12 jun 2018

“Não vale a pena ser favorito”. Renato Miranda e a cabeça da Seleção



Mesmo com derrota em casa em 2014, CBF não realiza trabalho psicológico na Seleção

  Copa do Mundo sempre foi dos assuntos o mais importante para o esporte brasileiro. A mobilização de esforços e torcida demonstra isso a cada quatro anos. A pressão por resultados positivos – que no Brasil significa ser campeão – é grande em cima dos sempre favoritos jogadores canarinho.

  Muito se viu de evolução em diversos aspectos do futebol nacional em relação à estrutura e preparação da Seleção para os mundiais. Mas, surpreendentemente, há alguns dias, em matéria publicada no O Globo, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) revelou não ter um trabalho perene de preparação psicológica para os comandados atualmente sob a tutela de Tite.

 No contexto

  Lançando seu terceiro livro cujos textos tratam sobre a preparação da parte mental dos atletas, o professor doutor em psicologia esportiva, Renato Miranda , falou ao Toque de Bola sobre o assunto. Nessa entrevista, o especialista conta como deveria ser trabalhada a mente dos comandados de Tite, em quais situações isso pode ser decisivo, além de como o tema do traumático 7 a 1 para a Alemanha deve ser abordado.

  Sempre atualizado com as principais tendências de sua área, Miranda aborta o Mundial da Fifa em sua obra atual em alguns textos, como “Como a ansiedade pode influenciar no rendimento”; “A Copa do Mundo é um marco na carreira do atleta”; e “Copa do Mundo: não vale a pena ser favorito”. O professor aconselha como os jogadores devem encarar a experiência na competição e até arrisca prever como será o contexto da Russia 2018.

Renato Miranda é doutor em psicologia esportiva

Entrevista: Renato Miranda

O Brasil perdeu tempo ao não realizar um trabalho perene de preparação psicológica para os atletas da Seleção mesmo após o Mundial de 2014?

Em termos de Seleção a gente poderia dizer que sim, até pelos próprios problemas que a CBF passou. Agora, se os jogadores em seus clubes tiveram esse tipo de trabalho ajuda muito. A condição individual conta muito nessa hora.

Como deveria ser feito esse trabalho?

Para mim é muito óbvio: preparar um goleiro para entrar calmo, levar um gol no começo e ficar firme até o final. Preparar o jogador para, ao invés de ficar chorando ou exacerbadamente emocionado antes de um pênalti, ficar feliz pois a vida toda ele batalhou para estar ali. Saber como se comporta em um pênalti, como age, como controla a mente, como controla a ansiedade, como faz para ter uma noite de sono profundamente tranquila. Falo sempre, e quase ninguém se dá conta, é importante saber como o jogador dormiu na noite anterior a um jogo importante. Ou seja, deve-se ensinar aos atletas como ele mesmo faz para ficar relaxado, ficar motivado, ficar concentrado, ficar calmo, não revidando uma provocação, por exemplo.

Qual a importância desses trabalhos específicos para o sucesso em uma Copa?

A história das copas, com a Hungria em 1954; a Holanda em 1974; e o Brasil em 1982, já provou que não basta ter um bom time tecnicamente melhor. É preciso que haja uma mobilização psicológica inclusive. Observe bem: sete jogos não é nem um problema de ordem de preparo físico. É de ordem física, por assim dizer, de desgaste. A questão do treinamento em si e relativamente influente. Pode parecer paradoxal, mas lembremos que o Felipão assumiu em 2002 há poucos meses da Copa. Todas as seleções se preparam efetivamente há poucas semanas do Mundial. Pressupõe-se que os atletas que estão lá estão bem preparados.

Seria então a intensidade psicológica tão grande quanto a física em um Mundial?

Jogador da Seleção Brasileira tem que pensar que é um torneio de curtíssima duração e altíssima intensidade emocional. Que tem equipes muito parelhas, portanto pode ter tensão em termos de resultados apertados, disputas de pênaltis a partir do fim da primeira fase. Surpresas podem acontecer. Todos os times tem um ou outro atleta que pode fazer a diferença, em um lance apenas. Pode acontecer de se levar um gol rápido ou um atrás do outro, como houve em Belo Horizonte em 2014. O atleta tem que pensar que isso tudo pode acontecer.

Marcelo foi titular na derrota por 7 a 1 para a Alemanha e novamente está na Seleção

Então o ideal seria não esquecer o 7 a 1? Não pensar que uma situação daquelas nunca mais vai acontecer?

