03 jul 2014

Doutor em Psicologia do Esporte, professor da UFJF acha normais reações da seleção



Desde a escolha do Brasil como sede da Copa, profissionais já tratavam a pressão da torcida e imprensa sobre os jogadores como inevitável. Maracanazo, eliminação com falhas no último Mundial e outros aspectos foram abordados como base desta pressão. O professor da UFJF, Renato Miranda, doutor em Educação Física e Psicologia do Esporte pela Universidade Gama Filho, e um dos responsáveis pela reação do time de vôlei da Federal na última Superliga, defendeu reações como a do zagueiro capitão da Seleção Brasileira, Thiago Silva, e do goleiro Júlio César após o fim da prorrogação contra o Chile.

O zagueiro do PSG, da França, pediu para o técnico da Seleção, Luiz Felipe Scolari, que fosse o último a cobrar pênalti, depois até que o goleiro Júlio César. Segundo o professor Miranda, o erro foi o pedido do jogador ter sido revelado à imprensa.

“O Robben (da Holanda) ia bater o pênalti, olhou para o colega dele (Humtelaar) e perguntou se ele queria bater. É um esporte coletivo e o importante é o resultado. Se sou o batedor de pênalti e na hora estou com dor, com raiva, cansado ou nervoso, não há problema nenhum de chegar e te pedir para bater. Se o Thiago Silva não está se sentindo bem para cobrar o pênalti, é até bom que o técnico não o coloque para efetuar a cobrança. O problema é que isto deve ser realizado entre eles. Isto compromete uma liderança, ele deveria é chegar calmamente e pedir para bater por último por não estar bem. Agora, quando a pessoa tem quase um colapso nervoso e chora muito, repercute, mesmo às vezes não sendo, uma fraqueza do capitão”, explica.

Thiago Silva tentou se isolar momentos antes das cobranças de pênalti contra o Chile e recebeu apoio de companheiros

Thiago Silva tentou se isolar momentos antes das cobranças de pênalti contra o Chile e recebeu apoio de companheiros

Choro dos jogadores

A emoção dos atletas desde o momento em que entram no gramado de jogo até o fim das partidas tem sido muito forte. Um dos atletas que mais expõe é o goleiro Júlio César. Na partida contra o Chile, nas oitavas, o defensor da meta brasileira chorou copiosamente antes da cobrança de penalidades. Miranda vê a reação do jogador gerada por um sentimento de culpa da edição anterior da Copa do Mundo.

“O problema não é chorar, mas a pessoa estar com a emoção exacerbada. Às vezes uma pessoa que não está chorando está mais desequilibrada do que outra que está chorando. O problema do Júlio Cesar é que acredito que ele incorporou uma culpa de uma derrota na última Copa, aceitou isto de que é culpado que foi dito pela torcida e imprensa, aliás de forma equivocada. O Brasil perdeu para a Holanda, mas não foi por conta da falha do Julio Cesar. Primeiro que não foi uma falha incomum. Aquela bola cruzada pelos holandeses é difícil, então é normal um zagueiro ou goleiro falhar. Depois daquela falha, o time desandou emocionalmente, por falta de treinamento psicológico. Como o time não tinha este preparo, depois do gol outras falhas ocorreram por parte de todo o time e o Brasil acabou sendo eliminado. Então, se o Júlio tem consciência do que fazer, não há problema nenhum em chorar”, analisa o professor.

Júlio César sempre demonstrou ser um dos mais emotivos da delegação brasileira

Júlio César sempre demonstrou ser um dos mais emotivos da delegação brasileira

Visita de psicóloga antecipada

Após a classificação para as quartas de final, Felipão resolveu antecipar a visita da psicóloga da equipe, Regina Brandão. O fato levou a imprensa a cogitar que o treinador acredita que a equipe esteja sofrendo psicologicamente com a pressão de se jogar – e bem – em casa. Para Miranda, a atitude foi bem estudada e não terá prejuízos à Seleção.

“Nós podemos especular. É uma boa estratégia, porque se o Brasil vence a Colômbia, aí podem falar que a visita teve efeito, podem falar que já estava prevista. Se não der certo, ela também está protegida, podem dizer que ao menos tentaram. Mas é uma circunstância que somente estando lá para saber o que foi dito e que tipo de trabalho foi feito”, opina.

Trabalho no vôlei da UFJF

Miranda teve muitos méritos na reviravolta do time da Federal na última edição da Superliga, em que a equipe saiu da última colocação para a nona e quase classificação para os playoffs da competição, após uma sequência de seis vitórias em sete partidas. O trabalho do professor da UFJF na ocasião, no entanto, foi no dia a dia dos jogadores, fazendo parte dos treinamentos do time.

“Pessoalmente não vejo similaridades entre os dois trabalhos. Em meu trabalho houve uma intervenção nos treinamentos, na preparação e melhoria do desempenho. Pelo que tenho visto na imprensa, o trabalho na Seleção é mais de diagnóstico do estado de humos dos atletas. Meu trabalho era mais contínuo e com maior contato com jogadores e comissão técnica. No Brasil está sendo muito esporádico, então não vejo uma rotina de treinamernto psicológico, mas um aconselhamento, diagnósticos de estado de humor, enfim, basicamente isto”, conta Miranda.

O professor acredita que o trabalho psicológico na Seleção Brasileira poderia também ser exercido durante os treinamentos, ainda mais se tratando de uma competição diante dos torcedores de seu país.

“Poderia ser uma solução, mas como é uma competição curta, de um mês, este tipo de trabalho deveria ser feito tal como o dos outros profissionais, como preparador físico, ou seja, estar lá todos os dias com os atletas e realizar atividades em campo de jogo”.

Professores Renato Miranda (esquerda) e Maurício Bara foram fundamentais na reação da Federal na temporada passada

Professores Renato Miranda (esquerda) e Maurício Bara foram fundamentais na reação da Federal na temporada passada

Jogar em casa

Atuar diante de familiares, amigos e torcedores naturais do mesmo país pode ser considerado uma faca de dois gumes. Se muitos levam a pressão como impulso, outros podem sentir e ter queda no rendimento. É o que o professor Miranda salienta.

“A vantagem de jogar em casa é que todos estão acostumados com o clima, mas é natural que exista uma pressão perante sua torcida. O atleta de alto nível no futebol deve estar preparado para isto, tem de usufruir desta pressão, porque se tirar ela, a Copa do Mundo fica sem graça. A natureza do esporte é uma atividade que é avaliada sumariamente e publicamente. Então em um evento como este a pessoa está sendo vista por bilhões de pessoas. Se o jogador está preparado em todos os aspectos, naturalmente ele terá um rendimento melhor. Se alguns desses itens estiver falho, aí tende a aumentar o desequilíbrio emocional. Por outro lado, existe o preparo emocional, tudo que acontece no jogo deve ser repercutido bem no atleta por conta destas estratégias particulares”, esclarece Miranda.

Esta edição da Copa do Mundo vem provando aos brasileiros que jogos em casa trazem desafios além da equipes adversárias. Além disto, ratifica a importância de um psicológico desenvolvido e bem preparado para o sucesso individual e coletivo.

 

Texto: Bruno Kaehler

Fotos: Ivo Gonzalez, UOL Esporte e Assessoria UFJF


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