$ 300 mil. Apitei Minas x Santos, 2 a 1 para o Santos, na Arena Vivo do Minas. Sabem qual a taxa de arbitragem nacional de um jogo do Falcão? R$ 380. É só um exemplo de como são os valores”.

A arbitragem hoje é “uma das minhas fontes de renda”, é um caminho difícil, tortuoso, e tem que haver vontade de trabalhar, mas isso não é só na nossa função, mas em todas as áreas.

E o gosto pela coisa? “A sensação de comandar uma partida, no meu caso, começou nas salas de aula, com os professores. Gostei muito, procurei, na época, uma entidade, a Liga Juiz-forana de Futebol de Salão. Hoje não estou mais na entidade por alguns motivos, mas devo muito a Adilson Mattos.  Em 2002, busquei a Federação Mineira futsal para ser árbitro regional, fiz um curso em Ipatinga, atuei nas divisões de base, até chegar, em 2004, a uma final de Campeonato Mineiro entre Minas e América”.

Desde 2005, estou no quadro nacional do futsal, atuando em vários estados. Em 2008, participamos das quartas-de-final da Liga.

“Só não dá ainda para se dedicar mais a arbitragem nacional de futsal porque não tem como deixar as atividades profissionais, a remuneração”.

Com todas as dificuldades, Dirceu acredita que Juiz de Fora hoje é uma referência na arbitragem nacional – citou os exemplos de Miriam Basílio e Anderson Caçador no vôlei, Heli, no basquete, e outras modalidades. No futsal, temos um árbitro do quadro internacional, Alexandre Campos.

PERGUNTAS

Entre as perguntas feitas pelos alunos, no espaço após a apresentação de cada árbitro, destacamos as seguintes respostas:

HERMAN: “A 1ª Divisão do Futebol de São Paulo banca todas as outras divisões do futebol do estado”.

TECNOLOGIA NAS DECISÕES DA ARBITRAGEM:

VANGASSE – “Nas divisões, há campeonatos que você tem 30 câmeras, como uma Copa do Mundo ou mesmo uma Série A do Brasil, e num outro jogo só cinco câmeras, como, talvez, numa Série D. Na minha opinião e da Fifa, as regras do futebol jogado na várzea são as mesmas deum futebol da Copa do Mundo. Tecnologia só para série A e não para a Série D, eu não concordo”

HERMAN: “O projeto da Fifa do sensor da linha do gol, se conseguir se criar uma tecnologia com essa capacidade, entendo que em breve a FIFA vai aprovar e o sensor estará funcionando, nessa situação de confirmar se a bola entrou ou não.”

 

 

 


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Uma Resposta to “Veja matéria especial: com a palavra, os eternos alvos “homens de preto””

  1. Dirceu
    02/11/2011 às 17:12

    Parabéns pela matéria Ivan!!! mostra o apoio e a informação de qualidade que você fornece a todos!!! O Esporte juizforano ganha muito com o toquedebola!!!
    Parabéns e que continue sempre prestigiando os eventos de nossa cidade.

    Obrigado ao professor Ochhi pelo convite para estar em seu evento, parabéns Hérman e Vangasse pelos seus êxito, vocÊs merecem!

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