19 dez 2011

Crônica de campeão: “Das lembranças ao título”, por Ailton Nasser



Juiz de Fora (MG), 17 de dezembro de 201 1

O portal publica hoje mais uma crônica muito especial relativa ao título brasileiro da Série D conquistado pelo Tupi, fato consumado no já histórico 20 de novembro, na vitória de 2 a 0 sobre o Santa Cruz, em Recife. O jornalista juiz-forano Ailton Nasser, radicado em São Paulo e chefe de Redação da TV Record, esteve no Mundão do Arruda, e colocou tudo no papel, a pedido do Toque de Bola.

DAS LEMBRANÇAS AO TÍTULO

Por Ailton Nasser

Seguindo na escolta do ônibus que levou o time do Tupi até o estádio Arruda, em Recife, no dia 20/11/2011, dia do Santo Carijó, vieram várias lembranças à minha mente, mesmo antes de saber se poderia mesmo comemorar o título de maior expressão nos quase 100 anos do nosso glorioso galo.

 Lembrança I

Lembrei-me com perfeição do meu falecido avô Vicente Nasser (o Vicente Bagunça) quando chegava lá em casa aos domingos de manhã quase berrando a tradicional frase: Zezé ( meu pai José Nasser, o Zé Bagunça) pegue as crianças e vamos ao jogo do Tupi. Era uma ordem! Partíamos para o estádio Salles de Oliveira eu, meus irmãos Áureo e Marcus, o pai e mais os primos Tico e Afonso. Lá chegando vinha a segunda frase: Zezé hoje vai lotar o estádio. Doce ilusão, ele sempre achava que ia lotar. Entra com os meninos que eu vou ficar aqui fora. Este ato sempre me intrigava, mas no auge dos meus 10 anos não conseguia entender. Mais tarde, meu pai explicou. O Vovô ficava lá fora até o jogo começar para acionar o “plano de emergência” caso o público fosse muito pequeno: ele pagava a entrada de alguns torcedores que não tinham grana. Assim, o Salles de Oliveira acolhia um público um pouco maior. Vocês devem estar pensando: então o seu avô era diretor do Tupi? Não, nunca foi diretor. Era apenas um torcedor carijó fanático na modesta tentativa em ajudar o clube.

 Lembrança II

Em um jogo no Salles de Oliveira contra o Cruzeiro pelo Campeonato Mineiro, não me recordo com precisão a data, estávamos todos lá, menos o vovô Vicente Bagunça que na época já torcia para o Tupi lá do céu. Apesar de bagunceiro, não tenho dúvida, ele foi para o paraíso. O Áureo, que é mais fanático do que eu, invadiu o gramado logo após o árbitro validar um gol do Cruzeiro completamente ilícito. Aquelas coisas de sempre. Para os times de BH tudo, para o Tupi nada. Meu mano foi retirado de campo pela polícia. Na época toda família Nasser apoiou o ato de bravura do filho corajoso. Hoje, não apoiaríamos. De qualquer forma, o Áureo também não cometeria este desatino. Criou juízo (risos).

 

 Lembrança III

Era 1997, eu já morava em São Paulo. Vim trabalhar e colocar em prática o sonho de ser jornalista. A minha amada, idolatrada, salve, salve Juiz de Fora não me proporcionou esta oportunidade. A nação carijó estava empolgada com a possibilidade de subir para a série B. Caramba, naquele quadrangular final da série C faltava apenas um ponto para a glória, em três jogos. Em uma quarta-feira à noite, chuvosa aí em Juiz de Fora, Tupi e Sampaio Corrêa. Eu aflito aqui em São Paulo para acompanhar o jogo. Naquele tempo, não tínhamos na Internet rádios com transmissões de jogos “ao vivo”. Minha saída foi ligar em 10 em 10 minutos para a casa do meu irmão e falar com a minha cunhada para atualizar o resultado do jogo. Era a minha única interlocutora porque novamente o vovô, lá do céu, passou a ordem: Zezé pega as crianças (já nem tão crianças) e vai para o estádio porque hoje é jogo decisivo de casa cheia. Desta vez ele acertou, eram mais de 10 mil torcedores. A minha aflição era grande. A bola não entrava. Não conseguíamos fazer o gol e para meu desespero definitivo o porcaria do Sampaio Corrêa fez um a zero. Não me contive mais. O maldito DDD era bem caro, mas não pensei duas vezes, liguei para a minha cunhada e solicitei: coloque o telefone perto do rádio que eu vou ouvir os 15 minutos finais do jogo. Se o avô Bagunça pagava o ingresso para os torcedores, mesmo com a vida financeira muito difícil, porque eu, um jovem, mesmo que duro de grana, não poderia pagar a mais umas “poucas” tarifas de DDD, naquele mês. Não teve jeito, fui deitar depois de algumas latinhas de cerveja, num dos dias mais tristes da minha vida.

 

 Lembrança IV

O pai Zé Bagunça foi para o estádio assistir Tupi e Anapolina, já na fase do mata-mata ( ele foi ao Helenão em todos os jogos da série D – contra o Gama e Santa Cruz eu pude estar em JF e fui com ele). Estava acompanhado, como quase sempre, do amigo e também torcedor fanático do Tupi o médico e ex-vereador Antônio Almas. Ao saírem do estacionamento antes do jogo, meu pai se cortou na cerca de arame. Afinal, são 74 anos de vida e a visão já não é a mesma. O Antonio Almas, de imediato, sugeriu que fossem a um hospital já que o sangramento era um pouco forte. O Zé Bagunça não pensou duas vezes e respondeu: que hospital que nada, amarro uma camisa aqui no local do corte e vamos para o jogo. Não posso perder um jogo decisivo como este. O que diria o meu pai Vicente Bagunça, avô dos baguncinhas, se visse um ato de tal covardia da minha parte. O velho entrou no estádio e saiu feliz da vida com o resultado de 4 x1. Depois cuidou do ferimento e ficou tudo bem.

Estas e outras lembranças devem ser as mesmas de muitos carijós fanáticos. Afinal somos uma nação, ainda não tão grande, mas uma NAÇÃO.

Voltando ao dia do Santo Carijó, 20/11/2011, já ao final do jogo dentro do gramado eu tive a honra, a emoção, a glória, o privilégio de pegar a taça, gentilmente cedida por alguns minutos pelo nosso goleador e capitão Ademilson. Parecia um sonho. Eu, simples torcedor, pude estar presente ao Arrudaço. Calamos 55 mil torcedores. Eu estava lá, representando a família Nasser, os amigos dos bairros Industrial e Francisco Bernardino.E muito mais do que isso: representando o vovô VICENTE BAGUNÇA.

Foi um dos dias mais felizes da minha vida. FOI DAS LEMBRANÇAS AO TÍTULO!

 Texto: Ailton Nasser – Chefe de Redação da TV Record

(Foto: Wilson de Carvalho)

 

 

 

 

 

 

 


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2 Respostas to “Crônica de campeão: “Das lembranças ao título”, por Ailton Nasser”

  1. sergio de moura
    26/01/2012 às 21:41

    Linda historia,linda familia,tambem sinto amor pelo carijo….

  2. Roberto Carlos Gomes
    26/01/2012 às 20:10

    Caro Ailton Nasser

    Ao torcedor Ailton eu entendo e dou parabéns,linda historia e linda familia.
    Ao jornalista Ailton Nasser,na minha humilde opinião faltou um elogio ao comportamento da minha torcida,ela merecia duas frase no seu maravilhoso texto.
    Roberto torcedor do Santa Cruz.

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