Não pense que ‘isso nunca mais vai acontecer’. Porque ninguém pode dizer que sim. Mas eu pergunto: quem pode dizer que não? A pessoa sempre tem que pensar que tudo de bom e tudo de ruim pode acontecer. Assim, em termos plausíveis, de derrota ou vitória. Se a pessoa acreditar piamente que ela tem condições, habilidades físicas e psicológicas para evitar um fracasso e ter o sucesso, ela se defende bem. Aquilo que aconteceu de derrotas, não só essa, mas outras dramáticas da história mesmo, o indivíduo tem que acreditar que pode acontecer de novo ou pior. Daí vai trabalhar no que ela tem que fazer para que isso não aconteça e seguir nessa prevenção.

Quem esteve na Seleção em 2014 e participou do jogo contra a Alemanha acaba ficando mais preparado para passar por situação semelhante?

Sem dúvida quem viveu o 7 a 1 tem mais casca. Quando a pessoa passa por situações mais difíceis e supera, fica mais resistente, mais resiliente. Mas isso também é muito individual. Esses atletas já são por natureza bem preparados. Com muitos enfrentamentos duros em seus campeonatos nacionais, na Champions League. Têm todas as condições para superarem, por exemplo, o trauma do 7 a 1. Mas não basta tê-las, ter as ferramentas. Tem que se preparar.

Nesse sentido, a autoconfiança do jogador tem que ser trabalhada e preparada?

Sim. E quando eu digo que o atleta tem que ser autoconfiante, quer dizer que ele tem que pensar no pior. Ou seja, antecipadamente ele mentaliza que pode ser, por exemplo, eliminado na primeira fase. Ao mentalizar isso, ele já vai se protegendo, tomando providências para que isso não aconteça. Reage previamente. É o primeiro passo para uma eventual vitória.

Mesmo quem venceu e vence sempre deve manter um trabalho mental de preparação constante?

A vitória gera imagens de sucesso. Mas se formos analisar friamente, a Alemanha de 2014 quase perdeu para a Argélia. Reveja as melhores defesas do Neuer (https://www.youtube.com/watch?v=En_LBIWBpeU), e você vai achar umas quatro daquele jogo. A França, nas quartas-de-final, pressionou muito os alemães e, se não fossem as intervenções do seu goleiro, o time estaria eliminado. São pequenos detalhes que podem por tudo a perder. Então acho que, independentemente de quem faça o trabalho, tem que existir um trabalho psicológico muito forte nas seleções.

Paulinho e William estiveram em 2014 e agora são titulares do Brasil na Copa 2018

Como imagina que será essa disputa da Copa?

Estou fazendo conjecturas e posso errar, mas creio que vai ser uma Copa de jogos acirradíssimos. Teremos partidas com uma certa violência, acredito. No sentido de jogo aguerrido mesmo. E acredito em muitas disputas de pênaltis. Por que podemos pensar assim? A tendência é essa nos últimos anos. Os times estão muito parelhos, e as disputas cada vez mais intensas e equânimes.

O Brasil é considerado um dos favoritos para vencer na Rússia nesse contexto. Isso é bom?

Em um ambiente no qual há muito equilíbrio, o favorito gera muita resistência contra ele mesmo. Do tipo ‘é favorito, vamos ver se é mesmo’. Nos esportes individuais a gente vê táticas para evitar isso. O Roger Federer, por exemplo. Os atletas oponentes ficam injuriados com ele. Sempre em toda final ele está gripado, ele está fraco, ele está com dor, ele sempre está mal. Tirando dele o favoritismo.

Desta maneira, como um atleta da Seleção estaria bem preparado para encarar essas dificuldades e pressões?

Ele tem que ter na cabeça que, tanto para o bem como para o mal se pode entrar para a História na Copa. O atleta tem que ter essa percepção, e que o momento da Mundial serve para dar alegria a ele. Trabalhou a vida toda para estar ali e tem que desfrutar. O esporte existe para alegrar a alma das pessoas. O jogador tem que estar alegre. Quando me falam: Renato, um esportista que chora no hino nacional, o que você acha? Digo: tudo que é emoção exacerbada atrapalha. Na concentração por exemplo, mostra uma pessoa fora de controle. Tudo aquilo que é controlado é bom, passou disso, atrapalha.

Texto: Toque de Bola – Wallace Mattos

Foto Brasil x Alemanha: Bruno Domingos/Mowa Press

Fotos Seleção Brasileira 2018: Lucas Figueiredo/CBF

Foto Renato Miranda: divulgação


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